A democracia no Brasil é restritiva para impedir a vontade popular. Por isso, o Congresso manda. Este e outros destaques da semana nas Notas de Conjuntura

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
“Dono” de mais de R$ 50 bilhões em recursos de emendas parlamentares, a maioria dos parlamentares de centro à direita que domina o Congresso Nacional acumula provas do crescimento descontrolado do poder de políticos de baixa qualidade. Os conservadores do legislativo federal constroem problemas futuros para o País.
Os recursos são retirados de programas de governo para atender demandas privadas dos deputados e senadores das alas mais conservadoras. Decisões recentes, como a resistência à tributação progressiva, a manutenção de emendas opacas e a aprovação de medidas que favorecem as elites, reforçam o cenário marcado pela imposição de interesses da minoria rica, em detrimento do interesse nacional.
Nunca foram tão evidentes as reais intenções da maioria dos parlamentares: defender o poder dos “donos” da economia, da política e da sociedade. E reverter direitos sociais, em sentido oposto. Há, por parte da maioria parlamentar, do Centrão à extrema direita, uma consciência sobre a impossibilidade do governo de reagir. Eles têm maioria, em todos os sentidos possíveis.
Nem mesmo a liberação recorde de pagamentos de emendas em 2025 leva o Congresso a cumprir acordos. A destinação de recursos não foi suficiente para evitar derrubada de decretos do IOF. Os acontecimentos confirmam a tendência mais geral de expansão da desigualdade social no planeta, como revela o relatório Oxfam 2025, divulgado nesta semana.
Desigualdades crescentes
Decisões recentes do Congresso Nacional evidenciam a tendência de aumento das desigualdades no Brasil e no mundo, confirmada por dados e informações da Oxfam, instituição que realiza estudos sobre a desigualdade global. O relatório “Do Lucro Privado ao Poder Público: Financiando o Desenvolvimento, Não a Oligarquia”, publicado no dia 25 de junho de 2025, revela um cenário alarmante de concentração extrema de riqueza global e seus impactos na desigualdade e no desenvolvimento sustentável.
Entre 2015 e 2025, a fortuna do 1% mais rico do mundo cresceu US$ 33,9 trilhões, um montante suficiente para erradicar a pobreza global anual por 22 anos, segundo o critério do Banco Mundial de US$ 8,30 por dia para pobreza extrema. O documento destaca que, entre 1995 e 2023, a riqueza privada global aumentou US$ 342 trilhões, oito vezes mais do que a riqueza pública, que cresceu apenas US$ 44 trilhões no mesmo período.
E daí: caminho aberto para a desigualdade e impunidade
A disparidade apontada pela Oxfam evidencia os efeitos do predomínio do lucro privado sobre o investimento público em áreas essenciais para o desenvolvimento, como saúde, educação e combate às mudanças climáticas. São, enfim, as prioridades da maioria instalada na Câmara dos Deputados e no Senado. Não só o governo, mas também a sociedade perdeu controle sobre o comportamento dos seus representantes.
O interesse geral do país não importa. Um quinto do Congresso tem envolvimento com problemas na Justiça. São os deputadores e senadores que vão mandar cada vez mais no Brasil. Representam localmente perspectivas que se espalham pelo mundo. “É um Congresso sem pudor”, define o jornalista Aldo Fornazieri.
O sistema está em crise, doente. Ele produz guerra, crise climática, empobrecimento, crise migratória, degradação de valores. Há uma encruzilhada, que preocupa pensadores políticos, sociais e econômicos engajados na visão humanista, defensores da urgência de mobilizações capazes de fazer a disputa fora do campo institucional.
Tendências: a democracia em crise
Sem controle, as eleições serão, no futuro, meramente formais, em um cenário de concentração política, econômica e social. Não é por acaso que um deputado foi denunciado por destinar recursos para um condomínio de alto luxo. Sem movimentos de resistência e reforma política, a degradação das relações de força no Brasil tende a ser ampliada em direção a um parlamentarismo informal que, mais à frente, pode ser adotado definitivamente como sistema de governo. Na prática, o poder legislativo vai eliminar o poder do governo federal e, por via indireta, dos direitos dos cidadãos. Será a irrelevância da democracia.
Expectativas de desmobilização
Deputados também contam com a falta de reação de partidos de esquerda, da desmobilização dos movimentos sociais, sindicatos e outras organizações que lutam por interesses gerais da população.
Movimento dos atores
Congresso Nacional
A disputa política das eleições de 2026 para a presidência já começou. Com a demonstração de força da rejeição do IOF, o congresso articula ações para viabilizar a vitória de um candidato da direita empresarial e política e da mídia. As estratégias enfatizam ações voltadas para imobilizar e sufocar o presidente Lula.
- Começou o cerco total ao governo Lula

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, assume a intenção de colocar o governo em uma sinuca, paralisar o orçamento e promover agitações nos mercados. Tudo isso tendo em vista 2026. A decisão do presidente da Câmara Hugo Motta, de colocar em votação o PDL do IOF, sem sequer alertar o governo, é o dia D do golpe parlamentar.
