Reportagem da The Economist e as repercussões da mídia brasilera estão inseridas no processo de fortalecimento dos interesses do governo de Trump

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Aliada incondicional dos interesses dos Estados Unidos e de Israel, a imprensa brasileira embarcou com voracidade no apoio a uma reportagem da revista britânica “The Economist”. O texto, publicado no domingo, dia 29, descreve um quadro de perda de popularidade do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil. E também de redução da influência de Lula no exterior.
Ao endossar a matéria da publicação de negócios, a mídia comercial brasileira condena o governo federal por assumir “postura cada vez mais hostil ao Ocidente”. Repete a parcialidade já tradicional nas repercussões dos acontecimentos. Na prática, como faz na cobertura de outros eventos que envolvem interesses econômicos e político, defende a existência de uma única verdade. É o pensamento supersimplificado e de deslegitimização de posições contrárias aos pensamento dominante.
Lula é acusado de se distanciar das posições defendidas pelos Estados Unidos e por grande parte dos países ocidentais, ao mesmo tempo em que se aproxima de nações como China e Irã. Ou seja, mostra que a mídia compartilha “inimigos em comum”. Para a imprensa, o governo não pode condenar o ataque dos EUA a complexos nucleares iranianos durante o conflito no Oriente Médio, sob a alegação, sem provas, de impedir o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã.
O Ministério do Exterior expressou a posição do governo, alegando que esse tipo de ofensiva colocava em risco a vida e a saúde de civis. “O governo brasileiro expressa grave preocupação com a escalada militar no Oriente Médio e condena com veemência, nesse contexto, ataques militares de Israel e, mais recentemente, dos Estados Unidos, contra instalações nucleares, em violação da soberania do Irã e do direito internacional”, afirmou por meio de nota, pouco depois do ataque.
Fortalecimento da direita
Segundo a revista, ao condenar os ataques, o Itamaraty colocou o Brasil em “desacordo com todas as outras democracias ocidentais, que apoiaram as ações bélicas, ou apenas expressaram preocupação”. São as mesmas democracias europeias que apoiam, por omissão, o genocídio patrocinado pelo governo israelense na Faixa de Gaza. Na verdade, Reino Unido, Índia e União Europeia (EU), pediram contenção das hostilidades entre as partes envolvidas. Não condenaram, mas também não apoiaram a ação. Uma falsa neutralidade.
A reportagem da The Economist e as repercussões da mídia brasilera estão inseridas no processo de fortalecimento dos interesses do governo de Trump, voltado a combater o aumento da influência global da China. Na prática, o jornalismo brasileiro reforça a vinculação com os interesses da direita global. A começar pelo uso da tese de que Israel e os EUA realizam ataques como “ação defensiva”, destinadas a enfrentar as “ameaças iranianas”.
“O papel do Brasil no centro de um BRICS expandido e dominado por um regime mais autoritário faz parte da política externa cada vez mais incoerente de Lula”, afirma a revista. Segundo o texto, o presidente brasileiro não fez nenhum esforço aparente para estreitar a relação com os EUA desde que Trump assumiu o cargo. Uma posição que rejeita o fato de que o atual governo dos Estados Unidos cria animosidades com países de todo o planeta.
Tendências
Vale ressaltar o papel da imprensa brasileira como sócia da mídia internacional na defesa dos interesses do império em crise e na ascensão da direita global. Ela se cala diante das atrocidades cometidas por Israel na Faixa de Gaza. No caso da reportagem da The Economist desconsidera a avaliação de analistas de geopolítica que apontam inúmeras irregularidades envolvendo a ação de Trump. Um exemplo, a mídia não cita que mesmo os rituais do Congresso dos EUA foram atropelados com a decisão de ataque ao Irã.
Mais que o tema central sobre a aceitação ou rejeição do presidente Lula no Brasil e no exterior, a matéria da publicação britânica e as repercussões da mídia comercial brasileira explicitam as estratégias de manipulação de informações. Ou seja, como as informações são estruturadas para gerar relatos ilusórios.
O leitor interessado em compreender a realidade com senso crítico tem a oportunidade de identificar o movimento dos atores em torno do governo, com o objetivo de reforçar aspectos negativos e consolidar crenças do senso comum.
A mídia representa, entre outros atores, os políticos oposicionistas. Os dois segmentos perderam o pudor de agir com o objetivo de “sangrar o presidente Lula”. A administração da luta de classes do jogo envolve o objetivo de neutralizar a percepção de autonomia dos governos que ousem desafiar o pensamento hegemônico da direita neoliberal.
Não só o governo do Brasil, democraticamente eleito e que prioriza ações a favor da população, sem enfrentar os interesses dos ricos. Também os integrantes do Brics ou de qualquer outro país são o alvo. Países que desejam soberania na defesa de interesses são alvo da imprensa, repercutindo as posições dos grupos de poder econômico. Com papel central no processo, a imprensa esconde os interesses das elites econômicas, que atuam para neutralizar qualquer debate sobre a ascensão de um mundo multipolar.

