Projeção aponta que, em 2030, o número de idosos deve superar o de crianças e adolescentes de zero a quatorze anos e que, nas próximas décadas, a expectativa de vida deve chegar a 77,8 anos em 2030
Eliane Comoli
Jornal da USP

Envelhecer é uma arte é uma canção marcante lançada em 1976, quando Adoniran Barbosa tinha mais de 60 anos. Com sábias palavras, o compositor e sambista canta sobre o envelhecimento com muito bom humor e orgulho, encarando o tema sem lamento e com muita leveza — “Eu não perco a estribeira… levo na brincadeira”. Ele afirma que a verdadeira velhice está na atitude de quem julga e não daquele que é julgado — “Sou velho e sou feliz… mas velho é quem me diz”. Nessa canção, Adoniran valoriza a sabedoria do rir de si próprio e ensina que envelhecer pode ser motivo de alegria e comemoração da vida — “Saber envelhecer é uma arte… Isso eu sei, modéstia à parte”.
Por falar em celebrar, o Dia Nacional do Idoso é comemorado desde 2006 em 1º de outubro, data em que também é celebrado o Dia Internacional da Terceira Idade, que foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1990. Por essa razão, o mês de outubro é considerado o mês do idoso. É um mês importante para homenagens, mas, sobretudo, para sensibilizar a sociedade sobre as necessidades das pessoas com 60 anos ou mais, chamar a atenção para os direitos, para o respeito e para o valor que essa fase da vida tem, além de servir como um alerta para o combate ao preconceito e ao isolamento.
A ocasião também incentiva a valorização das relações intergeracionais, promovendo o respeito e a compreensão mútua entre as diferentes gerações. O Dia do Idoso é uma data que também visa criar uma consciência coletiva sobre a importância de uma sociedade inclusiva, que ofereça mais oportunidades para os idosos continuarem contribuindo de forma ativa e significativa, além de ações que possam melhorar o bem-estar dos idosos em nossa sociedade.
Cerca de 15,6% da população brasileira tem 60 anos ou mais, segundo dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Projeção aponta que, em 2030, o número de idosos deve superar o de crianças e adolescentes de zero a quatorze anos e que, nas próximas décadas, a expectativa de vida deve chegar a 77,8 anos em 2030; a 81,3 anos em 2050; e a 83,9 anos em 2070. Além disso, em 2070, espera-se que 37,8% dos habitantes do País sejam idosos — mais do que o dobro de hoje. Esse aumento da expectativa de vida no Brasil provocou um envelhecimento populacional acelerado, dobrando a população idosa em pouco mais de duas décadas.
Embora os indivíduos estejam vivendo mais, isso não reflete que estejam mais saudáveis. O aumento da longevidade ou da expectativa de vida se dá por uma combinação de fatores que incluem desde a melhoria das condições sanitárias, avanços na medicina (especialmente relacionados às vacinas), controle de doenças cardiovasculares, controle e tratamento dos cânceres e maior conscientização sobre estilo de vida saudável incluindo cuidados na melhoria da alimentação, na prática de exercícios físicos regulares, na nutrição do sono, na saúde mental e no controle do estresse. Não se trata de apenas evitar doenças, mas de preservar a funcionalidade, a autonomia, a qualidade de vida, os vínculos sociais, as relações de afeto e o prazer. Qualidade de vida envolve não apenas saúde física, mas também equilíbrio emocional, suporte social e sentido de propósito.
Envelhecimento
Desde que nascemos, passamos por diferentes etapas de desenvolvimento e amadurecimento, de modo que tudo o que vivemos e os desafios que enfrentamos influenciam quem somos hoje e quem seremos na velhice. O envelhecimento é um processo natural da vida. Infelizmente, com ele, vem uma série de desafios. Ele traz consigo alterações físicas – algumas são visíveis como as mudanças na aparência, na tonalidade da pele, já outras, nem tanto – e fisiológicas que diminuem gradativamente a capacidade física e química do organismo em manter as funções fisiológicas ativas (envelhecimento biológico), além de alterações cognitivas, funcionais, emocionais e comportamentais consideradas normais para essa fase da vida e que ocorrem de forma particular para cada indivíduo. Apesar de ser marcado por mudanças difíceis, claro que há aquelas que são positivas. É de se esperar que o envelhecimento também traga sabedoria, mais estabilidade emocional e acúmulo de experiências que podem ser compartilhadas com os mais jovens.
Ter a oportunidade de envelhecer é algo bom! Portanto, adotar um estilo de vida que inclua uma combinação de hábitos saudáveis que priorizem tanto o bem-estar físico quanto mental, como praticar atividades físicas, manter uma atitude e mentalidade positivas frente à vida, estabelecer vínculos de amizades e contar com apoio social, aumentam as chances de envelhecer com saúde, com qualidade de vida e com disposição. Entretanto, é necessário fazer o manejo do estresse e fortalecer a autoestima. Essas atitudes não apenas ajudam a diminuir os impactos negativos do envelhecimento como abrem as portas para uma velhice mais plena e enriquecedora marcada por um cérebro mais ativo e engajado.
Neurociência e envelhecimento
A neurociência do envelhecimento se concentra no impacto do envelhecimento no sistema nervoso. Isso inclui o estudo de como o cérebro muda ao longo do tempo e como a ciência pode ajudar as pessoas a encontrar melhores maneiras de lidar com as mudanças ao longo desse processo. Muitos esforços têm sido gerados em pesquisas sobre os temas relativos à aprendizagem, à melhora do desempenho motor e cognitivo, à neuroplasticidade, ao sono e aos declínios cognitivos relacionados à idade.
