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Feiras de profissões são estratégia de democratização do saber

Eventos acadêmicos como feiras de profissões são muito mais do que apresentações de cursos. Eles são momentos em que as universidades reafirmam sua vocação de formar cidadãos, construir vínculos sociais e democratizar o conhecimento que produzem a partir de financiamento e recursos gerados pela sociedade em sua totalidade.

Maria Cristiane Barbosa Galvão
Professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP


Para muitos jovens, visitar um campus universitário é o primeiro contato com esse universo; para outros, é uma continuação de uma história familiar já consolidada. É nesse encontro que sonhos, perguntas e o sentimento de pertencimento são criados ou reformulados. Mas esse impacto só se concretiza quando a experiência é planejada para todos: os que estão chegando pela primeira vez ao campus, aqueles que já frequentam os espaços acadêmicos por intermédio de suas famílias e também aqueles que, por falta de recursos e oportunidades, não podem comparecer a este tipo de evento e, por mais que tenham interesse no início da vida acadêmica, estão fisicamente ausentes.

Para atingir seus objetivos, feiras de profissões precisam de tempo para planejamento de atividades e materiais claros, acessíveis e bem elaborados, capazes de chegar a diferentes públicos, garantindo a disseminação de informações e oportunidades para diversos grupos sociais.

Nesse contexto, a tecnologia tem papel crucial, mas precisa ser inclusiva. Em vez de optar por soluções únicas, as universidades devem construir um ecossistema que priorize vínculos com a sociedade por meio da combinação de recursos físicos e digitais e linguagem multimodal: folders impressos para estudantes sem internet estável, QR codes e links para os que têm pleno acesso digital, vídeos educativos, painéis interativos e comunicação clara em múltiplos canais. Essa diversidade de formatos transforma as tecnologias em ferramentas de equidade e conexão com diferentes perfis.

Além da explicação acolhedora e dos sorrisos durante o evento, é importante que aqueles que tiveram a oportunidade de estar presentes se tornem parceiros e multiplicadores das vozes das universidades. É necessário planejar materiais de apoio que possam ser levados às casas ou escolas de quem não pôde ir à feira. Essas ações reforçam o papel das universidades como espaços efetivos de acolhimento e compromisso com a realidade de cada estudante.

Sob essa perspectiva, eventos acadêmicos com foco em profissões deixam de ser apenas “mostras de cursos” para se tornarem estratégias de democratização do saber. Quando os materiais circulam além do campus, por meio das escolas, professores e vestibulandos, as universidades se aproximam de comunidades que talvez nunca tenham pisado em seus prédios. Quando o impresso e o digital se complementam, a comunicação se torna verdadeiramente inclusiva. E quando esse tipo de evento é planejado com empatia, as universidades viabilizam que cada jovem, presente ou ausente, veja no espaço acadêmico um lugar de inclusão e pertencimento.

Por essas razões, reitera-se que essas atividades sejam planejadas com antecedência, com verbas claras destinadas a todos os cursos, e que exista um manual detalhado de planejamento. Esse manual deve contemplar o desenvolvimento de recursos físicos e digitais, estratégias de acessibilidade, logística, organização estética, ambientação sonora e visual, bem como a organização de roteiros democráticos das falas de professores e estudantes, garantindo que o processo de divulgação do conhecimento seja igualitário e inclusivo a todas as pessoas que buscam entender os cursos e escolher seus caminhos.

Tais reflexões derivam de minha observação ao longo de 31 anos de docência em universidades públicas e de muitas memórias vividas nesses eventos. Entre os encontros marcantes, lembro-me de um garoto com crachá de identificação de transtorno do espectro autista desenvolvido por sua mãe, com o qual parei para conversar. Ao saber que eu também era autista e professora da USP, ele e sua mãe se emocionaram: “Isso é incrível”, disse ela, comentando que, ao longo dos 15 anos de vida do filho, enfrentou desafios diários, inclusive para que ele fosse aceito em escolas de ensino fundamental e médio. Expliquei que meu caminho também não foi simples nem usual, pois minha forma de pensamento não é padrão, mas que o esperaria na USP com a proposta de orientá-lo e acompanhá-lo até a formatura. Esse gesto transformou uma simples conversa em um farol de esperança, com grande valor ético e social.

Recordo-me de inúmeros pais e mães acompanhando seus filhos, cada um me fazendo lembrar do meu falecido pai, que um dia também me levou pela primeira vez para conhecer a USP. Esses são momentos únicos em que compartilhamos lágrimas e também a certeza de que escolher um curso é menos sobre status e mais sobre amor pelo conhecimento. Relembro uma fala minha para uma família: “Ninguém quer pessoas infelizes por perto. A dica é escolher a área que você ama. É o melhor caminho para o sucesso.” E, depois disso, muita emoção e gratidão envolvida entre os interlocutores.

Esses exemplos mostram que inclusão não pode ser apenas discurso: precisa de prática. É necessário abrir as portas a quem não fez inscrição on-line, pois nem todo aluno tem conectividade ideal; distribuir materiais impressos; oferecer tempo e escuta profunda; e entregar materiais aos professores visitantes, que sabem quais alunos não puderam estar presentes e os motivos da ausência. Por meio de ações concretas, mostramos que o espaço acadêmico é vivo, vibrante, comprometido e humano. Portanto, essa modalidade de evento não deve ser tratada como um evento secundário: é uma oportunidade para transformar ciência e conhecimento em cuidado, inclusão e impacto social. Nesses eventos, estamos escrevendo capítulos na memória de cada jovem, de cada família e de cada professor, reafirmando que o vínculo é o coração de toda educação que prioriza inclusão e pertencimento.

Esta reflexão transcende uma simples memória individual: é um chamado ao aperfeiçoamento e ampliação da ética acadêmica. Se as universidades desejam ser, de fato, espaços de transformação social, precisam reconhecer que o vínculo humano é tão estratégico como qualquer tecnologia de ponta ou prêmio acadêmico. Uma feira de profissões, quando pensada sob essa perspectiva, se torna um gesto inicial de reparação histórica, inclusão ativa e projeção de futuros possíveis. Para que esse impacto seja permanente, é imprescindível criar mecanismos institucionais de preservação e amplificação desse aprendizado coletivo. A memória viva de cada encontro, história e sorriso precisa ser documentada, transmitida e atualizada, não como mero registro administrativo pautado em números de presença, mas como patrimônio pedagógico, presença acadêmica e esperança social.


(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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