A mídia entrega atestado de parcialidade ao criticar vídeos sobre o Congresso Nacional e o deputado Hugo Motta. Nas Notas de Conjuntura, os assuntos da semana


CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Cada vez mais indefensável, a mídia comercial brasileira mostra sua cara. Assume em todos os seus meios, dos impressos aos digitais, o papel de defesa de interesses das minorias econômicas e políticas. Nada mais simbólico do que a reação à circulação de vídeos nas redes sociais que denunciam o papel do Congresso como responsável pela manutenção de privilégios dos próprios parlamentares e contra correções de distorções noo sistema tributário brasileiro.
Como um dos vídeos denuncia, as Organizações Globo são a “assessoria de imprensa” das elites, da qual ela é parte central, por sinal. O jornal O Globo publicou nesta sexta-feira, dia 4, um editorial em que sai em defesa do Congresso Nacional. Sob o título “Ataques ao Congresso são inaceitáveis”, o texto tenta desqualificar a campanha por justiça tributária liderada por setores progressistas e apresenta argumentos alinhados com a defesa dos interesses do centrão e das elites econômicas.
O editorial minimiza os inúmeros escândalos envolvendo o Congresso Nacional e agressões à democracia. Sustenta, de forma manipulatória, como sempre, que a instituição “tem evitado desvios à direita e à esquerda ao longo da História”, além de afirmar que “todos os avanços do Brasil passam pelo Congresso”.
Jornal Nacional no ataque
No X/Twitter, o canal Pensar a História questiona o leitor sobre “quantas vezes você viu o Jornal Nacional pedir moderação nos ataques ao governo? Quantas vezes você ouviu a Globo dizendo que críticas ao governo causam preocupação?”
O texto conclui que “nunca vimos isso. Nenhuma vez. Pelo contrário.” E lembra que a própria Globo se dedica a atacar o poder executivo constantemente — ao ponto, inclusive, de ter ajudado a derrubar presidentes eleitos democraticamente.
“Mas note que bastou que o Congresso sofresse um mínimo de pressão popular — que não é nem 0,5% do que o governo está acostumado a sofrer — para que a imprensa saísse em sua defesa”. O autor da postagem na rede ressalta que cobrar de deputados e senadores é um atributo da democracia.
E daí: os donos do poder reagem
O Instituto de Pesquisa e Inteligência Nexus monitorou os termos mais mencionados nas redes sociais, concluindo que esforço digital do PT em defesa da taxação dos super-ricos vem gerando resultados positivos. O levantamento constatou que o termo “Congresso da mamata” liderou as menções, com mais de 502 mil citações. Na sequência aparecem: “Congresso, inimigo do povo” (mais de 408 mil), “Hugo Mota traidor” (238 mil), “Agora é a vez do povo” (184 mil) e “Ricos paguem a conta” (83 mil).
Cenário de disputas
Mais que nunca, o cenário é de explicitação da luta de classes patrocinada pelas elites contra os interesses da maioria da população. O Jornal Nacional, por exemplo, não identifica problemas em convocar um deputado de extrema direita do Rio Grande do Sul para defender as causas que interessam aos grupos econômicos que dominam todos os ambientes da política no Brasil.
Os veículos das Organizações Globo não teriam dado tanto destaque para os vídeos se eles não tivessem abalado a confiança da emissora, em particular, e da direita e extrema direita. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, deu demonstrações de que sentiu a capacidade de mobilização das imagens que o denunciam como responsáveis por tomar medidas que beneficiam os ricos e penalizam os pobres.
Tendências: acirramento das disputas
Os acontecimentos são mais um capítulo da campanha eleitoral antecipada de 2026, em que o momento foi favorável para os defensores de uma democracia que favoreça os interesses da população em detrimento dos privilégios de grupos econômicos, políticos e sociais. A reação virá com maior força em todos os níveis. Em especial da imprensa, que não disfarça mais o seu discurso.
Os grandes grupos de jornalismo empresarial já entenderam que não é necessário recorrer à sutileza das mensagens que induzem o cidadão a apoiar políticos e iniciativas que impactam negativamente a vida do mesmo cidadão. Afinal, as pesquisas demonstram que o bolsonarismo, mais que o ex-presidente Bolsonaro, segue apoiado por quase um terço da população. E a aprovação ao governo Lula é mais baixa do que em outros momentos na presidência.