A neuroplasticidade é um mecanismo através do qual os neurônios formam conexões e criam caminhos de processamento de informações no nosso cérebro (circuitos neurais). As vivências do dia a dia, ou seja, tudo que fazemos, as experiências que vivemos e aprendemos modificam os circuitos neurais do nosso cérebro tornando-o adaptável a diferentes demandas e, com isso, somos capazes de nos adaptarmos ao mundo. Esta capacidade permite que o cérebro interaja de maneira permanente com o ambiente, guardando os resultados de tudo que aprendemos na forma de memórias. Assim sendo, a neuroplasticidade é a base do aprendizado e formação de memórias e acontece ao longo de nossa vida toda até o nosso último suspiro.
Sabemos que o envelhecimento está associado à perda funcional progressiva em múltiplos sistemas que vão desde os sistemas sensoriais (visão, audição, olfato etc.) até sistemas associativos que desempenham funções altamente sofisticadas como o aprendizado, a memória, a atenção, a linguagem, o controle da motricidade e o processamento das emoções – funções cognitivas. No entanto, apesar do declínio das funções cognitivas associadas à idade, o cérebro envelhecido preserva o mecanismo de neuroplasticidade.
As estimulações sensorial e cognitiva são combustíveis para a neuroplastididade e servem como alimento para o funcionamento cerebral. Inclusive, estudos defendem que a estimulação sensorial ou multissensorial promove a melhora do humor, a socialização, a qualidade de vida e a expressão emocional e diminui os problemas comportamentais.
Ainda, manter o cérebro ativo e estimulado através de desafios cognitivos como a leitura, a resolução de quebra-cabeças, as palavras cruzadas, os jogos que exercitam a memória, o aprendizado de novas habilidades ou participação em atividades intelectualmente estimulantes são fundamentais para a manutenção da agilidade mental e podem desacelerar a taxa de declínio cognitivo. O estímulo da memória pode aumentar e fortalecer as conexões neurais existentes e incentivar a formação de novas conexões e pode ser aplicado de forma constante na rotina.
Por isso, estar inserido e envelhecer num ambiente enriquecido com estímulos sensoriais e cognitivos é de extrema relevância para a preservação e o aperfeiçoamento dos circuitos neurais e pode traduzir desempenhos melhores. A prática contínua de desafiar o cérebro não apenas ajuda a conservar a capacidade cognitiva, mas também a aprimora, demonstrando que o cérebro, independentemente da idade, é capaz de aprender coisas novas e se adaptar.
A estimulação física também é muito importante após os 60 anos, não apenas para ajudar a recuperar a força e a massa muscular que se perde naturalmente com a idade, na melhora do equilíbrio e na independência nas tarefas do cotidiano, mas, também, para a saúde do cérebro. Uma revisão publicada na revista científica Trends in Neuroscience discute as evidências sobre o impacto da atividade física na saúde cognitiva e cerebral no envelhecimento, assim como revisa as adaptações neuroplásticas e seus potenciais mecanismos neurobiológicos.
Fazer atividade física diminui o risco de depressão e declínio cognitivo, e se realizada em grupo reforça vínculos sociais. A ciência mostrou que durante a atividade física os músculos liberam um hormônio chamado irisina. A irisina é transportada pelo sangue e quando chega ao cérebro favorece o aumento da produção de uma proteína, o Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF). O BDNF tem um efeito neuroprotetor fundamental para a saúde do neurônio e do cérebro; exerce um papel regulatório para a ativação da proliferação, crescimento e funcionamento dos neurônios, além da formação de conexões e circuitos neurais que promovem melhora da função cognitiva como a memória e reduz os riscos de demência.
Com o envelhecimento, os níveis de BDNF decaem, mas a atividade física consegue restabelecer os seus níveis mesmo em pessoas com demência, principalmente no córtex e no hipocampo – áreas do cérebro diretamente relacionadas com a formação e a manutenção da memória.
A diminuição da cognição mais leve não impacta tanto na funcionalidade na vida da pessoa, no envelhecimento normal, entretanto, a solidão, o isolamento social, a depressão, a ansiedade e a demência são problemas comuns que afetam a saúde mental. O BDNF também é bem conhecido por reduzir a depressão.
Outra coisa muito importante que talvez você não saiba: o cérebro gosta de aprender coisas novas sempre e necessita disso. Aprender algo novo estimula o cérebro a criar novas conexões e favorece a proteção contra os fatores de risco para o desenvolvimento de demências. Assim sendo, o fenômeno da neuroplasticidade demonstra que a velhice não é barreira para a aquisição de novas habilidades e conhecimentos. Além do mais, não existe idade certa para a aprender algo diferente.
Por essas razões, a promoção do envelhecimento ativo é uma abordagem importante em saúde pública. O engajamento em atividades físicas, sociais e intelectuais é fundamental para a manutenção da saúde e da qualidade de vida. Quando o assunto é envelhecimento, um cérebro mais ativo ultrapassa fronteiras!
Apesar dos anseios e das preocupações com o avanço da idade, o envelhecer é uma arte, assim como a metamorfose de uma mariposa. Fisicamente passamos por diversos processos de crescimento, mudanças fisiológicas e cognitivas. Mas essa é a beleza imutável da vida e espera-se concluir essa metamorfose da melhor forma possível. A velhice é a primavera da sabedoria e o verdadeiro tesouro da vida está na sabedoria que o tempo oferece.
Eliane Comoli é, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP
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