Como o coronavírus impacta o presente e o futuro do transporte urbano

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O impacto da pandemia sobre a mobilidade urbana abre oportunidades para reestruturação do sistema de transporte público. Foto: Pixabay
O impacto da pandemia sobre a mobilidade urbana abre oportunidades para reestruturação do sistema de transporte público com estímulo ao uso de bicicletas e outros modais. Foto: Pixabay

Carlos Teixeira
Radar do Futuro

A pandemia deixará como herança para a administração pública, imediatamente e adiante, no médio prazo, desafios de adequação de serviços à revolução de comportamentos e demandas dos usuários do transporte urbano. Os serviços de mobilidade passarão por readequações como decorrência das mudanças de hábitos que ocorrerão em toda a sociedade, inclusive no mercado de trabalho e em atividades influenciadas pelas tecnologias.

Ainda após o período de isolamento, na questão do controle de novos surtos, por exemplo, será importante criar políticas que reduzam as aglomerações do transporte público mas, ao mesmo tempo, não estimulem o transporte privado.  “O covid-19 está sendo um gancho para as pessoas repensarem a infraestrutura das cidades”, avalia Luisa Peixoto, arquiteta e especialista de mobilidade da Quicko. No exterior o processo começou. Referências positivas já começam a ser pensadas e adotadas imediatamente em cidades como Paris, Madrid e Nova Iorque.

A startup de tecnologia Quicko lançou, em São Paulo, um aplicativo destinado a facilitar o planejamento e acompanhamento de roteiros utilizados por usuários dos serviços públicos e privados de locomoção pela cidade. Para o internauta, há o acesso a informações integradas de diversos serviços de transporte, incluindo orientações, preços e outros dados de diferentes modais, como bicicleta compartilhada, Uber, carros compartilhados. Ou seja, todo o ecossistema de mobilidade.

O sistema pode ser interessante não só por ajudar os cidadãos em trânsito no cotidiano. Vai possibilitar ao cidadão e planejadores, incluindo o setor público, obter uma melhor compreensão sobre como as pessoas se locomovem. Com uma proposta de geração e fornecimento de dados sobre o segmento, a Quicko tende a suprir a necessidade de maior velocidade na captação e análise de informações.

Vale levar em conta que o sistema mais relevante de estudos sobre comportamento, as pesquisas de Origem e Destino, desenvolvidas pelas administrações municipais e regiões metropolitanas, são, atualmente, as fontes mais importantes para os planejadores e investidores em transporte. No caso de São Paulo, a mais rica cidade brasileira, em 50 anos de levantamentos, a edição com dados de 2017 está em sua sexta edição.

Mobilidade como serviço

Atualmente, com a proposta de isolamento e recomendação de distanciamento social, o transporte coletivo sofreu grandes quedas de demanda, que variam de 70% a 80% do fluxo de passageiros. Luisa Peixoto reitera a expectativa de que o momento propicie reflexões dos cidadãos sobre as suas prioridades. Mas teme que o período atual, em que muitos tentam retomar suas rotinas na marra, possa fazer com que as pessoas retomem a utilização de veículos privados, o que seria um retrocesso do ponto de vista das políticas de mobilidade mais sustentáveis, igualitárias, eficientes e seguras.

O futuro passa pela “mobilidade como serviço” (MaaS, na sigla em inglês), conceito que está sendo colocado em prática por startups como a própria Quicko. Luisa acredita que o isolamento forçado poderá sim trazer impactos positivos para a mobilidade, mas que apenas a adoção de plataformas baseadas em análises de dados e inteligência artificial não será suficiente para a transformação do cenário do transporte urbano. Políticas públicas de incentivo a soluções de mobilidade mais sustentáveis e seguras serão importantes neste momento. Por outro lado, outros modais mais sustentáveis, individuais, podem se beneficiar com essa situação e ganhar mais adeptos, como, por exemplo, a bicicleta.

Em algumas cidades, pessoas que ainda precisam se deslocar estão trocando o transporte coletivo pela bicicleta para evitar o contato social. O sistema de bicicletas compartilhado da cidade de Nova Iorque (Citybike) viu um aumento de 67% no número de viagens no mês de março. Oferecer e facilitar o acesso aos diversos serviços de transporte já é a aposta atual de várias cidades para reduzir a necessidade e atratividade do automóvel privado, que para a maioria das pessoas nas cidades possui alto custo e alto nível de ociosidade. Em Helsinque, capital da Finlândia, uma plataforma de MaaS possibilita constatar que as viagens por modais compartilhados podem reduzir em 36% as viagens por automóvel privado.

Tendências

Segundo um estudo da consultoria Research and Markets, o mercado de mobilidade como serviço, que gerou uma receita de US $ 171,5 bilhões em 2018, deverá crescer para US$ 347,6 bilhões em 2024, a uma média anual de 11,9% entre 2019 e 2024. O aluguel de carros foi a maior categoria de tipo de serviço do mercado entre 2014 e 2018 (período histórico), como resultado da rápida mudança da reserva offline para a reserva online e da expansão do setor de viagens e turismo.

Globalmente, uma grande tendência no mercado MaaS é a adoção de veículos elétricos para fins de compartilhamento. Preocupado com os altos níveis de poluição e os preços dos combustíveis fósseis, os governos de várias nações estão formulando políticas e oferecendo incentivos para incentivar o uso de veículos elétricos no compartilhamento de frotas. Além disso, vários gigantes do setor automotivo também estão se esforçando para oferecer serviços de mobilidade em veículos de energia limpa. Por exemplo, os planos de lançar um serviço de compartilhamento, exclusivamente em carros elétricos, foram anunciados pela Hyundai Motor Company em 2019.

Os governos também estão tomando iniciativas para popularizar a mobilidade compartilhada, impulsionando o mercado de MaaS em todo o mundo. Com um número crescente de pessoas migrando para a mobilidade compartilhada, de dirigir seus veículos pessoais, o problema do congestionamento do tráfego urbano pode ser resolvido. É por isso que, não apenas os governos nacionais, mas as administrações de estados, municípios e regiões metropolitanas também estão se esforçando para aumentar a popularidade do conceito.

Entrevista

Luisa Peixoto / Quicko

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