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Escrito nas estrelas: coincidência de um encontro de gerações

Quarenta anos separam o encontro de Joana com o filho de um antigo colega de trabalho. Coincidências que parecem registros escritos nas estrelas

Não sou bom para interpretar sinais sociais. Mesmo assim, estranhei a mudança no comportamento e na postura da Joana, a minha mais nova antiga amiga. Os olhos se moveram para cima como se estivesse resgatando alguma lembrança. Sentada em um sofá ao meu lado, direcionou o corpo para ficar mais de frente de mim. Esteve absorvida por aquele instante em que muitas pessoas olham para alguém e pensam ou dizem: você me lembra alguém.

“Acho que conheci seu pai”, disse.

Apesar do “acho”, pareceu uma convicção. Assim, de uma hora para outra, interrompendo o que eu estava dizendo. Aliás, a pressa em responder é um hábito comum a nós, criaturas de mentes nas nuvens, desatentas. A ansiedade em explicitar o reconhecimento foi justificável.

“Impossível”, afirmei, devolvendo com a mais absoluta certeza.

Afastei a possibilidade sem aceitar dúvidas por bons motivos, pelo menos em tese, diante do histórico de relacionamento com o meu pai. Primeiro, inconscientemente considerei que, do ponto de vista estatístico, integramos a categoria demográfica dos idosos. Eu então com 69 anos, jornalista aposentado. Ela com 62, psicóloga, ex-funcionária publica. Com histórias de família e de vida diametralmente diferentes.

Além disso, meu pai, Carlos, como eu, já havia falecido há quase 40 anos. Mais exatamente, em 1988, vítima de um câncer. Na minha memória, as recordações sobre o relacionamento eram marcadas pelo espírito reservado. Um solitário. Tinha pouquíssimos amigos, era deprimido e muito fechado em rotinas de apoio às atividades de minha mãe. Não seria propriamente o perfil de alguém que sairia pelo mundo conhecendo pessoas e fazendo amizades.

Joana insistiu, olhando diretamente para mim, como se explorasse os sinais do meu rosto:

– “Seu pai tinha olhos azuis?”

– “Sim”, respondi.

– “Ele era um pouco vesgo”?

“Sim”, assegurei imediatamente, mas ainda demonstrando descrença.

Tive uma lembrança rapida de momentos em que entramos em atrito. O movimento estranho dos olhos ficava mais evidente nas intervenções em brigas entre irmãos. Como no dia em que tivemos alguma discussão e ele me mandou abaixar o tom. Eu agachei, ironizando. Tenho o registro dele quase espumando, os olhos mais azuis e fora do lugar. Também não admitia que levantassemos a voz para minha mãe. Um dia eu estava brigando com ela, como fazem todos os adolescentes, e ele apareceu no meio da discussão, com os olhos fuziladores e instáveis.

“Não pode ser ele”, reforcei mesmo assim.

“Ele tinha bigode”?

-“Sim”, eu devo ter afirmado com algum tom mais impaciente. Afinal, é impossível imaginar quantos homens vivem e passaram pelo mundo com características semelhantes.

Quase resignada diante da minha convicção, Joana pareceu desistir da hipótese de ter conhecido alguém que lembrava meu pai. Continuou olhando para mim fixamente. Fiquei desconcertado. Inclusive porque, de algum modo, a referência a ele me incomodava. Os meus anos de terapia me firmaram a convicção de que tínhamos muito mais coisas em comum do que o nome compartilhado. Havia um abismo profundo e escuro entre nós, os Carlos das duas gerações. Talvez, naquele momento eu tenha mesmo rejeitado a mera possibilidade de entrar na caverna desconhecida onde ele viveu a trajetória.

“Então está bem”, disse Joana, ainda com aquele olhar de quem reconhecia alguém em mim.

“É que quando eu trabalhei na Telemig…”

Nesse momento, nem dei tempo dela completar o que estava falando:

– “Era meu pai. Sim, era ele”, eu disse, meio assustado e muito impressionado.

Não tinha mais como negar. Nem deixar de ficar curioso em entender como, olhando para mim, Joana identificou os traços de uma pessoa com quem trabalhou quase quarenta anos antes. Aos 18 anos na época, estudante, com desejo de ser independente da família humilde e de muitos filhos, tinha o primeiro emprego na empresa de telefonia, como recepcionista da área comercial. Para Carlos, engenheiro do departamento de compras, foi o último emprego. Foi aposentado prematuramente, por falta de oportunidades do sistema que descarta profissionais experientes.

Na entrada do andar, no Centro de Belo Horizonte, a recepcionista jovem, com aparência de adolescente, de estatura mediana para baixa, morena clara e corpo frágil, via um senhor chegando sempre pontualmente para o trabalho. Sempre de maneira discreta. Muito formal. Cumprimentava os colegas de trabalho com educação. Joana via nele “um homem, calado, muito tímido e reservado. Às vezes a atmosfera em torno dele para ser de tristeza,, mesmo estampando um sorriso permanente”.

Os momentos mais marcantes para as lembranças de Joana ocorreram quando Carlos saia da sala para fumar. Ao passar pela recepção onde ficava a equipe de vendedores, formada por muitos homens e duas mulheres, ele ficava incomodado com as muitas piadas e bobagens. Era o ambiente das masculinidade sem limites. Ao contrário de mim, ele não falava palavrões. Minha irmã lembra do dia em que, durante um almoço em familia, eu perguntei sobre o significado de bosta. A reação dele foi de irritação enorme.

– “O seu pai se aproximava de mim e, com as mãos, simulava tampar meus ouvidos dizendo para eu não ficar escutando aquelas coisas.”

Para Joana, o sentimento de estar sendo protegida, como uma adolescente, deve ter contribuído para as lembranças da imagem do Carlos que ela conheceu em 1980 e com quem conviveu superficialmente durante uns poucos meses. Contei que, naquela época, uma das minhas irmãs, a Lúcia, tinha exatamente a idade da “menina, com jeito de adolescente, que ia trabalhar de laço no cabelo e de uniforme”.

Mas há mais segredos para desvendar nos nossos cadernos de histórias pessoais. A coincidência do encontro de Joana com Carlos de diferentes gerações, com características em comum e que mal se encontraram em suas vidas, é apenas um dos registros a explorar. Não é todo dia que alguém identifica em você os traços de um homem com quem conviveu décadas atrás. Joana viu em mim traços do meu pai. Eu encontrei um outro Carlos, meu pai.

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