Nem mesmo oração forte é capaz de controlar a doença do extremismo de direita

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
O pessimismo que carrego há anos ao encarar o panorama futuro da nossa espécie voltou a bater bumbo em minha cabeça diante dos malucos que, nas redes sociais, beberam, tomaram banho ou lavaram frango com o detergente Ypê, como um processo de resistência ao sistema. As imagens acionam gatilhos mentais de ansiedade, incredulidade e de desejo de que o mundo pare para eu descer. A minha personalidade distópica desenvolveu a hipótese de que a ignorância humana mete mais medo do que os efeitos da inteligência artificial.
É inevitável pensar que os idiotas são como os ratos e as baratas a desafiar a suposta sabedoria do homo sapiens. A crença sobre a evolução da sabedoria, espalhada há milhares de anos. Os batedores de continência para pneus são muitos, cada vez mais numerosos, estão em todos os lugares e, pior, têm um histórico como a única praga a superar todas as batalhas contra inimigos que tentam combatê-los através dos séculos.
Nem mesmo oração forte é capaz de controlar a doença do extremismo de direita. Em nossa volta sempre há quem pode até não tomar o detergente Ypê, mas que acredita que o mundo está sendo dominado por feministas, ativistas LGBTQIA+, ambientalistas, cientistas, ateus e estudantes de federais, entre outros. Seu parentes, amigos e colegas do marcha soldado são mais perigosos que a inteligência artificial porque sabemos quem são e onde moram as personalidades como Elon Musk, do X/Twitter, Jeff Bezos, da Amazon Bill Gates, da Microsoft e Sam Altman, do ChatGPT e outros membros da comunidade de desenvolvedores das ferramentas capazes de eliminar alguns milhões de empregos enquanto preparam abrigos para sobreviver ao fim do mundo.
Caso exista vontade política dos governantes e a ocupação de ruas e praças por movimentos sociais, há como neutralizar o poder do Vale do Silício, nos Estados Unidos, e das instituições financeiras que sustentam os interesses dos grupos econômicos. Mais fácil ainda é evitar que a indústria de detergentes interrompa a oferta de produtos que estão criando riscos para a saúde das pessoas.
Porém, inibir milhares de voluntários do auto extermínio, confiantes em defender ideias que nunca estudaram, é bem mais complexo. Não há como impedir o comportamento de pessoas com problemas cognitivos, como os usuários de produtos contaminados da indústria Ypê, que fazem manifestações absurdas, convictos de que estão desafiando o sistema.
A insanidade é o maior desafio dos tempos porque a crença no domínio do conhecimento não é exclusividade de quem radicaliza em frente a quarteis. A direita se beneficia, até mesmo, dos que apostam que um único partido é responsável por tudo que acontece de errado no Brasil e no mundo.

