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Bastidores da transição energética: “lobby verde” e política climática no Brasil

O Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP ganhou uma sala de projeção especial, que vai exibir diversos conteúdos em uma superfície semiesférica proporcionando à plateia a sensação de imersão

Lira Luz Benites Lazaro, pós-doutora, e Leandro Giatti, professor
Faculdade de Saúde Pública da USP

No Brasil, falar em lobby soa como sinônimo de corrupção ou favorecimento de elites. Mas, como mostra um estudo recém-publicado na revista Energy Research & Social Science, essa prática faz parte dos bastidores da política climática e energética em todo o mundo. O artigo, intitulado Corporate lobbying, agribusiness, and climate change politics in Brazil’s bioenergy transition, revela que, enquanto Estados Unidos e União Europeia acumulam décadas de pesquisas sobre o tema, na América Latina – e especialmente no Brasil – o debate segue limitado e marcado por estigmas.

Lira Luz Benites Lazaro – Foto: Arquivo pessoal

Reconhecer o lobby como parte do processo político é essencial para entender como interesses corporativos influenciam a transição energética. O desafio, porém, está em separar a influência legítima, que pode ampliar o diálogo democrático, da captura regulatória, que distorce políticas e compromete o interesse público.

Para compreender esse cenário, os autores deste artigo, em colaboração com André Simões, Angélica Giarolla, Pedro Jacobi e José Puppim de Oliveira, analisaram mais de uma década de documentos provenientes da mídia, do governo, de organizações não governamentais e dos relatórios de sustentabilidade de empresas brasileiras de bioenergia. O estudo resultou na construção de um framework analítico de “atividade política corporativa”, elaborado a partir de uma extensa revisão da literatura científica internacional sobre lobby e atividade política corporativa, cobrindo o período de 1970 a 2025.

Leandro Giatti – Foto: Arquivo pessoal

O conceito de atividade política corporativa mostra como as empresas deixaram de ser apenas agentes econômicos para se tornarem também atores políticos, com capacidade de moldar normas, leis e narrativas sobre a transição energética e a política climática. Estudar esse papel é essencial para avaliar até que ponto o lobby pode impulsionar políticas sustentáveis ou, pelo contrário, reforçar desigualdades e bloquear mudanças estruturais.

Os resultados mostram que o lobby corporativo é um elemento estruturante da política energética brasileira, especialmente no setor de bioenergia, historicamente vinculado ao agronegócio. Desde a década de 1970, com a criação do Proálcool, a forte atuação de entidades como a Copersucar já demonstrava a capacidade do setor em influenciar decisões estatais e moldar políticas de incentivo à produção de etanol.

Hoje, essa dinâmica se mantém e se sofisticou. Empresas e associações como a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) continuam exercendo papel central na formulação de políticas públicas, atuando de forma articulada para definir regulações, assegurar subsídios e promover programas estratégicos, como o RenovaBio, que consolidou a bioenergia como eixo da transição energética nacional.

Essa influência é demonstrada pela identificação de um discurso de sustentabilidade e inovação, que apresenta o setor como solução para o enfrentamento das mudanças climáticas, a segurança energética e o desenvolvimento rural. Contudo, a pesquisa também evidencia que essas narrativas de “lobby verde” permanecem amplamente contestadas por organizações sociais e ambientais, que alertam para os impactos sobre o uso da terra, a expansão do agronegócio e as condições de trabalho no meio rural. Com efeito, essas situações são marcantemente importantes para se construir críticas a partir da produção acadêmica, para então prestar esclarecimentos à sociedade, demonstrando que até mesmo as políticas aparentemente mais avançadas e sustentáveis também podem ser permeadas por contradições e antagonismos.

Os relatórios corporativos analisados enfatizam códigos de ética, programas de compliance e compromissos ESG. Mas os dados revelam um descompasso entre o discurso e as práticas políticas: enquanto as empresas se apresentam como defensoras da transparência, muitas atuam por meio de associações e canais informais de influência, evitando a exposição direta.

Casos emblemáticos, como as doações eleitorais de grupos sucroenergéticos reveladas pela Operação Lava Jato, exemplificam a sobreposição entre lobby, financiamento político e captura de decisões públicas. A ausência de uma lei de lobby efetiva, e o próprio tabu como a sociedade encara essa questão no Brasil, reforçam o caráter opaco dessas relações.

O estudo também evidencia o papel central da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), conhecida como bancada ruralista, que opera como um verdadeiro núcleo de formulação política do agronegócio no Congresso Nacional. Essa estrutura reflete padrões históricos de patrimonialismo e corporativismo profundamente enraizados na política brasileira — heranças de um sistema em que elites econômicas mantêm relações simbióticas com o Estado para garantir privilégios e preservar posições de poder.

Para interpretar essas continuidades, o artigo recorre a referências clássicas da sociologia política brasileira, como Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, e Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder. Ambos ajudam a compreender como a sobreposição entre as esferas pública e privada, bem como a captura das instituições por interesses particulares, permanecem como traços estruturais do funcionamento político nacional — e, por extensão, do próprio lobby empresarial.

Como resultado, decisões estratégicas para o futuro climático e energético do país continuam sendo tomadas sob forte influência corporativa, em processos marcados por baixa transparência e limitada participação social, o que compromete a democratização da transição energética e a inclusão de perspectivas mais plurais no debate público.

A pesquisa ainda mostra que as empresas de bioenergia têm adotado, de forma crescente, estratégias de “lobby verde”, sustentadas por narrativas de sustentabilidade, inovação tecnológica e compromisso climático. Esses discursos compõem um imaginário sociotécnico que posiciona o setor como “herói verde” da transição energética brasileira — símbolo de uma economia de baixo carbono que busca conciliar competitividade e responsabilidade ambiental.

Esse imaginário tem sido reforçado por avanços tecnológicos expressivos, que consolidaram a bioenergia como referência nacional em inovação e descarbonização, algo ainda sem paralelo em outros segmentos das energias renováveis, como a solar e a eólica. Nesse contexto, as práticas de representação política e os esforços de comunicação do setor contribuíram para legitimar a bioenergia como caso emblemático da transição energética brasileira, combinando narrativas de eficiência, soberania energética e desenvolvimento sustentável.

O estudo conclui que a governança energética e climática brasileira precisa incorporar regras claras de transparência e participação, reconhecendo o lobby como um fato político — mas exigindo responsabilidade e ética corporativa. O lobby não é, em si, bom ou mau. Mas quando ocorre sem transparência, ele compromete a democracia e a sustentabilidade da transição energética.

Por fim, o estudo elucida compreensões que podem ser consideradas fundamentais para estimular o necessário debate crítico sobre as atuais intensificações de investimentos nas agendas de energias renováveis.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

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