As ameaças e iniciativas de Donald Trump contra o Brasil são parte de um jogo mais complexo do que imagina o senso comum moldado pela imprensa tradicional no noticiário e debates do cotidiano. Em destaque na cobertura, Jair Bolsonaro é, no cenário geral do teatro patrocinado pelos Estados Unidos, apenas o bobo da corte, a peça útil da distração do sistema beligerante que comanda o império em acelerada decadência econômica e moral.
“O Brasil está sendo arrastado para o espectro das guerras eternas”, assinala o jornalista Pepe Escobar, especialista em geopolítica. Não é mera coincidência o fato de que a tarifa de 50% para produtos brasileiros exportados para os EUA tenha sido anunciada logo após a realização da reunião do Brics, realizada no Rio de Janeiro. É contra o bloco que Trump se move.
Vale prestar atenção: a cobertura da imprensa prioriza a pauta que vincula as iniciativas de Donald Trump exclusivamente à pauta das articulações da família Bolsonaro contra o Supremo Tribunal Federal. Não há referências às intervenções dos EUA com o objetivo de impedir a possibilidade de expansão de um mundo multipolar, liderado por chineses, russos e brasileiros, reunidos no Brics, o grupo econômico que cresce com adesões de um maior número de países.
E daí: ameaça beligerante
Por questão de fé na força das armas como processo histórico, os Estados Unidos não tem interesse em outra saída além das guerras para tentar manter a hegemonia do dólar e o controle dos mercados globais. O império depende de ameaças, medo e caos para se manter dominante. São prioridades de Donald Trump, entre idas e vindas de divulgação de aumentos de tarifas, apoio ao massacre promovido por Israel contra o povo palestino e outras ações agressivas contra todo o planeta.
Como um dos fundadores e articulador do Brics, o Brasil está sendo inserido no contexto das guerras que têm como alvo final a China, passando antes pela Rússia e Irã. “A nova guerra mundial já está em andamento – só que nem todos a reconheceram ainda”, afirma Dmitri Trenin, membro do Conselho de Política Externa e de Defesa da Rússia. Segundo o ex-diretor do Carnegie Moscow Center, um think tank – centro de estudos – russo, há preparativos para transformar a guerra da Rússia contra a Ucrânia em um conflito envolvendo a Europa.
O risco de um confronto nuclear direto com a OTAN por causa do conflito na Ucrânia está aumentando. Confirmando as preocupações, a União Europeia anunciou, em 16 de julho, uma proposta de orçamento que quintuplica gastos com defesa, destinando 100 bilhões de euros à Ucrânia entre 2028 e 2034, apesar das críticas de parlamentares.
Impactos: A decisão reflete a reconfiguração geopolítica global, com implicações para a estabilidade do relacionamento entre nações. Guerras são ameaças reais.
Para a Rússia, o período pré-guerra terminou em 2014. Para a China, foi em 2017. Para o Irã, em 2023. Desde então, a guerra – em sua forma moderna e difusa – se intensificou. “Esta não é uma nova Guerra Fria” diz Dmitri Trenin. “Desde 2022, a campanha do Ocidente contra a Rússia tornou-se mais decisiva. O retorno de Donald Trump à Casa Branca criou uma janela temporária na qual tal confronto poderia ser evitado, mas em meados de 2025, os falcões nos EUA e na Europa Ocidental nos empurraram perigosamente para perto novamente”, avalia o especialista russo.
Tendências: desventuras em série
No futuro, “Desventuras em série”, nome de uma coleção de livros e filmes de histórias infanto-juvenis, será a inspiração para a definição do atual período da história do Brasil e da humanidade. Quando um acontecimento sai do foco das atenções, nem respiramos e outro momento de tensão logo ganha destaque.
Na literatura e na vida real, quando o cidadão respira aliviado, um novo desafio surge para criar novas emoções. As “desventuras em série da geopolítica” espantam os jornalistas. Acostumados, no passado, a sofrer com a proximidade dos meses de janeiro e julho, tidos como períodos de queda da safra de notícias, os profissionais de imprensa convivem com as instabilidades permanentes.

Acontecimentos políticos
“Tarifaço” de Trump no Brasil:
- O que: A ameaça de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros por Trump, anunciada em 16 de julho, gerou preocupações econômicas. O Pix foi um dos alvos, afetando big techs e empresas de cartão de crédito. O governo Lula criou um comitê para discutir reações, enquanto o dólar disparou e o Brasil buscou aliados no BRICS e na China.
- Impacto: A medida cria insegurança sobre o futuro da economia brasileira.
- Aprovação de Crédito ao Agronegócio:
O que: Em 17 de julho, a Câmara aprovou um crédito subsidiado de R$ 30 bilhões ao agronegócio, em resposta ao veto de Lula ao aumento de deputados, sinalizando uma retaliação econômica do Congresso.
Impacto: A medida reflete a força do agronegócio no Congresso e a tensão com o governo federal, agravando a crise política.
BRICS e Cooperação Econômica:
Descrição: A Declaração do Rio de Janeiro, de 6 de julho, continuou a reverberar, com ênfase na cooperação econômica do BRICS. O bloco incentivou ações conjuntas em infraestrutura digital e políticas de concorrência, com a IX Conferência Internacional de Concorrência marcada para 2025 na África do Sul.
Impacto: O Brasil reforçou sua posição no BRICS como alternativa ao “tarifaço” de Trump, buscando parcerias com China e outros membros.
Acontecimentos Sociais
Protestos contra o “Centrão Inimigo do Povo”:
O que: Movimentos sociais realizaram atos em 12 capitais brasileiras em 10 de julho, com ecos na semana seguinte, exigindo taxação dos super-ricos, fim da escala 6×1 e isenção de Imposto de Renda para salários até R$ 5 mil. Em São Paulo, protestos na Avenida Paulista criticaram a flexibilização de regras de licenciamento ambiental.
Impacto: Os protestos reforçaram a pressão por reformas sociais e evidenciaram a possibilidade de retomada de mobilização popular em defesa de direitos sociais.
Mudanças Climáticas e Escassez Hídrica:
O que: Um encontro marcado para 16 a 18 de julho, organizado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, discutiu os efeitos das mudanças climáticas na população que enfrenta escassez hídrica e desabastecimento sanitário.
Impacto: A iniciativa reforçou a atenção às questões climáticas e suas implicações sociais no Brasil.
Onda de Ataques a Ônibus em São Paulo:
O que: São Paulo registrou 616 ataques a ônibus desde 12 de junho, levando à operação “Impacto Proteção aos Ônibus”, com 7.800 policiais e 3.600 viaturas, conforme noticiado em 15 de julho.
Impacto: A violência urbana gerou insegurança e pressão por respostas das autoridades, destacando desafios de segurança pública.

