
CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Oito horas da manhã, primeiro dia útil do ano. Sem pedir licença, como fazem há alguns anos nestes tempos torturantes, dois homens abrem a porteira e entram na propriedade de João Pedro, a chácara de seis hectares no distrito de Serro Azul, distante 55 quilômetros da capital, onde ele vive com a esposa e dois netos. A visão dos intrusos provoca a contração imediata de todos os músculos do corpo do idoso. As mandíbulas e as mãos se fecham de forma involuntária. Ele sente o sangue quente no rosto, mas encontra forças para controlar os sentimentos, entre o pânico e o ódio extremo.
Flávio e Eduardo, nomes atribuidos aos invasores por nós aos agentes do Exército da Salvação, nas raras brincadeiras compartilhadas, são visitantes frequentes desde 2029. Nem sempre os mesmos carecas musculosos. Parecem clones. Todos surgem dentro das propriedades, sem pedir licença. Usam os tradicionais ternos pretos dos milicianos, apesar do calor desses tempos de sol escaldante, ar seco e ausência de qualquer esperança de chuvas. O ar pesa sobre todos nós.
“Fodam-se com os seus problemas. Sua vida seria muito pior sem nosso serviço”, dizem sempre, ao cobrar a taxa mensal de manutenção da estrada. Nem tente argumentar que a vida está cada vez mais difícil. Desde o fim da renda da aposentadoria, João Pedro vive da venda da produção de verduras, frutas e carne de frango para sobreviver. Seus vizinhos também. Alguns desistiram de viver.
Aliás, a comunidade próxima foi obrigada a adotar a prática das trocas de mercadorias, o velhíssimo escambo, para sobreviver. Grande parte do pouco dinheiro gerado pelas vendas na feira é destinada aos “homens da manutenção”. Contra a vontade de João Pedro, claro. E dos vizinhos. Não só os próximos, mas também os distantes. E a “manutenção da estrada” é pura ironia de milicianos. Há bastante tempo os moradores da região são obrigados a tapar os buracos diante de suas propriedades. O asfalto está cada vez mais rarefeito. Mas as cobranças não cessam.
Visitantes do quinto dia do mês, independente de fim de semana ou feriado, os homens de preto da segurança privada cumprem relativamente bem a promessa de impedir problemas de furtos e roubos. Pelo menos dentro da chácara todos nós ficamos quase despreocupados. Quase. Mas se ocorre algum furto, os homens dizem: “acontece”. E continuam a vida com sorrisos sarcásticos e ironias.
Nas ruas, sempre temos medo de que algo aconteça. Tranquilos de verdade só ficam os muitos ricos, capazes de pagar equipes das polícias particulares, criadas após a extinção do Estado. Além de ter segurança especial, que na verdade nem precisam, os bilionários vivem em áreas particulares, inacessíveis às pessoas comuns. Os donos do mundo podem tudo. Tudo mesmo, inclusive retornar os antigos padrões de escravidão de séculos passados. Nada alcança a eles porque eles são o dono do Estado. Eles são o Estado. E eles sabem bem que nunca houve o fim do Estado.
Quem diria, João Pedro sente saudades da existência de um governo. Hoje, neste início de 2032, ele se arrepende de não ter dado atenção ao exemplo da “experiência libertária” da pequena cidade de Grafton, no nordeste dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá. No início dos anos 2000, o lugar foi palco de uma experiência política que terminou em fracasso.
Um grupo de libertários, como os que derrubaram o governo brasileiro, se instalou, a partir de 2004, no povoado e colocou suas ideias em ação, reduzindo regras e impostos para provar o entendimento de que a intervenção governamental é opressiva, desnecessária e produz pobreza — e que, se a sociedade agir por conta própria, ela florescerá e será capaz de se autorregular.
Centenas de pessoas planejaram fundar o que chamaram de Projeto Cidade Livre e demonstrar a viabilidade do libertarianismo, criando uma comunidade utópica. No entanto, depois de alguns anos, o experimento terminou em fracasso: sem estrutura devido à deterioração dos serviços públicos, tomada pela violência e pelo crime, Grafton chegou à gota d’água com uma série de ataques de ursos-negros contra os moradores. Que não tinham a quem recorrer.
Para sua leitura
O jornalista americano Matthew Hongoltz-Hetling contou a história no livro A Libertarian Walks into a Bear (“Um libertário encontra um urso”, em tradução livre).