Os desdobramentos são óbvios: a busca do confronto final. A intenção de Motta é colocar o governo em uma sinuca, paralisar o orçamento e promover agitações nos mercados. Tudo isso tendo em vista 2026. (GGN)
Governo Federal
Lula e ministros criticam o governador paulista, Tarcisio Freitas, e a truculência da Polícia Militar no relacionamento com a população de baixa renda. Especialistas avaliam que o governo deve apostar em discurso social, enquanto prepara diálogo com o Congresso, sem confronto direto com os líderes da Câmara e do Senado.
- O presidente Lula não deve assumir posições mais agressivas em relação ao Congresso, mas vai destacar as diferenças entre os poderes executivo e legislativo
- A comunicação do governo continua sob críticas, pela ausência de mensagens mais agressivas para demonstrar resultados e enfrentar a capacidade de manipulação dos oposicionistas.
Atendendo determinação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ou seja, das indústrias de armas e do governo dos Estados Unidos, a Europa vai aumentar os gastos militares, que passarão a ser de 5% do PIB.
- O presidente Donald Trump ameaçou punir o governo espanhol, que rejeitou a determinação de aumento dos gastos militaresA Alemanha, pela primeira vez depois da derrota na Guerra Mundial, vai ter presença militar fora das fronteiras do país
Irã sob ataque
Incertezas prevalescem entre as análises sobre os objetivos dos Estados Unidos ao promover ataques a túneis e vias de acesso na instalação subterrânea de enriquecimento de urânio de Fordo, no Irã, atingida por Israel em 23 de junho.
Uma das coisas que torna o ataque ao Irã útil é que ele reforça os perigos e as exigências militares do momento. Isso será usado para silenciar qualquer um que questione a quantidade de dinheiro sendo retirado da infraestrutura e do que as pessoas precisam. Richard Wolff, economista, entrevistado pelo escritor e ativista político norueguês Glenn Diesen.
- Exército de Israel será investigado após jornal denunciar execução de palestinos à espera de ajuda
- Médicos Sem Fronteiras diz que 94% dos hospitais de Gaza estão destruídos
- Palestina pede ao mundo ações concretas para frear massacres de Israel em Gaza
- Chefe da ONU condena operação “humanitária” dos EUA e Israel em Gaza: “Está matando pessoas”
- Soldados israelenses relatam a jornal ter recebido ordens para atirar em civis que buscam ajuda em Gaza; Israel nega
Rei do ovo e os efeitos da falta de inteligência
O bilionário Ricardo Faria, dono da Global Eggs, dono de patrimônio estimado em R$17,45 bilhões, deu forma, em entrevista à Folha de S.Paulo, a um dos preconceitos que dominam o discurso oficial de setores da elite e que contaminam até as próprias vítimas. Segundo o bilionário, contratar no Brasil está difícil porque “as pessoas estão viciadas no Bolsa Família” e que “não temos nem a chance de trazê-las para treinar e oferecer uma vida melhor, porque estão presas ao programa”.
É a visão atualizada de preconceitos impregnados na visão das elites, como atesta o Observatório das Desigualdades. “Preto é preguiçoso”, já diziam os escravagistas, enquanto puniam, com ferro quente e chicotadas, os homens e mulheres obrigados a trabalhar em suas propriedades. Libertados, durante o século passado os escravos passaram a ser, também, os pobres preguiçosos. Nos anos 2000, os pobres são acusados de depender do estado.
“O empresário tropeça em diversas contradições ao longo da entrevista”, avalia o Observatório das Desigualdades, denunciando as contradições do empresário preconceituoso. Por exemplo, caberia perguntar se os R$ 132 milhões que sua empresa obteve de pelo menos 71 empréstimos não teria deixado o “rei do ovo” viciado em BNDES ou preguiçoso.
Há um outro preconceito a considerar. Se o jovem de classe média ou rico recebe mesada para estudar e investir em negócio próprio, é chamado de empreendedor. Se o pobre recebe recurso e pensa em investir em um negócio próprio, é chamado de preguiçoso, como se a rejeição à CLT fosse exclusividade de quem pode, e não de quem quer.
Desemprego mantém queda
A taxa de desemprego no Brasil voltou a se aproximar da menor da história, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No trimestre encerrado em maio, ela baixou a 6,2%, ficando 0,1 ponto acima do recorde registrado em novembro.
Até maio do ano passado, a taxa de desemprego era de 7,1%. Já no trimestre que vai de dezembro de 2024 a fevereiro de 2025, ela estava em 6,8%.
“Os principais responsáveis para a redução expressiva da taxa de desocupação foram o aumento do contingente de ocupados, que cresceu 1,2 milhão de pessoas, naturalmente reduzindo a desocupação, além de taxas de subutilização mais baixas”, explicou William Kratochwill, analista da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE. “O mercado de trabalho se mostra aquecido, levando à redução da mão-de-obra mais qualificada disponível e ao aumento de vagas formais.”

