efeitos da seca se propagam pelo planeta
Há mais sinais de que não ter água pode ser o novo padrão 

 “A mudança do clima tem de ser levada a sério”. Se para milhões de pessoas o alerta já não gera qualquer surpresa, então, a novidade da frase é a origem: Jerry Brown, governador do estado da Califórnia, no oeste dos Estados Unidos. O país tem sido, há anos, um dos dois maiores poluidores – o outro é a China – e uma das principais fontes de resistência,  em conferências mundiais, a negociações de acordos voltados à busca de soluções para os problemas gerados pela intervenção humana sobre a natureza.

Recentemente, Jerry Brown deu entrevista para a rede norte-americana de jornalismo ABC para justificar medidas de urgência adotadas na região com o objetivo de economizar água. As restrições impostas à população são decorrentes de uma seca histórica. Reforçando a percepção de que os problemas provocados pelas transformações ambientais “não são uma brincadeira”, o executivo público, vinculado ao partido Democrata, acredita que “o clima na Califórnia fará estragos em outras partes do mundo”.     

O racionamento de água decretado pelo governo indica para o estado mais populoso dos Estados Unidos, com 37,6 milhões de habitantes, e para o mundo, uma realidade que já vinha sendo denunciada. “Não ter água pode ser um novo padrão”, assinalou o governador, que acredita na expansão dos impactos globais da crise. Entre as iniciativas adotadas para enfrentar os entraves ao abastecimento, o governo californiano determinou a remoção de todo e qualquer paisagismo de casas, centros comerciais e campos de golfes. Nem os cemitérios escapam. O governo pretende arrancar 4,6 milhões de metros quadrados de vegetação destes locais e substituir por plantas que toleram a seca.

Recordes de temperatura máxima em pleno inverno provocaram queda na quantidade de neve acumulada nas montanhas, fonte que abastece um terço das reservas do estado. É a primeira vez que o racionamento é imposto no estado. Nos próximos nove meses a população será convocada a economizar 1,8 trilhão de litros de água. A meta é que as cidades e comunidades reduzam seu consumo em 25%.

Também foi criado um programa de descontos aos consumidores para que substituam aparelhos para regar antigos por outros novos, mais eficientes em termos de aproveitamento de água. Os investimentos e o pagamento dos subsídios virão de um montante de US$ 1 bilhão. Para liberar o dinheiro, o estado criou uma legislação de emergência contra a seca.

Segundo o governador Brown, os que violarem a disposição se expõem a multas de 500 dólares por dia. Ou, inclusive, ao corte de fornecimento de água. Não faltam divergências sobre os procedimentos. Interrogado sobre as razões pelas quais o setor agrícola está isento de se submeter a estas medidas, Brown reconheceu que o setor, que representa apenas 2% da economia do estado, consumia 80% da água. “No entanto”, assinalou, os agricultores “não regam seus jardins, nem tomam longos banhos. “Produzem a maioria das frutas e legumes exportados pelos Estados Unidos a uma parte importante do mundo”, destacou. “É claro que podemos cortar tudo. Se não quisermos produzir alimentos e importá-los de fora, teoricamente é possível. Mas isso deslocaria milhares de pessoas”, disse Brown.

“Há evidências de que esta longa seca de quatro anos é o começo de algo muito mais significativo”, diz o futurista Len Rosen, um especialista em questões ambientais. Mesmo reconhecendo a existência de padrões regionais e históricos, ele diz que as implicações para o estado, tido como o estado da produção agrícola, são nefastas. Na verdade, mais de 50% de todas as frutas e legumes cultivados nos Estados Unidos são originários da Califórnia. Ele é o principal estado produtor de leite e derivados e líder na cultura de exportação de amêndoas, seguido de perto por uvas. “Cientistas do clima da Califórnia acreditam que a seca chegou para ficar, com consequências terríveis, até meados do século 21”, atesta o especialista.  Moradores de comunidades sustentáveis da região já esperam que a falta de água estimule a sociedade a repensar os seus padrões de consumo.

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