Enquanto algumas milhares de mulheres protestavam em espaços públicos das cidades do Brasil e do mundo, os homens continuavam sendo os mesmos. Batem e matam porque acham que podem.

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
No futuro, a década de 2020 será reconhecida por historiadores, se ainda existir algum para registrar os acontecimentos do passado, como o período em que o ódio e a ignorância combinados e em estado bruto saíram do esgoto para revelar a força da estupidez do mundo masculino. O homem das trevas ressurgiu no ambiente dominado pelas tecnologias. Sem uma mobilização a favor da paz, contra toda ação militar em expansão, resistência às forças econômicas e políticas que comandam o mundo e sem a revisão do rumo atual da civilização, o período iniciado com a pandemia de Covid tende a terminar com cenários semelhantes aos descritos nas distopias escritas no século passado.
Acontecimentos registrados antes, durante e depois do Dia Internacional das Mulheres tendem a confirmar as piores expectativas. A sociedade ocidental das últimas décadas gerou o idiota absoluto. “Só cometi um homicidiozinho ali”, disse Jhonatas Douglas de Oliveira, um homem de 36 anos para a mãe após assassinar com 30 facadas, no Dia Internacional das Mulheres, a companheira, Mariana Camila de Oliveira Santos, de 30 anos, mãe de três crianças. Elas estavam na casa, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no momento do crime: um menino de 10 anos, uma menina de 8, ambos de um relacionamento anterior, e uma criança de 5 anos, filha do suspeito. O filho mais velho presenciou o ataque, ligou para o 190 e correu até a casa de um vizinho para pedir ajuda.
Outro homem, Wellington Rezende, de 43 anos, motorista de Uber, chega na delegacia de Planaltina, no Distrito Federal. Estaciona o carro no pátio. Desce e caminha, com as roupas sujas de sangue, até os policiais para comunicar que, no banco do passageiro do veículo, está o corpo da ex-companheira, Luana Moreira, de 41 anos. Um dia depois do Dia Internacional das Mulheres, a mulher, mãe de três filhos dele, foi morta com três golpes de faca de açougueiro, de forma premeditada.
Bruno Allegretti, João Bertho, Matheus Martins, Victor Hugo Simonin e mais um adolescente se entregaram à polícia do Rio de Janeiro, acusados de estuprar no dia 31 de dezembro uma jovem de 17 anos, em um apartamento no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ao se apresentar, Vitor Hugo Simonin, 18 anos, no dia 31 de janeiro, usava uma camiseta com os dizeres em inglês “regret nothing” – não se arrependa de nada. A frase escolhida remete ao influenciador americano-britânico Andrew Tate, conhecido por discursos misóginos e exploração sexual de menores. A atitude provocou forte revolta nas redes sociais, com internautas questionando se o jovem sentia orgulho do que fez.
A lista de eventos sobre a insanidade no Brasil registrou uma investigação da Polícia Federal sobre a trend “Caso ela diga não” – ou seja, tendência, um comportamento que ganha força entre internautas jovens em formação como machistas. Mensagens viralizam nas redes sociais para incitar práticas de violência contra a mulher. Segundo as denúncias encaminhadas para a PF, coincidindo com o mês de março, a trend viralizou no TikTok com homens simulando reações violentas diante de uma negativa em situações românticas. Ao supostamente escutarem um “não”, eles desferem socos, simulam dar facadas ou até tiros.
O ambiente externo, liderado por Donald Trump, dos Estados Unidos e Netanyahu, de Israel, contribuiu para o cerco às mulheres com o bombardeio mais devastador contra civis contra o Irã. No dia 28 de fevereiro de 2026, a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh na cidade de Minab, no sul do Irã, foi atacada, resultando na morte de 175 pessoas, a maioria estudantes com idades entre sete e doze anos.
A morte naturalizada
Enquanto algumas milhares de mulheres protestavam em espaços públicos das cidades do Brasil e do mundo, os homens continuavam sendo os mesmos. Batem e matam porque acham que podem. Segundo dados de órgãos do judiciário, os processos de feminicídio triplicaram em cinco anos. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil, de acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025. A violência doméstica dobrou no mesmo período.
Além de defender medidas punitivas e de proteção antecipada, é necessário ampliar o debate sobre o tema da violência masculina. Acontecimentos como a morte de meninas na escola do Irã, os assassinatos de palestinos em Gaza, as ações do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, e os avanços de movimentos de extrema direita, além dos feminicídios, devem ser compreendidos como sinais de uma única tendência: a violência contra a mulher não é um “defeito” do sistema, mas um subproduto funcional de uma estrutura em crise.
Especialistas convergem para a ideia de que o modelo atual de desenvolvimento atingiu um limite civilizatório. Para o masculinismo dominante, a violência em casa é tão natural quanto a guerra. É parte de um conjunto de “direitos” e de hábitos. É da tradição do macho patrocinar brigas entre torcidas, assediar subordinadas, oferecer acompanhantes em eventos, ter amantes e frequentar zonas em hoteis do centro de cidades, onde prostitutas e travestis são oferecidas para o consumo e descarte. A mulher é produto da sociedade do consumo
O poder masculino é, antes de tudo, a continuidade da história da civilização ocidental, com fortes amarras no passado. Deslumbradas com os avanços das tecnologias, as sociedades não perceberam a estrutura delas manteve as relações de poder praticamente intactas. Para o sociólogo francês Pìerre Bourdieu, o sistema social, formado por família, escola, mídia, igreja e Estado, entre outras instituições dominantes, trabalha para que a visão masculina do mundo pareça biológica ou “da ordem das coisas”. A violência simbólica ocorre, inclusive, quando a mulher, para entender o mundo, usa as categorias mentais criadas pelos próprios dominadores.
O aumento da violência atual recebe o nome de “reação ao empoderamento”, ou “Backlash”, fenômeno violento das estruturas patriarcais à medida que mulheres ocupam espaços de liderança e autonomia. É o sistema patriarcal tentando restaurar um backup antigo. Quando a mulher diz “não”, o homem preso ao velho status de poder sente um erro de lógica fatal. Sem ferramentas emocionais para lidar com a igualdade, ele recorre à única linguagem que o sistema arcaico conhece: a força física.
A violência não é um sinal de poder masculino, mas a prova de que o poder simbólico do homem entrou em colapso. Bourdieu assegura que, quando o sistema falha em prover segurança econômica, com trabalho, moradia e futuro, ele gera uma “anomia social” ou desregulação. Sem resistência de fato, a violência tende a ser incontrolável.

