A solução para o trânsito caótico está no ar. Mas não são os carros voadores. O trabalho em casa, com uso de tecnologias de comunicação, reduziu os congestionamentos

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

 O comportamento do trânsito no período da pandemia eliminou qualquer dúvida de que parte da solução para os problemas relacionados com o transporte de pessoas e produtos passa pelo ar. Não, não são carros voadores, drones, trens sobre trilhos suspensos e nem balões. Os proprietários de automóveis e mesmo usuários de transportes coletivos obrigados a sair de casa tiveram meses de paz no trânsito graças à solução propiciada pelo isolamento essencial para inibir a circulação do vírus. O ensinamento foi: deixe as pessoas em casa, em regime de trabalho e estudo em casa, com as tecnologias de informação e comunicação, e descubra que pelo menos metade dos problemas relacionados com engarrafamentos acaba.

O grande feito da pandemia foi o de obrigar as empresas a experimentar uma alternativa que já vinha sendo testada há anos, mas com expansão lenta. O home office era mais parte dos discursos do que das práticas. A expectativa, porém, era de que os avanços das tecnologias até meados da década atual iriam contribuir para a maior adoção do sistema. Mas as circunstâncias aceleraram o processo, demonstrando inclusive que as tecnologias disponíveis já são suficientes para garantir a integração entre empregadores e empregados durante 24 horas, em todos os dias da semana.

A adoção do home office durante a pandemia quase triplicou no País, passando de 5% para 13,5% dos trabalhadores, índice alcançado na primeira semana de maio, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A proporção de trabalhadores em home office na região Sudeste na última semana de agosto era três vezes superior à da região Norte – 14,8% contra 4,9%. E é no Sudeste que estão as principais metrópoles do País, com maior potencial de serem beneficiadas pela redução de pessoas circulando diariamente.

Efeitos saudáveis

Recorrendo ao banco de dados de Traffic Congestion Intensity (TCI), do BID Invest Dashboard, um estudo analisou o impacto da pandemia COVID-19 no congestionamento do tráfego em 15 áreas metropolitanas de 13 países latino-americanos. Entre as conclusões, os pesquisadores destacam que a diminuição do número de infecções e a flexibilidade das medidas de distanciamento social podem estar relacionadas a uma recuperação do congestionamento e que isso pode ser medido em função da taxa de recuperação da mobilidade.

O estudo também conclui que a pandemia tem revelado formas de mobilidade menos coletivas e mais ágeis, sendo esta uma importante oportunidade para o desenvolvimento de novas formas de transporte. A identificação de oportunidades de criação de novos abordagens também é apresentada pelo Instituto Universitário Europeu (EUI). O relatório “COVID-19: uma oportunidade para redesenhar a mobilidade em direção a uma maior sustentabilidade e resiliência?” defende a importância de ” Aproveitar esse impulso, por meio de um repensar das abordagens de governança das autoridades públicas, pode ajudar a traduzir essas práticas inovadoras em mudanças duradouras e disruptivas para o setor.”

O EUI defende a implantação do conceito de “Mobilidades como Serviço (MaaS, da sigla em inglês)”, alternativa tecnologia que integra diferentes tipos de meios de transporte. Isso, por sua vez, pode apresentar oportunidades importantes para acelerar a implementação da alternativa. Como resultado direto da crise, vimos os usuários de transporte adaptarem seus hábitos de viagem e trabalho, as empresas expandem suas funções para além do transporte de pessoas para entregar medicamentos e alimentos, bem como um esforço mais sistemático das empresas para compartilhar dados para ajudar a informar a resposta dos governos à pandemia.

Retorno

“Muitas empresas não testavam o home office ou, se testavam, ficavam com a sensação de que não funcionava. Mas é um modelo que foi posto à prova de uma forma que não havia sido antes”, atesta André Miceli, coordenador do MBA em Marketing e Inteligência de Negócios Digitais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que ouviu gestores de 100 corporações para chegar à projeção. Agora, é inegável que o home office se tornou uma realidade no cenário pandêmico, com perspectiva de continuidade, em que empresas que sequer consideravam a alternativa aderiram à alternativa, podendo inclusive manter o modelo após o fim das restrições determinadas pelas autoridades.

Levantamento realizado em junho de 2021 pela Dimep, fornecedora do mercado de produtos para controle de acesso e registro de ponto, junto a 104 empresas de diferentes segmentos e portes, apontou que 73% não tinham qualquer programa de home office para seus funcionários antes da crise sanitária. Destas, 64,4% sequer se planejava para algo nesse sentido. Apenas 6,7% das companhias contavam com um programa de home office para todos os colaboradores. Esse número deve chegar a 22% em um cenário pós pandemia.

Não há como negar que a pandemia trouxe um impulso inesperado à tendência do trabalho em casa, o que pode contribuir para transformações mais profundas ao longo da década. Porém, as sociedades dependentes dos automóveis dependem da abertura da mente de gestores para incluir a utilização da infraestrutura de computadores, de torres de transmissão e de sistemas de bancos de dados e de transmissão de voz, imagem e dados.

A adoção forçada da alternativa do escritório virtual – ou home office ou teletrabalho – mostrou que, da parte das tecnologias disponíveis, as condições ideais estão disponíveis dentro e fora das residências dos trabalhadores de funções administrativas, de classe média até alta renda, que podem realizar todas as suas tarefas com o uso de computadores. É verdade que, neste exato momento, em terra, por carro, ou no ar, em aviões, as cidades retomam suas rotinas e muita gente está enfrentando horas de engarrafamento ou de viagens para participar de atividades presenciais absolutamente desnecessárias.

Em escritórios de advocacia ou de contabilidade, dezenas de profissionais voltam a se deslocar para, durante oito horas, fazer o que? Ficar diante de computadores. O dia inteiro, lidam com arquivos, trocam e-mails e acessam bancos de dados de órgãos públicos. Atividades que podem ser feitas em casa, onde a maioria já tem acesso à mesma estrutura, em muitos casos com melhor qualidade às vezes.

Mas o quadro tende a passar por uma reversão momentânea até o momento, a curto prazo, em que e as empresas e profissionais vão se render à alternativa, nem que seja por conveniência. Se hoje, as condições tecnológicas básicas já avançaram bastante para justificar a possibilidade de adoção do teletrabalho por um número maior de empresas e escritórios, em mais dois a cinco anos as condições serão ainda melhores. Com velocidade 5G, avanços de inteligência virtual, poder de processamento e armazenamento de dados, as vantagens para a produção remota serão ainda maiores.

Em algum dia na década, por volta de 2020, um executivo entrará em uma sala e, ao fazer gestos, verá surgir à sua frente, em cadeiras, outras pessoas para uma reunião. Mesmo não falando chinês, nem alemão, entenderá tudo o que estiver sendo dito pelos participantes, graças aos sistemas de tradução instantânea. Os caminhos para tal dia já estão sendo pavimentados com bites. Os avanços de tecnologias de terceira dimensão (3D) e de holografia terão influência direta na perspectiva de mudança de mentalidade. Corporações como a IBM prevêm que em 2015 já será possível projetar imagens holográficas de pessoas, com o apoio de um equipamento celular.

RESISTÊNCIAS AO HOME OFFICE

Indústria automobilística

Poder de transportadores

Indicadores

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