A crise gerada pelos caminhoneiros tende a ocorrer com mais frequência - foto: Agência Brasil
A crise gerada pelos caminhoneiros tende a ocorrer com mais frequência

Carlos Teixeira
Jornalista – Futurista – Radar do Futuro

Desventuras em série. O nome dado à história infanto-juvenil sintetiza com elevado índice de precisão o que vem pela frente na vida dos brasileiros nos próximos anos, passada, mais uma etapa do processo de desatinos da realidade. Em treze livros de suspense, o autor, Daniel Handler, conta os percalços enfrentados por três crianças órfãs, entregues a um tutor cruel, interessado na fortuna herdada por elas. Mal superam os desafios colocados no caminho pelo tio malvado, novas dificuldades vão aparecendo. Não sobra tempo para respirar.

A ideia pode não ser tão original, diferente de outras da literatura ou do cinema. Tudo bem. Mas o título é perfeito. A vida do brasileiro será assim não só nos meses até a eleição e depois dela. Também nos próximos anos. E podemos ir nos acostumando a um novo padrão de funcionamento da sociedade. Quando você achar que todas as armadilhas deixadas pelo caminho foram superadas, um novo capítulo.

Com mais suspense. É o que vai acontecer agora mesmo, após o desfecho da mobilização dos caminhoneiros, responsáveis por uma crise de abastecimento que não estava na programação de quem achou que, com um novo governo, as coisas entrariam em um eixo de paz e harmonia. Que nada. A instabilidade será a marca da sociedade influenciada pela polarização e pela ausência de disposição de repensar a vida enquanto coletividade.

Ciclos instáveis

A teoria de estudo de cenários enquadra os acontecimentos recentes, como a greve dos caminhoneiros, como um cisne negro. Um evento aparentemente imprevisível diante de uma lagoa repleta de gansos brancos, patos e marrecos. E de jacarés, claro. Ninguém previu que donos de caminhões insatisfeitos poderiam provocar uma crise com a dimensão gerada. O governo poderia até ter percebido, pelo simples fato de que foi alertado pelos próprios grevistas sobre a intenção.

Posto o problema, resta entender que as nuvens atuais, que incluem diferentes tons de cinza até o apoio a soluções radicais, sinalizam uma resposta social a um ciclo se formando no horizonte. O equilíbrio não virá tão cedo. As razões da crise futura estão longe das atenções de grande parte da população. O imperceptível tem nome: zeitgeist, termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos.

O que apoiadores revoltados dos caminhoneiros ou de soluções radicais, que defenderam a queda de Dilma Rousseff e agora querem derrubar Michel Temer da presidência, além de pretender explodir todo o sistema, deveriam entender, por exemplo, é que há uma consolidação de um padrão de funcionamento da economia e da sociedade. Em uma escala planetária, ainda como resultado do fim da União Soviética em 1991, o mundo está sentado sobre a crença de que além do liberalismo não há alternativas possíveis. No caso brasileiro, um liberalismo que vai além do liberalismo. O neoliberalismo.

Tempos de desventuras

O zeitgeist explica o fato de que mesmo da boca do cidadão mais simples da escala de renda é possível ouvir hoje a defesa de teses de forte cunho liberal. Como a defesa do “fim do estado” ou do “mercado livre”. Alguém que não consegue entender que a reversão do desemprego vai depender, nos próximos anos, de mudanças mais amplas, que vão além de questões de governo, mas que, contraditoriamente, dependem muito das metas governamentais. No caso brasileiro, as propostas de gestão pública em vigor deixam claras todas as opções de redução dos investimentos públicos, inclusive em áreas básicas como saúde e educação.

Por que, no final das contas, falamos de mudanças de modelos de produção e de sociedade. O Fórum Econômico Mundial, entidade dos capitalistas mais capitalistas do planeta, alerta, que estamos em meio a um processo de profundas mudanças, geradas pela quarta revolução industrial. Ou revolução digital, como queiram. O desemprego que atualmente irrita parte da população é resultado, também, da influência crescente das tecnologias sobre o mercado de trabalho. Por mais que se tente atenuar os discursos pessimistas, o fato é que haverá menos gente empregada no futuro.

Apenas a consciência sobre as transformações que estão ocorrendo e a busca por soluções coerentes com a nova realidade, com a adoção de novos padrões — zeitgeist –, serão capazes de reduzir o nível dos sobressaltos esperados para o futuro. Como sobreviver a isso? Eis o desafio. Mas ter consciência municia as pessoas de melhores condições para enfrentar o processo de migração para os novos modelos de vida.