Onde estudar sobre felicidade: na faculdade

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Matéria ofertada pela UnB Gama discute caminhos para uma trajetória acadêmica e pessoal mais feliz - foto: Pixabay
Matéria ofertada pela UnB Gama discute caminhos para uma trajetória acadêmica e pessoal mais feliz

Gisele Pimenta
Universidade de Brasília – UNB

Você cursaria uma disciplina da grade curricular regular chamada Felicidade? A pergunta foi feita pela equipe de reportagem a três estudantes que estavam na Faculdade UnB Gama (FGA), campus da Universidade de Brasília que concentra cinco cursos de engenharia. Habituados a fórmulas matemáticas, os jovens receberam a questão com olhares desconfiados, mas não hesitaram em uma resposta unânime: “Sim!”

“Os cursos têm uma carga teórica e prática muito pesadas, uma matéria assim aliviaria as rotinas, o estresse e até poderia melhorar o nosso desempenho nas disciplinas tradicionais”, é o que pensa Caio Franco, aluno de Engenharia Espacial. “Seria interessante uma abordagem que nos ajudasse a lidar melhor com a pressão de ter que passar de ano, tirar boa nota, se formar. Aliar outras atividades às obrigações poderia fazer com que o aluno encarasse as situações de forma mais leve, mantendo a busca por bons resultados”, opina.

Embora a experiência na universidade seja individual, o sentimento de Caio é comum entre muitos estudantes de graduação. Observando essa conjuntura e considerando relatos de vários alunos, um grupo de professores da FGA começou a pensar em medidas concretas para melhorar a qualidade de vida no ambiente acadêmico. Uma delas é a disciplina Tópicos Especiais em Engenharia de Software – Felicidade, que será ofertada no segundo semestre letivo.

Alunos Felipe Agustini, Mateus Lemes e Caio Franco aprovam oferta da disciplina Felicidade, que trabalha a dimensão do cuidado e do afeto no ambiente acadêmico. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

Com foco em autoconhecimento, afeto, cuidado, solidariedade, respeito às diferenças e diálogo, o objetivo é apresentar estratégias para ajudar os estudantes a lidar com fatores adversos do dia a dia.

“Não é uma porta para a felicidade e não trará um modelo fechado para isso. A ideia é tentar entender como podemos ser felizes aqui no campus e o que fazer para evitar a infelicidade”, explica o professor Wander Pereira, responsável pelas aulas.

Não há pré-requisito para cursar a matéria, de quatro créditos, ofertada às terças e quintas-feiras, das 14h às 15h50. Qualquer aluno de graduação da Universidade de Brasília, independentemente do curso ou do campus, pode fazê-la, mas haverá prioridade aos estudantes da FGA. Das 240 vagas previstas para o próximo semestre, 40 estão reservadas aos que fazem algum tipo de acompanhamento psicológico na UnB. Neste último caso, o interessado precisa procurar a coordenação da FGA para tentar vaga na disciplina. Os demais alunos devem se inscrever pelo Matrícula Web, de 20 a 23 de julho.

Dinâmica das aulas

Inspirada em matérias de extremo sucesso ofertadas nas universidades norte-americanas de Harvard e Yale, a disciplina será baseada em encontros dialogados, atividades individuais e em grupo, leituras e construção coletiva de textos e outras vivências.

“Pensar nessa disciplina é um desafio. Sabemos o que está começando, mas não o que vem depois. Estamos experimentando. Vamos usar técnicas consagradas pela psicologia, que sugerem o que fazer para, por exemplo, se ter mais resiliência e saber lidar com frustrações e expectativas. Também queremos dialogar sobre estratégias de enfrentamento da insegurança emocional, desamparo, timidez, sensação de abandono, depressão e ansiedade”, enumera Wander Pereira.

Ao longo do semestre, as aulas contarão com a participação de outros professores e de profissionais de fora do âmbito universitário para debater questões específicas ou apresentar performances artísticas e culturais. A avaliação de cada aluno será composta pela participação ativa em sala de aula, além da produção e apresentação coletiva de produto final, que traga uma ação concreta de felicidade, seja em forma de música, dança, teatro, jogo, aplicativo, página na internet ou vídeo.

Embora a disciplina seja voltada à qualidade de vida dos alunos e do campus, Wander reforça que a pretensão não é oferecer apoio profissional a cada estudante, em seus problemas e questões individuais. “Existem mecanismos, internos e externos à UnB, para atender às demandas psicológicas, psicossociais e psiquiátricas de cada um. Aqui a gente vai construir momentos de bem-estar, trazendo os indivíduos para o coletivo, e não dar atenção específica a quem está mais triste ou mais depressivo”, ressalva.

Professores Paula Meyer, André Barros de Sales, Wander Pereira e Edson Alves participam de comissão na FGA para debater saúde e qualidade de vida no campus. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

A oferta da disciplina integra um conjunto de ações da FGA voltadas à saúde mental e à qualidade de vida no campus. Entre elas, acolhimento dos calouros no início do semestre, eventos esportivos, festivais, apresentações artísticas e encontros pedagógicos. Recentemente, o campus criou uma comissão para tratar do tema, formada por quatro professores, pedagoga, psicóloga e representante discente.

Como melhorar a realidade

Coordenador do curso de Engenharia de Software, André Barros de Sales começou a pensar a saúde mental no âmbito institucional após ouvir inúmeros relatos de situações vivenciadas por estudantes e seus familiares. “Nossos alunos são o que a instituição tem de mais precioso. Passei a me perguntar sobre o que eu podia fazer para melhorar a realidade do campus. Outros professores também compartilhavam deste sentimento, então, resolvemos agir”, conta o docente.

“Vivemos um contexto maior de sociedade na qual falta perspectiva às pessoas. Há uma desesperança muito grande nos indivíduos, em vários aspectos da vida, e a UnB não pode ignorar essa realidade. Comissões e ações institucionais podem gerar insumos e propostas de acompanhamento mais preciso e estatístico”, completa outro integrante da comissão, professor Edson Alves.

Para a coordenadora-geral da FGA, Paula Meyer, é fundamental propiciar momentos de convivência e de conhecimento mútuo entre alunos, professores e técnicos. “Queremos que nossos estudantes venham para seus cursos com satisfação. E fazer da universidade um ambiente mais produtivo e feliz”, resume.

A Universidade de Brasília oferece outros serviços de apoio psicológico aos estudantes e servidores e trabalha para consolidar uma rede interna de assistência. Uma das ações previstas é a implementação da política institucional de saúde mental e qualidade de vida, em fase de elaboração.