Adeus, desisti de nós

Chega o momento em que precisamos nos desvencilhar das relações impossíveis

Ninguém pode me acusar de não ter tentado manter a relação. Tenho a consciência em paz, com a serenidade de quem lutou para ser melhor. Não te traí, apenas fui incapaz de atender suas expectativas, de valorizar tudo o que você me oferecia. Fui persistente dentro das minhas possibilidades.

Consciente da sua importância, nas últimas décadas me esforcei para ser uma pessoa melhor e mais organizada. Você há de reconhecer que eu compareci a horas e horas de terapia, em tentativas de compreensão das origens do meu caos mental, dos meus comportamentos sem controle, que tornaram a vida insuportável entre nós dois.

Ao desejar encontrar apoio, gastei o dinheiro que prometi controlar a cada novo período. Precisava compreender as origens do meu descompasso. Procurei até mesmo jogadores de cartas e coachs em busca de respostas para a nossa incompatibilidade.

Saiba que meu desejo de manter a relação sempre foi sincero. Nada deu certo. A cada ano eu renovava a esperança de fortalecer os vínculos entre nós dois.

A cada janeiro, eu prometia mudar meu jeito de agir diante das demandas do mundo. Que seria mais atento a todos momentos dos próximos doze meses. Que haveria mais comprometimento. Jurava estar atento a todos os compromissos que compartilhava entre nós.

Você me ofereceu oportunidades em todos esses anos para organizar a vida. De ser um sujeito mais controlado no dia a dia. Mostrava que eu poderia lembrar dos aniversários dos amigos e parentes, dos feriados que poderia descansar com a família, das prioridades com as contas a pagar, dos encontros marcados. Acontecimentos anotados mês a mês.

Mas eu falhei durante todas as décadas em que tive você diante de mim. Quando chegava o final do ano eu percebia invariavelmente a frustração de falhar. Era como se eu tivesse me desligado de tudo o que eu tinha imaginado no início de cada nova etapa da vida.

Como se eu vivesse um processo permanente de repetição, em que os planos ficavam para depois. As melhores intenções se perdiam.

Então, em dezembro você estava em algum canto, esquecida. Denunciava a verdade: eu não tinha cumprido com praticamente nada do que tinha jurado fazer. Nenhuma meta estabelecida tinha sido cumprida. Nossa relação estava marcada por muitas páginas em branco.

Agora, assumo integralmente a responsabilidade pelo rompimento definitivo. Eu não consegui. Desisto, nao quero mais sofrer.

Adeus agenda, vou deixar a vida me levar.

Edições anteriores

Trump desnuda o espírito do capitalismo

No futuro, se houver, o presidente dos EUA, Donald...

Biometria Pós-Quântica e o poder da palma: A nova fronteira da confiança digital

Ao adotar algoritmos resistentes a computadores quânticos, as empresas...

Futuro da endocrinologia: oportunidades e ameaças para especialistas

As inovações tecnológicas exponenciais, com apoio das Ciências da...

2025 foi o ano mais caro da história em termos de incêndios florestais

Os incêndios florestais representaram 38% de todas as perdas...

Quem influencia os influenciadores dos tempos atuais

O novo malandro está no Congresso Nacional, no sistema...