Mesmo com informações disponíveis, jovens custam a descobrir o ideal de cada um

Júlia Ramalho Pinto
Coach – Psicanalista

Alguns dirão que nada mudou! Todos os jovens, a partir de 14 anos em diante, continuam a se perguntar e serem perguntados sobre “o que vai ser quando crescer?”. A partir dai, começam a cogitar algumas profissões, olham para os pais, conversam com colegas. Sempre foi assim e é assim até hoje. Será?

O fato é que temos duas informações para pensarmos como este processo pode ter mudado. A primeira, a própria adolescência e, a segunda, o processo de ingresso do curso superior através do vestibular para o Enem. Será que a adolescência vivida pelos nossos jovens de hoje é igual a adolescência do século passado? Será que a passagem do vestibular para o Enem deixou marcas no processo de escolha?

Podemos dizer que adolescência é mais do que uma fase da vida e de transformações do corpo. É um processo de retomada subjetiva diante o qual o sujeito deve se separar da autoridade parental. Se antes a autoridade do pai era introjetada na infância, a adolescência era marcada claramente por um momento de autoafirmação do jovem, transgressão e separação da autoridade paterna.

Hoje, ao contrário, vemos adolescentes que cresceram podendo tudo, com dificuldade de introjetar limite e autoridade. Dessa forma, encobrem e evitam momentos de angústia postergando a construção de uma saída autêntica para seus dilemas. O que se percebe, então, é uma maior demora desses jovens em assumir o controle e a responsabilidade pela própria vida.

Uma forma desses jovens demonstrar isto é apostando, tranquilamente, no 4o ano – pós-ensino médio. Dessa forma, evitam a angústia da escolha e possibilidade de fracasso, e contam com mais um ano após o ensino médio. Fazer o cursinho no 4o ano alarga o tempo e permite que possam escolher com mais calma.

Outra face dessa dificuldade de responsabilização é a não investigação das profissões: o que fazem, como vive o profissional e como será esta profissão no futuro. É curioso que a geração que tem mais recursos de pesquisa, que tem mais opções de cursos é, talvez, a que tem mais dificuldade de investigar as profissões. Na grande maioria das vezes, suas buscas seguem scripts dos pais, dos professores e dos colegas, sem necessariamente investigarem a fundo sobre as profissões. Não haveria demanda de novas profissões no mundo contemporâneo?

O que se percebe é que o processo de mudança de ingresso do curso superior de vestibular para Enem, também, pressiona o jovem a não decidir. Antes ele tinha que ter certezas para fazer o vestibular, só havia uma chance, uma opção, para cada universidade que tentasse. Hoje, o jovem pode ter foco apenas em sua pontuação para que tenha mais chances de entrar em um maior número de cursos possíveis. Novamente, ele tem mais possibilidades do que antes, ou seja mais cursos, mais conhecimento a sua disposição, mais recursos de pesquisa, e mais possibilidades, mas por outro lado, posterga sua angústia de escolha e, muitas vezes, deixa a cargo da ”sorte” a sua escolha profissional.

É claro que isto não vale para todos. Sempre teremos jovens mais curiosos e desejosos de saber como querem viver. Jovens que tem a possibilidade de descobrir o que gostam e o que fazem bem.

O processo de escolha da profissão da nova geração é infinitamente mais rico que de outras gerações: há mais informações, mais alternativas de cursos, mais flexibilidade e possibilidade viabilidade de estudos (gratuito, particular, Fies, Prouni, bolsas de estudo das faculdades). É preciso encontrar uma forma de auxiliá-los neste processo para que possam fazer escolhas, cada vez melhores. Isto é, que possam encontrar um ponto de orientação para como querem viver e qual será o futuro profissional que querem construir.

 

 

 

 

 

 

 

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