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O machismo é uma praga adormecida à espera de um sopro

A ciência deve dedicar esforços para atacar o vírus adormecido na mente dos homens

Ninguém duvidaria da integridade de Antônio. Era um homem bom, cheio de boas intenções. Membro dos nascidos na burguesia esclarecida do final dos anos 1800, tinha propósitos verdadeiramente humanistas. Mesmo não tendo histórico de agressividade contra mulheres, como seria imaginável, nem por isso passou incólume pela possibilidade de ser apontado como um machista. 

Desde já esclareço que ele jamais cometeu qualquer ato agressivo contra a minha avó ou outra mulher próxima ou distante. A ressalva é necessária para revelar uma história sobre como o machismo se manifesta em casos simples, presos no inconsciente do gênero masculino.  É um vírus com o dna da violência do macho, diverso em intensidade, mas sempre pronto para ser acionado.

O ano era 1970. Em janeiro, apenas dois meses após a morte súbita de minha avó, Carmelita, que ele venerava, duas irmãs mais novas dela foram visitá-lo. Entre recordações, emoções e lamentações, Júnia, a mais nova, comentou sobre a existência de um noivo, Luiz, antes do casamento com Antônio. Foi o segundo homem com quem Carmelita teve envolvimento formalizado, referendado entre as famílias, seguindo as tradições da sociedade patriarcal e católica do início do século passado.

Carmelita e Luiz trocavam cartas com frequência. Ela, uma mulher culta, de família tradicional de Minas, fluente em francês e pianista exímia, cultivou durante toda a vida a escrita como hábito. Um dia, a última carta de Luiz comunicava o rompimento do compromisso assumido. Ele seria obrigado a casar com outra. Segundo os comentários que mantiveram a história viva, Luiz teria afirmado na carta que estava indo para o abatedouro. Escondeu que a mulher também já era noiva, da cidade onde ele residia e que estava grávida.

Carmelita sofreu muito. Mas dois anos depois estava casada com meu avô, com quem teve cinco filhos. Antônio desconhecia a existência do tal Luís na vida da falecida. Foi um segundo noivo, a segunda rejeição na vida dela. Antônio sentiu-se atordoado, como se a esposa tivesse escondido um segredo. Naquela noite da visita das cunhadas, quis que elas contassem mais sobre os acontecimentos sobre o tal namoro e noivado. Queria saber quem era Luis. Quando e como se conheceram. Onde cada um morava. 

A descoberta sobre o passado abalou as certezas do idoso, então com 73 anos. Anotava o cotidiano em um diário, criado um mês após a morte da esposa. Pretendia cultivar a memória bondosa dela. O caderno passou a receber palavras de profunda inquietação. Foi um ciúme tardio. Como nunca havia experimentado antes em todos os quase 50 anos de casado.

  • Carmelita tinha um grande poder de simulação de seus sentimentos, registrou algumas vezes. Em algum momento, ele reconhece que talvez Carmelita tenha tentado falar sobre a história.

Obcecado, procurou informações sobre Luis. Recorreu aos parentes, velhas amigas e conhecidas de Carmelita. Qualquer pessoa capaz de apresentar  detalhes sobre acontecimentos era alvo das perguntas. O assunto estava presente em todas as conversas seguintes e nas anotações do diário. Passou a dormir mal, envolvido por dúvidas. 

Descobriu onde Luiz morava, em uma cidade do interior de Minas.  Pegou um ônibus desconfortável e enfrentou a estrada precária em seis horas de viagem. Hospedou-se em um hotel próximo ao endereço anotado no diário.  No dia seguinte, vestiu o seu melhor terno e, no meio da manhã, foi até a casa daquele que já era imaginado como um rival. Tocou a campainha. Foi recebido por um velho, tão velho quanto ele mesmo.

Identificou-se como viúvo de Carmelita e pediu as correspondências trocadas no passado. Foi expulso da casa sob ameaças de levar bengaladas. Inconformado com a reação do outro, Antônio só controlou aquele ciúme quando os parentes começaram a dizer que ele estava ficando gagá. Pouco tempo depois, Antônio casou-se com Maria Carmem, amiga de velhos tempos da ex-esposa. Colocou a foto da nova companheira na carteira, mas manteve o retrato de Carmelita.

Filhos, netos e bisnetos jamais diriam que Antônio, meu avô, era um machista. Afinal, foi um homem inovador e racional, que prezava o conhecimento e o humanismo  acima de tudo. Trabalhador coerente com valores da civilização, chegou a largar o melhor emprego da sua vida por não concordar com uma decisão dos companheiros da empresa onde era diretor. Mas, antes de se casar com Carmelita, ele também teve um noivado desmanchado porque a mulher desejava ser engenheira, como ele.

Ao encarar álbuns de fotografia e o diário de Antônio, penso que mesmo o homem mais adestrado pode deixar emergir o machismo. A ascensão do ódio às mulheres, a rejeição ao feminismo e a todos os movimentos de direitos humanos, os fenômenos denominados de incels e red pills e o fortalecimento dos grupos de extrema direita pelo mundo refletem os efeitos da falta de tratamento do vírus do machismo presente em nós. Precisamos desenvolver vacinas contra os efeitos da praga, controlar os vírus adormecidos nos cérebros dos homens. Antônio, que é parte do meu nome, foi um homem bom. Mas poderia não ter sido. 

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