Adriano Veloso, cientista da computação, defende discussões urgentes sobre o futuro.

Carlos Teixeira
Editor do Radar do Futuro

Adriano Veloso é professor de ciência da computação na UFMG“Temos de antecipar a discussão sobre os impactos das tecnologias, como a inteligência artificial, sobre a sociedade, como já vem sendo feito em países desenvolvidos”. O cientista da computação Adriano Veloso, professor na Universidade Federal de Minas Gerais, há algum tempo aderiu ao time dos que alertam sobre os riscos da ausência de debates sobre o tema.

Doutor na área de inteligência artificial, o professor prega que profissionais, intelectuais e líderes de diferentes áreas no Brasil não se ligaram ainda sobre a importância de entender as mudanças do quadro pela frente, provocadas pelas tecnologias, em especial pela inteligência competitiva ou inteligência de máquina. “Estamos marcando passo”, assinala o professor.

Ele atesta que os reflexos sobre os empregos já são evidentes, especialmente em áreas de automatização. A onda ocorre, portanto, em áreas de emprego de menor qualificação. Seja na indústria, onde a entrada de robôs, mesmo que lenta, tende a se intensificar, ou no comércio, com a atualização de processos que usam intensivamente as tecnologias em substituição ao trabalho humano.

“Uma área já afetada há muito tempo é a de montagem. Tudo que envolve montagem pode ser automatizado hoje em dia” avalia Adriano Veloso. “Ainda não vemos, no Brasil, a substituição em tarefas cognitivas, mas esperamos que isso aconteça de forma mais controlada”.

Aprendizado

O debate a ser intensificado deve incluir a percepção de que mudam as relações no sistema produtivo. Nenhuma profissão perdura a curto ou longo prazos sem uma união entre o homem e máquina. “Esse é o universo que temos de debater: Qual a melhor combinação entre homem e máquina”, afirma Adriano Veloso.

De forma crescente, o ser humano será obrigado a entender o que as máquina fazem. Elas serão dotadas da inteligencia artificial, que não é como a humana. Haverá um processo de aprendizado. Hoje a máquina aprende com os humanos. Mas, no futuro, as posições se invertem e um dos papeis do humano pode ser o de aprender como as máquinas acharam determinada solução.

Durante um tempo, em dez anos no máximo, a IA tem de depender de humanos. Depois, aa inteligência artificial generaliza as soluções, até o momento em que começaremos a falar de IA geral. A partir desse ponto, o jogo muda um pouco, com maior dominio das máquinas sobre as competências dos trabalhadores.

Impactos nas profissões

A lista sobre temas que necessariamente devem fazer parte das preocupações da sociedade inclui os impactos sobre as profissões. Muitas já estão sendo afetadas. Adriano Veloso não tem dúvidas em assinalar que “em longo termo todas as atividades devem ser afetadas pelas tecnologias. Só depende do momento, se esse impacto já aconteceu ou quando vai acontecer”.

O setor de saúde, principalmente, algumas áreas médicas, como a área de radiologia, aparece em destaque entre as profissões que estão e serão mais afetadas. Outra área muito afetada pelos avanços tecnológicos é a de transporte. “Mais um tempo e os caminhões serão automatizados. Grande parte do transporte será feito por máquinas.

Nos Estados Unidos, em mais da metade dos estados, a profissão de caminhoneiro é a que mais tem trabalhadores. “É um mercado muito grande”. O professor da UFMG atesta que outro setor já muito afetado é o de finanças. Desde a área de trading até a área de seguros, intermediações financeiras são muito mais feitas por modelos matemáticos e IA do que por humanos.

Preservados

Nem toda atividade sentirá os impactos das transformações tecnológicas rapidamente. O cientista da computação e professor Veloso garante, porém, que tudo o que precisa de toque humano vai demorar um pouco mais para ser afetado em larga escala. O roteiro de itens que serão afetados mais demoradamente inclui atividades dependentes de um senso crítico, funções menos automáticas ou cognitivo.

A evolução tardará, em síntese, para atividades que envolvam algo relacionado com a consciência, algo ainda abstrato no processo de evolução das máquinas. Esse tipo de emprego, que serão os últimos afetados em larga escala.

É necessário ter uma visão objetiva sobre os impactos da evolução da inteligência artificial. Para Veloso, é necessário entender, que há efeitos altamente positivos para o conjunto da sociedade, como a perspectiva de cura de várias doenças, desenvolvimento de remédios cada vez melhores, redução da necessidade do número de cirurgias e a otimização das unidades de tratamento intensivo, na área de saúde. “Várias coisas que a gente faz hoje com as máquinas, faz melhor do que anterioremente”, avalia.

Se de um lado as máquinas trazem possibilidade de aprimorar atividades e adotar escala muito maior do que anteriormente, não se deve deixar de ver aspectos relacionados aos impactos sobre a sociedade. Como a questão do emprego. “Está é uma discussão antiga, associada à evolução tecnológica. A gente sofre o risco existencial, como humanos. Fazemos parte do futuro ou seremos obsoletos?, questiona.