Para Jung, “a diferença entre sincronicidade e uma coincidência comum é a existência de um sentido profundo para quem vivencia os acontecimentos, gerando forte carga emocional e impacto no autoconhecimento”

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Sexta-feira, 10 de maio de 2010.
São umas dez horas da noite. No escritório de casa, Carlos Antônio usufrui da solidão diante do computador. Navega por várias telas de internet, aleatoriamente. Experimenta as redes sociais Facebook e Twitter, que iniciavam a trajetória de domínio sobre a humanidade. Ao retornar da cozinha, onde buscou gelo para a vodka misturada com refrigerante de limão, percebe, na tela do celular o registro de uma chamada da sobrinha Carolina.
Resolve ligar para ela. Ao primeiro alô da Carol, brinca com uma afirmação inesperada — para os dois, diga-se. De forma e conteúdo como jamais fez antes:
“Carol, não adianta pedir dinheiro!”
Falou com tom duro, incisivo. Alguém que tivesse ouvido ao passar pelo corredor teria imaginado uma briga. Mas era uma brincadeira, é claro. Como certas pessoas fazem por mania de fazer graça com tudo ou de agradar. Ao telefonar, Carlos Antônio cria situações inesperadas, às vezes com piadas, pequenas mudanças de voz, imitações de personagens ou ironias. É um hábito da família que desconhece a depressão.
Do outro lado, depois do alô e das palaras carregadas de agressividade, o silêncio ocupou o espaço digital. Como se a ligação tivesse caído. Incomodado pela ausência de reação, Carlos Antônio tenta quebrar a barreira criada. Toma a iniciativa de perguntar:
“E aí, não entendeu nada?”, pergunta Carlos Antônio, enquanto ri como um sem noção.
Carol fica calada. Não emite nem mesmo o som da respiração. Até que finalmente pergunta, gaguejante:
“Como é que você sabia?”
“Sabia o que?”, questiona o tio na vez de perguntar.
Ela diz, com tom de voz baixo, quase para não ser ouvida, parecendo assustada:
“Como é que você sabia que estou ligando para pedir dinheiro?”
Faz uma pausa. E complementa:
“Eu estou acabando de escrever um e-mail, que vou enviar para os tios, primos, outros parentes e nossos amigos. Estou sugerindo que a gente mande dinheiro para a Flavinha, que vai casar amanhã na Espanha.”
Como fazia com frequência, com uma insegurança desnecessária, Carolina queria a opinião do tio sobre o texto que pretendia enviar para a lista de e-mails. Não havia o WhatsApp, que ainda estava chegando no Brasil. Na proposta escrita com o afeto de sempre, ela argumentava que, diante da impossibilidade de enviar presentes, as pessoas poderiam juntar dinheiro em uma contribuição, como presente comunitário.
Durante anos, recordamos a história em reuniões familiares e de amigos como uma grande coincidência. Um caso interessante e engraçado. O tempo passou, mas ainda não havia testemunhado explicações verdadeiramente boas sobre a combinação dos eventos improváveis. Em pouco mais de quinze anos, Flavinha casou, mudou de endereço pelo mundo, conheceu o Vietnã, surfou na Austrália e no Havaí e ganhou duas filhas. Foi necessária a entrada de Paula, amiga de Carlos, no circuito de coincidências para que os eventos pudessem ser desvendados.
“Não foi coincidência. Foi uma demonstração de sincronicidade, de conexão.”, afirmou Paula, com quem Carlos encontrou por acaso na sala de espera de um hospital. Como acasos puxam acasos, a história foi lembrada mais uma vez. Para a amiga, ao retornar a ligação como uma brincadeira o tio demonstrou a conexão com a sobrinha. Entre divagações sobre significados, ela lembrou o ‘guru ‘Jung’. Ele dizia que coincidências não são acontecimentos aleatórios”. E completou: “a diferença entre sincronicidade e uma coincidência comum é a existência de um sentido profundo para quem vivencia os acontecimentos, gerando forte carga emocional e impacto no autoconhecimento”.

