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A robotização elimina a vantagem do custo baixo da mão de obra dos países pobres

Carlos Teixeira
Jornalista e futurista

Os robôs são os novos chineses. E serão os mexicanos, vietnamitas, cambojanos e paraguaios. A oferta abundante de mão de obra barata tende a deixar de ser vantagem competitiva nos próximos anos em países pobres do terceiro mundo. Os investimentos crescentes em automação industrial, possibilitados pela queda de preços de máquinas e sistemas informatizados, muda a lógica dos investimentos em novas fábricas.

Atropela, inclusive, os propostas de campanha apresentadas por Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, eleito com discurso nacionalista e com promessas de fortalecimento da economia interna do país graças à reinstalação de indústrias que migraram para a Ásia em busca da mão de obra barata. O “made in usa” poderá ocorrer, de fato, mas não do jeito imaginado.

“Os planos de Trump vão criar empregos sim, mas para robôs”, avalia Paul Diggle, economista-sênior da empresa de gestão de ativos Aberdeen, em artigo publicado na revista Exame. Em resumo, não parece haver mais dúvida de que a mão de obra barata dos países em desenvolvimento não estará mais competindo com a mão de obra cara dos países desenvolvidos. E não são exclusivamente os robôs. O outro nome dos trabalhadores dispensados é inteligência artificial, que vai ajudar a melhorar processos de gestão, viabilizando a transferência das unidades de produção.

O retorno às origens será marcado, a médio prazo, por fábricas cada vez mais “human free”, livres de humanos. Ou quase, pelo menos, considerando que há migração de empregos do chão de fábrica para atividades tecnológicas. No começo de 2018, os Estados Unidos poderão ver a inauguração de uma das primeiras fábricas de roupas comandadas praticamente apenas por robôs. Será o resultado da inovação desenvolvida pela SoftWear Automation, empresa norte-americana de tecnologia, que deu a largada para o que pode significar uma enorme mudança operacional na indústria têxtil global.

Quem pretende abrir a tal planta é a Tianyuan Garments Company, empresa chinesa que produz peças para marcas como Adidas e Armani. Eles usarão tecnologia desenvolvida pela SoftWear para migrar parte de sua produção para Arkansas, nos Estados Unidos, o que só será possível graças ao caráter autônomo das máquinas.

Segundo dados da Federação Internacional de Robótica (IFR, da sigla em inglês), que rejeita a tese de que as automatização irá extinguir em massa os empregos, o número de robôs industriais implantados em todo o mundo aumentará para cerca de 2,6 milhões de unidades até 2019. Cerca de um milhão de unidades a mais do que no ano recorde de 2015. Cerca de 70% dos robôs industriais estão atualmente em atividade nos segmentos da indústria automotiva, elétrica, eletrônica e metalúrgica e mecânica.

O Boston Consulting Group acredita que a parcela de tarefas realizadas por robôs vai subir de 10% para 25% até 2025. Há 3 anos, o Departamento de Estatísticas de Trabalho dos EUA criou projeções de quais empregos teriam os maiores crescimentos e declínios entre 2014 e 2024. A previsão é que a manufatura caia mais do que qualquer outro grande setor. Nem tudo é por causa da automação, mas ela terá um papel importante em toda a história.

Investimentos chineses

A disposição de cortar trabalhadores de carne e osso por máquinas é evidente até mesmo na China. A Foxconn, fornecedora de equipamentos da Apple, anuncia desde 2016 a disposição de trocar 60 mil empregados por robôs. A China, por sinal, surpreende pela voracidade dos seus empresários recém-convertidos. Na costa sul da China, milhares de fábricas estão focadas na automação, numa revolução industrial centrada na robótica, apoiada pelo governo e de uma dimensão nunca vista.

Desde 2013, a China tem aparecido como maior comprador do planeta, O país asiático supera até mesmo os gigantes da fabricação de alta tecnologia como a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul. No final deste ano, a China irá ultrapassar o Japão e passará a ser o maior operador de robôs industriais do mundo, ainda segundo a Federação Internacional de Robótica, um grupo da indústria robótica. O ritmo de transformação na China é “único na história dos robôs”, diz Gudrun Litzenberger, secretária-geral da IFR, que tem sede na Alemanha, onde estão localizados alguns dos maiores fabricantes de robôs industriais do mundo.