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Crise hídrica: os impactos para o futuro do País

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Já dada como certa pelos mercados, a crise hídrica tende a gerar novos problemas a partir de novembro de 2021. Com impactos negativos sobre o futuro

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Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista responsável I Radar do Futuro

Já dada como certa pelos mercados e até mesmo pelas áreas do governo envolvidas com temas de infraestrutura, a crise hídrica tende a gerar novos problemas para os brasileiros a partir de novembro deste 2021. Na verdade, pelo menos um dos efeitos já é sentido, com o aumento do valor das contas de energia elétrica para os consumidores. O país segue, assim, com as suas desventuras em série. É uma sina em consolidação, como regra, não exceção. Desde a década passada, nem bem acaba um problema, mais um acontecimento atormenta a maioria. E quase elimina as expectativas de algum retorno a dias normais. Seja lá o que isso for.

Segundo o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), há 91 anos não se via tão pouca água no País tido como privilegiado pela oferta do item essencial para a sobrevivência humana. Os danos são sentidos e destacados especialmente na geração da energia elétrica. As usinas hidrelétricas registram atualmente um volume médio útil pouco acima dos 50%, sendo os cálculos do Operador Nacional do Sistema (ONS), o órgão de monitoramento da área energética, com foco em 162 hidrelétricas. A situação é mais crítica na bacia do rio Paraná, que abrange os estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. A região está em alerta com alguns reservatórios quase vazios.

A crise hídrica atual e seus impactos tendem a confirmar os prognósticos do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne cientistas de todo o mundo para avaliar os rumos futuros do planeta. “Com as mudanças climáticas, esses eventos extremos, como o que estamos vivenciando agora, vão se tornar mais frequentes e com intensidades maiores”, atesta, em entrevistas, Samuel Barreto, gerente de água da ONG The Nature Conservancy, fazendo referência ao trabalho do IPCC.

A mudança de cenário não surpreende José Wanderley Marangon, doutor em engenharia elétrica pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), presidente de consultoria realiza pesquisas sobre o impacto das mudanãs climáticas na matriz energética brasileira, garante que a crise já estava prevista. Segundo o especialista, os modelos climáticos utilizados pelos órgãos brasileiros olham para um passado que não existe mais. Para ele, o problema está nos reservatórios. E existe um problema contínuo de falta de chuva, o que ele já denunciava desde 2014. Não dá para contar com as hidrelétricas como se faz desde o passado.

Impactos imediatos

“Viveremos um período de alta de preços de energia. Levando em conta a dependência das fontes hídricas, quando a hidrologia está baixa a falta de capacidade de geração precisa ser suprida pelas fontes térmicas, o que demanda a compra de matérias-primas fósseis”, aponta Marcelo Sandri, analista da Perfin Investimentos.

Especialista no monitoramento dos setores de utilidades públicas, transporte, infraestrutura e telecomunicações, ele assinala que o impacto negativo nas contas é justificado pelo fato de que as empresas precisam comprar óleo, diesel, gás natural ou carvão. O que encarece o preço da energia.

Neste contexto, as empresas que estão expostas ao custos de energia como uma linha muito importante para o seu balanço são as maiores prejudicadas pela crise. São setores eletrointensivos, aqueles que gastam muito e dependem de energia para o seu funcionamento. A lista inclui empresas de commodities, de saneamento, alumínio e mineração entre outros, em que as linhas representativas de seus custos são os de energia.

Outras empresas também afetadas negativamente são aquelas expostas ao consumo das classes de renda média baixa e baixa renda — C, D, E. São segmentos em que a capacidade de renda e de pagamentos é prejudicada pela alta do custo de energia. Pagando mais pelo preço da energia e pelo gás, as pessoas vão perder o poder de consumo.

No polo oposto, avalia Marcelo Sandri, quem tem como negócio a venda de energia acaba se beneficiando com a perspectiva de elevação dos preços. Como as geradoras com disponibilidade de oferta. Também os fornecedores das usinas térmicas. E todo o ciclo do gás vai ser o grande insumo das usinas térmicas.

Um outro componente importante é a entrada das energias renováveis. O mundo vive o anseio pela adoção de fontes de baixa emissão de carbono capaz de suprir o a necessidade de expansão da matriz energética sem o uso das fontes que o mundo vem usando desde o inicio da revolução industrial, no século 18. “Inclusive porque não dá para contar com o volume de chuvas que a gente observava no passado. E há pouca energia para ser entregue em mercados de alta demanda”, afirma o analista.

Busca por alternativas

Levantamento realizado pela consultoria em inteligência de mercado Nous SenseMaking demonstra que 18,5% das informações divulgadas pela imprensa e relatórios corporativos sobre investimentos foram relacionados a negócios no setor de energias elétrica, solar, térmica e eólica. O segmento já se movimenta, com a perspectiva de substituição das energias hídricas pelo aproveitamento da força dos ventos, do sol, do mar ou de biomassas.

No cenário de longo prazo, o analista da Previ Investimento aposta no crescimento das matrizes alternativas e também das fornecedoras da infraestrutura. Usinas solares, por exemplo, estão se instalando no Nordeste, mas a concentração de gastos está no Sudeste, o que vai requerer a instalação de redes de transmissão.

Marcelo reforça seu otimismo com a expectativa de resultados gerados por novos comportamentos das empresas, marcados por responsabilidade com o futuro. “No mercado de ações tende a ser movimentado pela sigla ESG, de ambiental, social e governança, do inglês, que passa a ser um parâmetro para as escolhas de investidores”, avalia. Investidores e gestores de investimentos acreditam, de forma geral, que o acirramento da crise pode ter o impacto positivo de colocar os compromissos das corporações no centro das atenções, levando à implantação dos conceitos.

De uma forma geral, o mercado de ações aposta em uma visão otimista a partir de uma possível recuperação da economia no curto prazo. E avalia positivamente a privatização da Eletrobrás, sob o argumento da necessidade de reduzir o peso do governo nas contas públicas. A estatal é responsável por um terço de toda a geração e metade da transmissão de energia do país e é composta por dez subsidiárias, incluindo Furnas, que opera 12 hidrelétricas, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf) e Eletronorte.

Juntas, essas subsidiárias controlam 123 usinas de geração de energia, sendo 48 hidrelétricas, e 64 mil quilômetros de linhas de transmissão. Para o mercado acionário, a privatização vai atrair investimentos, nacionais e estrangeiros, que compensem a falta de recursos para a aplicação na atual infraestrutura.

Esta não é uma avaliação unânime. Economistas, especialistas e opositores, com viés desenvolvimentista, projetam efeitos altamente negativos diante da perspectiva de venda da estatal. Incluem o negócio como uma das variáveis negativas para o cenário futuro brasileiro. Segundo especialistas do setor, a privatização da maior empresa de energia elétrica da América Latina trará graves consequências à população brasileira e à economia do país, como o aumento de tarifas, desindustrialização e desemprego, possibilidade de novos apagões,  crimes sociais e ambientais, violação de direitos, ataques à soberania energética do país, entre outros.


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