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O mundo depende das vacinas da Índia e China. E segmento de mercado ocupava, antes da pandemia, importância secundária para os grandes laboratórios

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Os problemas de abastecimento de vacinas para o combate ao Covid-19 retratam uma verdadeira “sinuca” de todo o planeta. A estrutura de produção e distribuição da rede de suprimentos para a saúde se tornou dependente de poucos jogadores. E de muito dinheiro. No processo de globalização e de especialização produtiva, as maiores empresas farmacêuticas do mundo são americanas e europeias, pouco interessadas na produção de vacinas, um mercado menor.

Agora, com a crise explodindo e um mercado de 7 bilhões de seres, essas empresas – e a indústria de medicamentos como um todo – dependem de cadeias de suprimentos globais, tendo a China e a Índia como atores principais. Não é à toa que, para controlar a pandemia, o mundo precisa de produtos farmacêuticos destes países. Cerca de 95% do fornecimento de princípios ativos utilizados na fabricação de medicamentos, também conhecidos como produtos farmoquímicos e insumos farmacêuticos ativos (IFAs) ou, em inglês, Active Pharmaceutical Industry (API), têm origem entre fornecedores chineses e indianos.

País onde o Brasil foi buscar um carregamento capaz de atender uma parte da sua população, a Índia tem a Serum Institute of India em Pune, o maior fabricante mundial de vacinas, fornecendo a maioria das vacinas infantis para a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Unicef. Além de uma população de 1,3 bilhão de pessoas, a China consolidou seu próprio grande parque de produtos medicinais ao receber as empresas dos Estados Unidos interessadas em explorar a sua mão de obra. Os chineses se sofisticaram e elegeram as ciências biotecnológicas como prioridades de seus investimentos, o que possibilitou ocupar a liderança no mercado global.

Dependência

A cadeia de suprimentos da fabricação farmacêutica envolve duas etapas principais. O primeiro é a produção de ingredientes farmacêuticos ativos, os APIs – as partes principais de um medicamento que produzem um efeito. A segunda etapa é um processo físico conhecido como produção de formulações. Por mais de uma década, a China tem sido o maior produtor mundial de APIs, fornecendo cerca de 40 por cento de todos os usados ​​em todo o mundo.

Para quem buscam críticas honestas, uma pergunta a ser feita é: por que os dois países ganharam tamanho poder no mercado farmacêutico? Na verdade, uma resposta, entre outras, reside no fato de que, ao contrário do que poderia imaginar o senso comum, vacinas não são um bom negócio para as grandes indústrias do setor. Em outras palavras, os maiores laboratórios do planeta não têm interesse na produção de vacinas, um negócio menor.

Em entrevista para o site da BBC em fevereiro de 2020, o economista especializado em saúde da Organização Mundial da Saúde, Miloud Kadar, estima que o mercado global de vacinas valia US$ 24 bilhões em 2013 – menos de 3% do valor total do mercado farmacêutico naquele mesmo ano.

Na época da entrevista, o mercado de vacinas ganhava novo ímpeto, impulsionado por fatores como a expansão de programas de imunização em países como a China e a decisão de filantropos de financiar fundos para pesquisa e desenvolvimento de novas vacinas – o fundador da Microsoft, Bill Gates, é um exemplo nesse sentido. Segundo a matéria publicada, as vacinas podem ser uma área interessante para as empresas farmacêuticas, mas, mesmo do ponto de vista financeiro, elas são um bom negócio para a humanidade como um todo – já que ficar doente é muito mais caro.

Um estudo conduzido pela Universidade Johns Hopkins em 2016 estimava que, para cada dólar investido em vacinação nos 94 países de menor renda média do planeta, poupava-se US$ 16 em despesas no sistema de saúde, em perdas salariais e perdas com produtividade causadas por adoecimento e por morte.

Participação

A Índia é o terceiro maior produtor de produtos farmacêuticos do mundo em volume, estima-se que forneça cerca de 20% das exportações globais de medicamentos “genéricos” – ou seja, medicamentos que não estão mais sob patente. O país também é o principal fornecedor de medicamentos para os países do sul global, levando a agência de ajuda Médicos sem Fronteiras a apelidá-lo de “farmácia para o mundo em desenvolvimento”.

As maiores empresas farmacêuticas do mundo, conhecidas como “ big pharma”, são americanas e europeias. As cinco primeiras são:
Pfizer (EUA)
Roche e Novartis (ambas suíças),
Merck (EUA)
GlaxoSmithKline (Reino Unido).

Mesmo antes da pandemia, há algum tempo existe uma preocupação significativa com a natureza globalizada da indústria farmacêutica e sua vulnerabilidade. Os EUA e a Europa não fazem mais muitos tratamentos comuns e, em algumas áreas, são totalmente dependentes da Índia e da China. Os temores de que a China manteria seus medicamentos produzidos internamente para si no caso de uma pandemia global não foram confirmados até agora. E a maioria das proibições de exportação da Índia foram rescindidas. Mas as tensões entre nacionalismo e globalização prejudicaram a busca inicial por tratamentos.

Qualquer vacina em perspectiva enfrenta o desafio de não apenas ser eficaz, mas também exigir uma enorme capacidade de fabricação para atingir a maioria da população mundial. De acordo com a Coalition of Epidemic Preparedness Innovations, que financia o trabalho com vacinas, existem agora mais de 200 vacinas candidatas contra o coronavírus em desenvolvimento. Enquanto 42 por cento estão na América do Norte, a China está emergindo como um favorito, com seis dos dez que já avançaram para testes em humanos sendo desenvolvidos aqui.

Temores confusos sobre o “nacionalismo da vacina”, o presidente da China, Xi Jinping, anunciou na Assembleia Mundial da Saúde em 18 de maio que “o desenvolvimento e implantação da vacina Covid-19 na China, quando disponível, se tornará um bem público global, que será a contribuição da China para garantindo a acessibilidade e disponibilidade da vacina nos países em desenvolvimento “. As dependências e interdependências da globalização foram expostas pela pandemia Covid-19 – e em nenhum lugar mais do que na indústria farmacêutica.

Embora possa ser uma empresa americana ou um laboratório de Oxford que é saudado como um herói para um tratamento ou prevenção, a tarefa não é apenas descobrir um tratamento ou vacina que funcione, mas torná-lo disponível para o maior número de pessoas possível em um curto espaço de tempo o tempo possível. A realização bem-sucedida dessa tarefa – especialmente no sul global – é difícil de imaginar sem o envolvimento da China e da Índia. A Covid-19 ignora fronteiras e as soluções para resolvê-las também precisarão superá-las.

Leia também: Por que o mundo depende de vacinas da Índia e China

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