O egoísmo por trás da estocagem de alimentos e do não isolamento social

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E se há o bom senso em continuar produzindo o essencial, é preciso bom senso também em respeitar o isolamento social Foto: Tania Rego/Agência Brasil
E se há o bom senso em continuar produzindo o essencial, é preciso bom senso também em respeitar o isolamento social. (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Deivison Pedroza *

Logo no início das medidas de enfrentamento da pandemia do coronavírus, assistimos nos noticiários a corrida aos supermercados para fazer estoque de alimentos. Vi inúmeras imagens e vídeos de pessoas com três ou quatro carrinhos lotados de alimentos e produtos de higiene que nem em dois meses seria possível consumir tudo aquilo. Claro, uma família grande precisa fazer compras grandes. Mas nitidamente não era esse o caso.

Ao redor do mundo não foi diferente. Eram carrinhos cheios de papel higiênico e muita comida, faltando de tudo um pouco nos supermercados. Me chamou muito a atenção a imagem, que viralizou na internet, de uma senhora na frente de prateleiras vazias com os olhos cheios de lágrimas. Ela não pôde comprar nada, porque não havia mais nada pra comprar ali. Uma senhora, grupo de risco da COVID-19, saiu de casa em busca de alimentos e voltou sem nada. Você já pensou se isso acontecesse com alguém da sua família?

Nessas horas me questiono o motivo pelo qual, ao menor sinal de uma crise, corremos para fazer estoques de coisas que nem sabemos se vamos precisar ou não, ignorando as necessidades de outras pessoas. O instinto mais egoísta do ser humano vem à tona e esquecemos que, querendo ou não, vivemos em comunidade.

E não é só a estocagem de alimentos exagerada que expõe nosso egoísmo e nossa incapacidade de pensar no outro em momentos de crise. Eu poderia citar também o primeiro caso de coronavírus em Brasília, capital do nosso país. Foi de uma mulher que havia viajado para o exterior. Ela chegou ao hospital em estado grave e foi para a UTI. O marido dela se recusou a fazer os exames para ver se também estava contaminado. E enquanto isso foi para a casa, ao shopping, continuou tendo uma vida normal até a Justiça ordenar a realização do teste. Resultado: deu positivo.

E foi obrigado (também a mando da Justiça) a ficar de quarentena em sua residência. Não contente, sua advogada entrou com um pedido para que ele não precisasse ficar isolado e pudesse sair às ruas depois de 14 dias. Esse tempo passou, não sei se ele está livre da doença ou não, mas a Justiça negou o seu pedido.

Qual o tamanho da irresponsabilidade e desprezo pelas vidas de outras pessoas que esse ser humano tem? Se não fosse a Justiça pará-lo e obrigá-lo a ficar em casa, quantas pessoas a mais ele poderia ter transmitido o coronavírus devido a seu egoísmo?

Casos semelhantes aconteceram também em Trancoso, na Bahia, e em Torres, no Rio Grande do Sul. E deve ter mais lugares em todo o Brasil. São exemplos de pessoas egoístas e acham “se eu peguei, os outros também podem pegar”. Esse é o lado mais irracional do ser humano pulsando para acabar com qualquer espírito de solidariedade e responsabilidade que deveria predominar nesses momentos tão delicados.

O mesmo vale quando vejo muitas pessoas questionando sobre trabalhar ou não no período de quarentena determinado pelos governos municipais e estaduais. Para alguns é necessário somente proteger o grupo de risco e os outros podem trabalhar normalmente. Para outros, é preciso respeitar o isolamento social e ficar em casa, só funcionando o básico para manter a sociedade. E aí entra a indústria de alimentos.

Tiveram alguns municípios que fecharam suas fábricas e indústrias. E aí, quem vai produzir os nossos alimentos? Se tudo realmente fechar, aí sim haveria uma corrida enorme aos supermercados e, aqueles com melhores condições financeiras, iriam estocar tudo. E se sobrasse algo ou não para os outros, pouco importaria.

Para evitar esse tipo de pânico e histeria, os governos de vários estados precisaram intervir e determinar que a produção de alimentos, produtos de higiene e saúde, de limpeza e farmacêutico eram serviços essenciais para a população, e então deveriam continuar em pleno funcionamento – respeitando as normas de segurança e saúde exigidas aos trabalhadores. Todos os demais ramos devem ser fechados. Mas hoje já tem estados permitindo indústrias operarem normalmente desde que seus gestores sigam as recomendações para adequar os estabelecimentos as condições de funcionamento diante da pandemia.

Com fábricas e indústrias de alimentos, produtos de higiene e saúde, de limpeza e farmacêutico abertas, não vai faltar nada para ninguém. Não é preciso estocar nada em excesso. O essencial vai continuar chegando até nós, e não vamos precisar presenciar cenas como daquela idosa chorando em frente às prateleiras vazias.

E se há o bom senso em continuar produzindo o essencial, é preciso bom senso também em respeitar o isolamento social. Muitos dos trabalhadores que precisam necessariamente continuar suas atividades tem um certo receio em contraírem a COVID-19 e quem sabe transmitir às suas famílias e todos aqueles que amam. Porém, eles não param. E estão na linha da frente para o Brasil também não parar. Todos eles – e aqui claro que preciso incluir os profissionais de saúde – são os verdadeiros heróis brasileiros.

Por isso, valorize todas as pessoas e não seja egoísta. Não faça estoques, seja de alimentos ou de produtos de limpeza e higiene, e respeite os pedidos de isolamento social. Demonstre que você é responsável consigo e com os outros. E se você não pode ficar em casa e precisa trabalhar, cuide-se e não esqueça da sua segurança. Pois saiba que graças a você nosso país não vai parar.


  • Deivison Pedroza é CEO da Verde Ghaia