“Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”, escreveu Nelson Rodrigues, antecipando uma tendência do século 21

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
“As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, que antes só falavam em um bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”. Todos os dias, Antônio, o dono do bar Pensadoria, o mais famoso de Serra Azul, um distrito perdido no interior de Minas, repete a frase famosa do filósofo e escritor italiano Umberto Eco.
Como representantes do grupo influente na sociedade, os clientes a quem ele dirige a frase não se ofendem. Afinal, ironiza o dono do bar, eles não entendem. Os bebedores permanecem alheios às ironias, enquanto destilam teorias delirantes em conversas sobre a situação do país e do mundo. Entre uma cerveja e outra, confirmam outro pensamento do italiano:
– “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.
Do lugarejo isolado, Antônio, um professor de filosofia aposentado, acompanha os acontecimentos do mundo com perplexidade. Os pensadores são a inspiração e a força para acompanhar e compreender as forças ocultas das notícias. A invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolas Maduro levaram, agora, à lembrança de Nelson Rodrigues, mestre na produção de reflexões sobre a natureza humana, falecido em 1980, bem antes de Umberto Eco registrar a frase famosa:
– “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”, escreveu Nelson Rodrigues, antecipando uma tendência do século 21.
– “E têm dinheiro para formar exércitos de idiotas”, complementa o dono do bar.
É a enorme quantidade de imbecis que explica a ascensão de criaturas da extrema direita global. Sem a predominância do poder deles, Jair Bolsonaro não teria sido presidente do Brasil. E Donald Trump não estaria disseminando ódio pelo mundo como presidente dos Estados Unidos. E Nethanyaru não estaria cometendo genocídio impunemente na Faixa de Gaza.
Os apoiadores são capazes de aplaudir decisões que vão impactar negativamente o futuro deles mesmos. Afinal, como dizia Nelson Rodrigues, “na mente do idiota, a simplicidade é uma benção e a complexidade, um fardo”. Enquanto acompanha as conversas atrás do balcão no bar, Antônio vê a estupidez humana como um fenômeno subestimado pela sociedade.
Em um diário, o ex-professor registra a avaliação de que a influência da digitalização de tudo contribui para a proliferação dos estúpidos. São pessoas com incapacidade de aprendendizado, compreensão ou raciocínio. O modo de vida deles resulta em ações irracionais e prejudiciais, que causam dano a si mesmo e aos outros sem ganho pessoal.
O bar funciona como um laboratório que oferece visibilidade para o fenômeno social que transcende a educação e classe. Antônio encerra cada noite com a percepção mais clara sobre a exploração da humanidade por líderes através da propaganda e falta de pensamento crítico. Em casa, fecha bem as portas, como se pudesse neutralizar a estupidez, a ameaça à sociedade por sua natureza destrutiva e resistência à busca do conhecimento.