A reprovação de Lula e a rejeição a Bolsonaro abrem espaço para a direita, mas a fragmentação de candidatos e o alto índice de indecisos, 33% sem posicionamento ideológico, segundo o Instituto Quaest, sugerem um cenário aberto para as disputas até 2026.
Contra a generalização
Ao mostrar o Congresso Nacional como “inimigo do povo” ou “da mamata”, os vídeos generalizam a baixa qualidade dos parlamentares. Na verdade, é necessário eliminar o predomínio de empresários, fazendeiros, ricos, milionários e lobistas, entre outras categorias.
Nem todo político é inimigo do povo. Há uma minoria de defensores de interesses dos cidadãos, especialmente da população de baixa renda, que não pode ter o mesmo destino de quem faz do Congresso um balcão de negócios privado.
Movimento dos atores
Congresso Nacional
Um novo foco de atrito entre o governo e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), já começa a se desenhar nos bastidores de Brasília. De acordo com informações publicadas pela coluna da jornalista Bela Megale, no jornal O Globo, Motta estaria articulando nos bastidores a votação de um projeto de anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, quer limitar quem pode recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra decisões do Congresso. Para juristas, a medida afronta a Constituição e ameaça a representação das minorias.
Imprensa
A Rede Globo se joga com tudo na campanha do bolsonarista Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Extrema direita – Governo Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem as portas abertas para a megatransferência de renda de pobres para ricos do país. O megaprojeto de gastos e cortes de impostos foi aprovado pelo Congresso. O pacote de iniciativa inclui também a vitória dos defensores de armas de fogo, ao tornar mais baratos e acessíveis os silenciadores e alguns tipos de rifles e espingardas e enfraquecer a Lei Nacional de Armas de Fogo.
Indicadores
Efeito Trump nas contratações
Levantamento do site de recrutamento Vagas.com revela que as chamadas vagas afirmativas, que reservam postos de trabalhos para minorias, despencaram quase 80% entre junho e dezembro de 2024. Os anúncios feitos por meio da plataforma caíram de 1.798 para 399 vagas no mês.
Segundo dados do site G1, os programas voltados ao estímulo de inclusão e diversidade acompanham discretamente o movimento de regressão registrado nos Estados Unidos. Só entre setembro e outubro de 2024, o recuo foi de 51%, de 1.210 para 587 vagas. O período, inclusive, coincide com o momento em que Trump intensificou a campanha presidencial, temperada com discursos contra as políticas de diversidade.
Mercado de trabalho: recorde da CLT
O desemprego recuou para 6,2% no trimestre terminado em maio, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, com resultado recorde de contratações no regime de CLT. Analista da pesquisa afirmou que esse é o melhor patamar do mercado de trabalho em 10 anos.
Brasil recebe os Brics
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebe os chefes de Estado que participarão da cúpula dos Brics no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, a partir do próximo domingo dia 6. O cenário é o mesmo onde, há quase sete meses, foi realizada a cúpula do G20, grupo das 20 maiores economias do mundo. O clima político no Rio de Janeiro para Lula será bem diferente do observado no final de novembro de 2024. Tanto no âmbito doméstico quanto no internacional.
Os Brics, formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Egito e Irã, são alvo de críticas dos Estados Unidos e aliados, incluindo a imprensa, que não têm interesse no fortalecimento do mundo multipolar, alinhado ao trio China, Rússia e Irã.
- Entre as temáticas propostas pela organização do encontro está a taxação de grandes fortunas
- Clima e saúde também serão temas de destaque
Quando a manipulação acontece
Grande imprensa até critica gastos do Congresso, mas se cala diante dos mais de R$ 1 TRILHÃO de juros da Dívida Pública
No dia 30 de junho, o jornal Folha de São Paulo trouxe a manchete “Pressão de R$ 100 bi”, criticando gastos (e renúncias fiscais) definidos pelo Congresso Nacional, como a desoneração da folha e as emendas parlamentares, porém, colocando neste bolo itens que são positivos para o País, como a complementação da União ao Fundeb. Mas o principal problema da abordagem da grande imprensa é a omissão total dos gastos com a dívida pública federal, aprovados pelo Congresso, por exemplo, quando participa (junto com o Poder Executivo) da indicação dos diretores do Banco Central, ou quando aprova leis como a da “autonomia” do BC. Em 2025, foram mais de 1 trilhão de reais de juros (sem nem contar as amortizações), ou seja, mais de 10 vezes o valor de gastos que o jornal denuncia, de forma ainda inflada. (Auditoria da dívida)


