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Militarização e machismo convergem como risco do futuro da humanidade

Não é coincidência. Entre a divulgação de uma pesquisa sobre o aumento da misoginia entre jovens e as guerras disseminadas pelo planeta, militarização e o machismo agem na sociedade como irmãs siamesas. A duas forças portadoras de mudanças avançam por todo o planeta. A expansão do “modelo militar” se define como espírito do tempo, o chamado zeitgeist. Projeta o futuro de uma sociedade ainda mais violenta.

O mundo em 2024 registrou recorde de investimentos militares, que alcançaram 2,7 trilhões de dólares. São 135 conflitos no ambiente global, incluindo o genocídio de Israel, que já matou mais de 55 mil palestinos na Faixa de Gaza, sob o olhar alheio e conivente dos Estados Unidos, da Europa e da imprensa comercial.

Na segunda-feira, dia 23 de junho, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) anunciou uma elevação significativa nos gastos militares dos países-membros. Segundo o secretário-geral Mark Rutte, cada nação deverá investir no mínimo 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em Defesa, medida aprovada durante cúpula realizada em Haia, na Holanda.

No papel de macho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou o governo espanhol, que anunciou a recusa de cumprir as metas estabelecidas pela Otan. A Espanha, no entanto, declarou que não precisa atingir a meta e pode cumprir seus compromissos gastando menos. O governante estadunidense, típico representante da sociedade machista, chamou a decisão da Espanha de “terrível” e prometeu forçar o país a compensar a diferença de investimento.

Meninos contra meninas

Enquanto Israel promove genocídio na faixa de Gaza, disseminando a morte de crianças e mulheres, a escritora e pesquisadora inglesa Laura Bates alerta para um fenômeno preocupante da radicalização em massa de meninos e adolescentes, impulsionada pelos algoritmos das redes sociais. “Isso é algo que nunca tínhamos visto. Ao longo de décadas, a parcela da opinião pública que lamentavelmente tem noções do tipo ‘lugar de mulher é na cozinha’”, disse em entrevista ao podcast “Radical with Amol Rajan”, da BBC. São velhas crenças que retornam ao ambiente masculino.

“Temos a ideia de que os jovens são mais progressistas e liberais, com um alto grau de tolerância social e mais respeito pelas mulheres. Mas o que vemos agora, pela primeira vez na história e em diferentes estudos, é que as atitudes mais misóginas, antiquadas e obsoletas em relação às mulheres e às meninas se tornaram mais comuns entre jovens do sexo masculino”, completou.

Autora de livros como “Men Who Hate Women” (Homens Que Odeiam Mulheres, em tradução livre) e “Fix the System, Not the Women” (Conserte o Sistema, Não as Mulheres), Bates é

Na entrevista, ela destacou como a inteligência artificial e as redes sociais amplificam esse problema. “Precisamos soar o alarme e dizer que não estamos falando aqui de um risco futuro e distópico em que robôs dominarão o mundo. Isso está acontecendo agora mesmo e é a vida de meninas e mulheres que está em jogo”, alerta.

Rebelião do machismo

A militarização, em contextos como escolas, forças de segurança e movimentos religiosos, tem potencial de associação com dinâmicas que reforçam o machismo. A estrutura hierárquica, a disciplina rígida, a ênfase na obediência e limitações cognitivas, características da cultura militar, podem levar à reprodução de papéis de gênero tradicionais e à invisibilização de violências de gênero. 

Escolas cívico-militares e Legendários são sinais de um mesmo processo, ao repetir procedimentos baseados em restrição cognitiva. A militarização incorporada ao cotidiano das redes de ensino públicas e privadas tende a resultar em violência policial e em ambientes de repressão, onde a cultura do medo e da intimidação prevalece, além da repressão à autonomia feminina, afetando desproporcionalmente mulheres e grupos marginalizados. 

Militarização e machismo:

  • Reforço de papéis de gênero: A militarização, com sua estrutura hierárquica e ênfase na obediência, pode reforçar estereótipos de gênero tradicionais, onde homens são vistos como líderes e mulheres como subordinadas. 
  • Ambientes de repressão: Em escolas militarizadas, por exemplo, a rigidez da disciplina e a falta de diálogo podem criar ambientes opressivos, onde a violência e o assédio podem ocorrer com mais facilidade, afetando principalmente mulheres e meninas. 
  • Desigualdades educacionais: A militarização da educação pode levar a desigualdades no acesso e na qualidade da educação, com impactos negativos em estudantes de grupos vulneráveis. 
  • Cultura do medo: A militarização, tanto em escolas quanto em forças de segurança, pode criar uma cultura do medo e da intimidação, onde a violência é naturalizada e a violência de gênero pode ser ignorada ou minimizada. 
  • Deslegitimação da luta feminista:A militarização, com sua cultura de hierarquia e obediência, pode deslegitimar a luta por igualdade de gênero e pelos direitos das mulheres. 

Tendências

A revolta dos machos.

A militarização não é uma solução para os problemas sociais, e pode, na verdade, agravar as desigualdades e violências existentes, especialmente as de gênero. A luta contra a militarização é, portanto, uma luta pela garantia dos direitos humanos, pela igualdade de gênero e pela construção de uma sociedade mais justa e pacífica. 

  • Instituições militarizadas reforçam a violência e o assédio, que tendem a ser mais frequentes, com pouca ou nenhuma punição para os agressores, e a cultura da disciplina militar pode dificultar a denúncia de casos de violência de gênero. 
  • Em contextos de violência policial, a militarização das forças de segurança pode levar a abordagens violentas e abusivas, com maior incidência de violência contra mulheres e grupos marginalizados. 

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