Em tempos de eleições e de aumento da influência da extrema direita, em 2026 os conflitos em família e as ansiedades individuais são tendências de impacto geral

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Nos últimos anos, Renato até voltou a conversar com Mauro, o irmão mais novo, com quem nunca se entendeu na verdade. Mas, como ficou evidente no reveillon de 2026, a paz era tão falsa quanto transitória. A festa nem havia terminado quando os dois foram separados à força para não trocarem socos. Diante de convidados, a briga expôs o fim do acordo tácito que, durante três anos, reprimiu conversas sobre temas relacionados com “política” entre irmãos e irmãs, pais, filhos, sobrinhos e netos.
Após os tempos de silêncio e repressão de sentimentos, o ódio surgiu com maior intensidade. Foi o prenúncio da volta das discórdias entre familiares e outros grupos sociais como uma das tendências centrais do novo ano. A irmã mais nova, Carlota, rotulada de comunista por um e de petista pelo outro, acostumou-se a não entrar nas brigas. “Prefiro me identificar apenas como psicóloga e humanista”, diz ela.
Na verdade, descrente na possibilidade de interagir racionalmente por conta do radicalismo, se afastou dos familiares. Abriu uma excessão na passagem de 2025 para 2026. Nem tanto por afetos, mas pela expectativa de ver o que poderia acontecer.
– “A paz não tem espaço nesse nosso mundo de 2026”, lamentou.
Ansiosa diante do destino de tudo e de todos, para ela a briga de início de ano atesta que a sociedade tende a ser cada vez mais doente. Mental e fisicamente. Psicóloga, ela constata os efeitos do crescimento das incertezas sobre o futuro entre os clientes. “Os acontecimentos refletem várias crises”, comenta com os poucos amigos com quem compartilha percepções.
– “Eu me sinto em um ambiente distópico. Não como ficção. Estamos sendo ameaçados o tempo todo pelos avanços dos movimentos de extrema direita, pela violência contra as mulheres, pelo machismo e militarismo”.
A expectativa das eleições para presidência e parlamentos deste ano amplia as angústias. Para Carlota, o desalento cresce com a avaliação de que pessoas próximas, como os irmãos, ajudam a sustentar os avanços do radicalismo de direita. Mauro, de 69 anos, comerciante de produtos importados de baixo valor, deseja Bolsonaro ou um bolsonarista raíz de volta ao governo. Renato, engenheiro civil, de 68 anos, espera um candidato alternativo ao presidente Lula, em quem só votará em último caso.
Divergências levadas ao extremo são um problema generalizado. Um fenômeno ocidental, em que os Estados Unidos perderam todo o pudor em exercer a força para defender os interesses de suas corporações militares e empresariais. Nos grupos de debate, Olga e seus companheiros de reflexão acreditam que “a humanidade está mais próxima de uma Idade Média do que de algo parecido com uma sociedade avançada”.
– “Em 2026 teremos a oportunidade de compreender como o mundo funciona de verdade, como nunca antes”, ironiza Carlota ao apontar pelo menos uma tendência positiva para o ano.
Será um período ideal para acompanhar a atuação dos países poderosos e identificar os interesses envolvidos. Como exemplo mais evidente, os Estados Unidos perderam qualquer pudor em destituir governos, ocupar países e matar pessoas com o objetivo de roubar recursos naturais, como petróleo e terras raras.
A liderança do presidente Donald Trump favorece as indústrias de armas, de petróleo e de mineração e as grandes empresas de tecnologia patrocinam assassinatos e roubos. A Europa amplia os gastos militares. Incapazes de enfrentar a influência e os avanços econômicos e tecnológicos da China, os países ocidentais, sempre atendendo interesses de grupos econômicos, reforçam as incertezas sobre o futuro de suas populações e do planeta.
Os mesmos interesses internacionais vão se associar a grupos econômicos e políticos brasileiros para viabilizar a eleição de um candidato capaz de impedir um quarto mandato do presidente Lula.
– “Como vamos enfrentar o jogo sujo da direita em tempos de influência crescente da inteligência artificial?”.
Estratégias amplamente utilizadas para inviabilizar a reeleição vão incorporar os avanços exponenciais de ferramentas de inteligência artificial. Entre outros, vídeos que utilizam imagens criadas com IA, as Deep Fakes, mensagens com informações falsas, e uso da imprensa tradicional para ataques ao judiciário e movimentos sociais e para divulgação de notícias que favorecem candidatos da oposição. Será um ano de disputas nas casas e nas ruas.
– “Teremos muito a aprender sobre o comportamento da humanidade, na tentativa de construir algo novo ou reverter os avanços civilizacionais”, avalia Carlota.

