USP lança curso de engenharia da complexidade

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A Escola Politécnica da USP prepara a criação de um curso de engenharia com perfil inovador : foto - Marcos Santos/ Agência USP Imagens
A Escola Politécnica da USP prepara a criação de um curso de engenharia com perfil adaptado a novas demandas

Redação
Radar do Futuro

A Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP) dá um sinal importante sobre as adaptações que provavelmente vão ocorrer nos currículos dos cursos superiores para atender demandas futuras do mercado de trabalho. O lançamento de um novo curso, de Engenharia da Complexidade, revela que a integração de áreas diversas, inclusive fora das ciências exatas, será um traço comum no futuro das atividades dos estudantes.

A iniciativa, inédita no Brasil, deverá ser implementada no campus da instituição na cidade de Santos, no litoral paulista. O programa de formação terá duração de cinco anos e turmas anuais,  organizado em sete grandes blocos. Utilizará a metodologia de ensino-aprendizagem por projeto. Ainda não há data definida para a formação da primeira turma.

A Engenharia da Complexidade utiliza de maneira integrada conhecimentos de outras áreas da engenharia e da ciência para analisar, compreender e propor soluções para ambientes que reúnem um conjunto diverso de componentes – como, por exemplo, propor como solução para um problema de mobilidade urbana a ampliação de vias ou a construção de um viaduto ou túnel observando. O ensino envolve não só os aspectos construtivos, mas o impacto da obra na população, no ambiente urbano e na economia.

Teoria da complexidade

A iniciativa da Escola Politécnica nasceu da identificação da demanda por um novo tipo de profissional. Se baseia, principalmente, mas não somente, nas concepções do sociólogo Edgar Morin, que formulou a Teoria da Complexidade. Tem como referência também a Teoria Geral dos Sistemas, formulada pelo biólogo Ludwig von Bertalanffy.

“Há uma dificuldade inicial com a própria definição do que é sistema complexo. Seria um sistema complicado?”, assinala o professor do departamento de Engenharia de Telecomunicações e Controle da Poli, José Roberto Castilho Piqueira. Ele idealizou a criação do curso de Engenharia da Complexidade durante sua gestão como diretor da Escola, entre 2014 e 1018. A concepção da iniciativa inclui a crítica de que  a ciência e a engenharia têm olhado para os sistemas pelo viés da redução, em que as partes são estudadas separadamente. “Como juntar as coisas e ter algo novo é a rota da emergência. E é o que a Engenharia da Complexidade se propõe a fazer”, assinala.

Ao apresentar a iniciativa, a diretora da Poli, professora Liedi Légi Bariani Bernucci, destacou o objetivo de manter a integração da engenharia da complexidade com os outros cursos da Escola Politécnica. “E que as outras habilitações da nossa escola possam aproveitar as melhores ideias dessa discussão para elas mesmas”, afirma a diretora.

Contexto

“A integração é exatamente o que precisará a engenharia de um futuro não muito distante”, explica o professor do departamento de Engenharia de Produção da Poli, Mauro Zilbovicius, outro integrante do grupo de trabalho que estrutura o novo curso. “Precisamos superar a análise que determina a separação das áreas, pois os engenheiros estão e estarão cada vez mais sendo desafiados por problemas cujas soluções são complexas”, comentou.

Para um curso de Engenharia da Complexidade interessará, portanto, formar alunos capazes de atuar em ambientes multi ou interdisciplinares, sendo um promotor da integração entre as diversas áreas não só da engenharia, mas do conhecimento científico em geral.
Na análise do secretário estadual de Energia e Mineração de São Paulo, João Carlos Meirelles, o novo curso está em sintonia com o que a sociedade precisa em relação à formação de engenheiros.

Graduado em Engenharia Civil na Poli, Meirelles acentuou que “precisamos ter uma visão ampla dos processos”, pois “é isso que constitui os diagnósticos da engenharia do século 21”. Ele enfatizou que “temos grandes desafios a enfrentar, e criar esse curso é algo urgente e absolutamente oportuno”, afirmou.

Meirelles identificas duas grandes questões do estado de São Paulo que exemplificam a demanda pela Engenharia da Complexidade. Uma é a aglomeração da população no ambiente urbano, dado que 97% das pessoas no estado moram em cidades, onde intervenções precisam ser feitas com a devida observação dos impactos social, cultural, ambiental e econômico. Outra é o aproveitamento do potencial de produção de combustível e energia elétrica a partir das reservas de petróleo e gás no pré-sal da Bacia de Santos. “São Paulo já se tornou o maior produtor de petróleo do Brasil e temos potencial para mais. Precisamos de soluções para os desafios da exploração de petróleo em águas superprofundas e criar alternativas para o uso do gás natural, entre outros desafios”, disse.

