Trabalho remoto tende a consolidar crescimento pós-pandemia

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Pesquisas apontam tendência de crescimento do trabalho em casa. Foto: Pixabay
Pesquisas apontam tendência de crescimento do trabalho em casa. Foto: Pixabay

Carlos Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Funcionária pública da Justiça mineira, Ana Esmeralda considerava, até pouco mais de um mês atrás, que jamais trabalharia de forma remota. Parecia algo inconcebível para quem estava acostumada a sair de casa todos os dias e, durante mais de oito horas de atividade em uma sala compartilhada, coordenar uma equipe de 16 pessoas. Não passava pela imaginação que a tecnologia a alcançaria antes da aposentadoria. Nem desejável, por conta da certeza de que o trabalho remoto seria incompatível com as rotinas da casa e da atividade profissional.

Após três semanas de atividade em casa, por conta da pandemia de Covid-19, com toda a equipe distribuída por Belo Horizonte e região metropolitana, Ana reconhece que “a adoção do teletrabalho é, agora, um caminho sem volta”. A adaptação foi rápida, fora alguns problemas de conexão com o computador utilizado no judiciário. Resolvidas as dificuldades operacionais, a rotina com a equipe se encaixou, com alguns problemas, claro, mas a adaptação foi surpreendente rápida.

Impulsionado pelo acaso da pandemia, o fato é que o distanciamento social imposto como resposta ao Covid-19 tem levado as empresas a sucumbir e repensar o trabalho remoto. Em muitos casos, a reestruturar suas práticas de trabalho para garantir, na medida do possível, a continuidade dos negócios. Se para uma profissional com perfil conservador, como Ana Esmeralda, foi simples a adaptação, resta às organizações acumular o aprendizado do período adiante.

A pesquisa “Práticas de Trabalho Flexível e Remoto”, desenvolvida pela Mercer, consultoria em carreira, saúde, previdência e investimentos com 609 empresas no Brasil, revela que 78% das organizações já adotam algum modelo de trabalho virtual. Home office, trabalho remoto ou jornada flexível já são parte da realidade das empresas. Das empresas que já adotam alternativas de gestão de trabalhadores, 15% passaram a adotar as alternativas apenas após o início da pandemia.

Os dados tendem a confirmar que a adoção do trabalho remoto estava caminhando. E que vai ganhar força. Seria uma questão de tempo, diante do cenário de evolução das tecnologias nos próximos anos. Sinal do amadurecimento do processo, entre as companhias que oferecem pelo menos uma das modalidades, 34% possuem uma política formal de trabalho remoto. Desse total, 22% relataram problemas com infraestrutura na implementação da política. Já entre as empresas que não possuem política formal, 88% consideram que a inclusão de uma dessas modalidades seria vista como um benefício pelos funcionários e seria positiva para os resultados da companhia.

Crescimento

“A pandemia do coronavírus é um novo vetor que está acelerando a quebra de paradigmas laborais e que mudará a concepção de trabalho para sempre”, afirma Rafael Ricarte, líder de produtos de carreira da Mercer Brasil. “O principal objetivo da pesquisa é consolidar e apresentar informações valiosas sobre o que há de mais atual nos modelos de trabalho remoto e flexível, possibilitando às empresas que tomem decisões precisas e cada vez mais imprescindíveis no processo de transformação das formas de trabalho”, explica o executivo.

Um outro estudo,  “Tendências de Marketing e Tecnologia 2020: Humanidade redefinida e os novos negócios”, desenvolvida por André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getulio Varga, prevê crescimento de 30% do home office no Brasil após a pandemia.

E sugere que líderes sejam encorajados a revisar seus processos internos, pensarem, testarem e compreenderem que a tecnologia é, “cada vez mais, um ativo humano”. Segundo matéria publicada pelo site GauchaZH, a análise cita o e-commerce e o ensino a distância, que em geral, devem crescer 30% e 100%, respectivamente. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  (IBGE) aponta que trabalhar em casa ou até mesmo em outros espaços, como o coworking, cresceu 21,1% entre os anos de 2017 e 2018.

Para o professor e coordenador do estudo, o home office já se mostrou efetivo. E com benefícios que vão ficando cada vez mais evidentes com a experiência que mobiliza milhões de pessoas pelo mundo. O profissional deixa de tirar carros da rua, desafoga o transporte público e mobiliza a economia de outra forma. Sob um olhar racional, não haveria melhor momento para ocorrer a pandemia. Há dois anos ou pouco mais, a tecnologia não estaria tão pronta e disponível como hoje.

Novos modelos de vida

Será um grande laboratório experimental. Mesmo com restrições de sair de casa, as pessoas terão mais tempo para cuidar da saúde e usufruir de coisas que lhes dão prazer sem que a empresa tenha redução das entregas e do faturamento — destaca o professor, acrescentando que muitos empresários estão preferindo adotar práticas que estimulem o bem-estar e a autonomia do funcionário em detrimento de um regime mais fechado de trabalho.

Em entrevista para o jornal, Wolnei Ferreira, diretor-executivo da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (Sobratt), reconhece que houve empresas aderindo ao home office de forma atabalhoada, sem os devidos cuidados e nem seguros sobre a eficácia e viabilidade, prospectando nele o único recurso possível.

Aos poucos, avalia, esses empresários estão melhorando suas estruturas e percebendo uma solução “confiável, segura e de contingenciamento de gastos”. Ainda que forçado em razão da pandemia, o trabalho remoto implantado emergencialmente faz as vezes de um projeto-piloto para quem vinha amadurecendo a ideia. Empresas estão testando controles de monitoramento do funcionário e da produtividade, conexão de internet e demais equipamentos.