Proposta inovadora

A criação do curso de Engenharia da Complexidade na Poli é uma iniciativa inovadora no Brasil, segundo o professor do departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Escola, Bernardo Luis Rodrigues de Andrade, que também integra o grupo de trabalho que está estruturando o curso. Ele citou algumas experiências internacionais no campo da pesquisa em Engenharia da Complexidade, como as das universidades de Calgary (Canadá), Imperial College e Oxford (Reino Unido), Sidney (Austrália), Stanford e MIT (Estados Unidos). E destacou a Universidade de Tóquio, no Japão, que conta com um departamento de Ciência e Engenharia da Complexidade.

“O Brasil, na verdade, está um pouco atrasado nesse assunto”, reconhece Andrade. Um exemplo prático é o do professor do departamento de Engenharia de Mecatrônica e de Sistemas Mecânicos da Poli, Alexandre Kawano, outro integrante do grupo de trabalho: há 20 anos ele fez doutorado na Yokohama National University, no Japão, onde desenvolveu pesquisas envolvendo o tema da complexidade. “Na ocasião, o laboratório em que eu estava usou Engenharia da Complexidade para estudar o fluxo de pessoas em uma das maiores estações de trem do mundo, a Shinjuku, que fica na Grande Tóquio”, contou Kawano.

A Poli também já se envolveu com a Complexidade, só que de forma pontual. O chefe do departamento de Engenharia de Minas e Petróleo, Giorgio de Tomi recorda que orientou o doutorado do hoje empresário Maurício Dompieri, concluído em 2010, no qual que ele utilizou a complexidade para estudar e resolver um problema de desmonte de rocha em mineração.

Estrutura

De acordo com o professor Laerte Idal Sznelwar, coordenador do grupo de trabalho que está estruturando o curso, alertou durante a iniciativa não tem por objetivo substituir outros cursos de engenharia. A Engenharia da Complexidade precisa do conhecimento e expertise não só de vários campos da Ciência, mas das diversas áreas de especialização da engenharia. “O curso vem para somar, para formar profissionais capazes de olhar os desafios de forma complexa e de agregar pessoas e conhecimentos necessários para solucioná-los”, observa.

Do primeiro ao terceiro ano, os estudantes terão as aulas de Projeto em Engenharia da Complexidade; de Ciências, que tratarão de conhecimento geral básico e interdisciplinar – Matemática, Física, Química e Biologia; as matérias de Ciências da Engenharia e Complexidade; e horas-aula para Trabalho Pessoal, que poderão ser usadas para cursos como línguas estrangeiras e outras atividades extra-classe.

Já no primeiro semestre do quarto ano, continuam as aulas de Projeto em Engenharia da Complexidade, mas no lugar de Ciências da Engenharia e Complexidade, entra a disciplina Organizações, Produção, Trabalho e Tecnologia, continuando as horas-aula dedicadas para Trabalho Pessoal. No segundo semestre, toda a carga horária será destinada para Atividades Eletivas Supervisionadas, que podem ser desenvolvidas internacionalmente – por exemplo, um estágio ou intercâmbio.

No quinto ano, o primeiro semestre é dedicado aos Módulos Temáticos, outra grande inovação do currículo. Nele há áreas selecionadas por requererem os paradigmas da Complexidade para a proposta de solução de problemas e desenvolvimento de inovações. Os módulos disponíveis serão Serviços; Cidades; e Energia e Mar. No módulo Cidades, por exemplo, ele irá estudar disciplinas como Smart Cities; Saneamento Básico; e Mobilidade Urbana, entre outras.

Em Serviços estarão disciplinas como Ferramentas de Suporte a Decisão; Trabalho e Psicodinâmica do Trabalho em Serviços; e Serviços de Educação, Saúde, Segurança Pública. Em Energia e Mar constam disciplinar como Ciências dos Dados Aplicada à Exploração Marítima e à Produção de Energia; Recursos Biológicos e Minerais do Mar; e Operações Marítimas – Infraestrutura Portuária e Logística. O último semestre é para realização e apresentação do trabalho de conclusão do curso.

Da Acadêmica Agência de Comunicação

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