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Alimentação humana: as mudanças em decorrência da vida moderna

Se, no passado recente, a influência das telas na alimentação humana se restringia à assistir TV durante o almoço ou jantar, hoje as telas estão em todo o lugar, é a chamada comensalidade digital

Imagem de uma jovem preta sorrindo e olhando para o celular enquanto diante dela está um copo de suco de cor vermelha e um prato de comida. Ela está com o braço esquerdo pousado no lado esquerdo do pescoço e veste uma camiseta listrada em branco e vermelho
Com as redes sociais, os hábitos alimentares foram mudando, porque começou uma explosão de informação a respeito de dietas – Foto: @wayhomestudio – Freepik

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Comer é importantíssimo para a vida humana. Além de ser o momento onde são adquiridos os nutrientes necessários para a subsistência, o momento das refeições é de extrema importância para a identidade pessoal e socialização com o próximo. Ao longo da história humana, ocorreram diversas transformações nos hábitos alimentares de diferentes sociedades ao redor do globo. Na história recente é importante destacar as mudanças em decorrência das telas.

Se, no passado recente, a influência das telas na alimentação se restringia à assistir TV durante o almoço ou jantar, hoje as telas estão em todo lugar. A presença quase onipresente dos smartphones em nossas vidas traz dois resultados diferentes: O primeiro resultado é o contato constante com as telas durante os momentos das refeições. Não é incomum pessoas que assistam a séries ou façam uso das redes sociais enquanto comem. O segundo resultado vem da influência que os diversos conteúdos disponíveis em diferentes plataformas exercem sobre as nossas escolhas alimentares.

O que é comensalidade?

“Comensalidade é a relação do homem com o alimento. Essa é a resposta mais enxuta que eu posso te dar”, diz a Isabella Magalhães Callia, italianista e pesquisadora em História e Cultura da alimentação. “Se a gente extrapolar isso para o hoje, para a atualidade, a comensalidade é entendida como o momento em que nos reunimos para nos alimentarmos juntos. Uma pessoa que está sozinha em casa, cozinhando e comendo, está vivendo um momento de comensalidade também”, completa a pesquisadora em História e Cultura da Alimentação.

Isabella Magalhães Callia – Foto: academia.edu

A pesquisadora destaca que, em decorrência da vida moderna, vivemos hoje algo que pode ser chamado de “crise da comensalidade”. Isabella completa: “Nós todos, privilegiados, em teoria temos acesso à alimentação. E aqui já começa um primeiro problema. Que alimentação é essa? Ela é uma alimentação que nos nutre e nos faz bem, ou ela é uma alimentação que nos adoece? Esta é a primeira questão”.

Segundo a pesquisadora, o ato de comer junto serve a diversos objetivos. É o momento de transmissão de saberes dos mais velhos para os mais jovens, é o momento de formação de identidade e de intimidade com os amigos: “É quando a gente para para olhar de fato a outra pessoa e pergunta: ‘Está tudo bem com você?’ É muitas vezes o momento em que a pessoa fala, ‘não, não está tudo bem.’ O momento da comensalidade também é um momento terapêutico de contato real, para além do contato em âmbito profissional, estudantil, num transporte público. Quando você come, você vive um momento de intimidade profunda”.

Além do contato, Isabella salienta também que a companhia influencia diretamente na dieta. Ao comer acompanhado, a tendência é que sejam feitas escolhas mais assertivas dos alimentos. “Quando estamos com outras pessoas a gente tem a tendência a prestar mais atenção nisso do que quando comemos sozinhos, que é o grande perigo do comer a partir das telas”, completa.

No capítulo 4 do Guia Alimentar Para a População Brasileira, de 2014, o Ministério da Saúde incluiu a comensalidade como um hábito a se seguir. Entre os benefícios da comensalidade, se destacam uma maior saciedade ao se separar um momento para comer com atenção, um controle maior da quantidade ingerida e o aumento do prazer ao realizar essa atividade em comunhão.

A influência do digital

O digital também influencia nas escolhas dos alimentos. Conteúdos alimentares, sejam os de “mesa posta”, mukbang, ou de alimentação fitness, criam e formam desejos a serem seguidos. Sobre os vídeos onde se comem quantidades absurdas de comida, Isabella comenta: “O nosso estômago, a nossa estrutura física, ela tem um limite. Esses vídeos justamente sugerem a ausência de limite, apesar de serem corpos tendencialmente magros, o que também compõe uma crise de comensalidade. Você está promovendo um consumo exacerbado, anômalo, porém, para um corpo ‘padrão’”.

Imagem de um jovem preta comendo um pedaço de bolo enquanto diante dela esta exposta uma quantidade exagerada de alimentos
A individualização da alimentação e o exagero na esperança de seguir uma dieta podem, inclusive, gerar problemas – Foto: wayhomestudio

A pesquisadora Eliana Bistriche, do Centro de Pesquisa em Alimentos da USP (FoRC), também comenta essa influência dos conteúdos digitais: “Nos últimos dez, 15 anos, é muito comum as pessoas pularem o jantar ou substituir o jantar por outra coisa. E daí, com as redes sociais, esses hábitos foram mudando mais ainda, porque começou uma explosão de informação a respeito de dietas, dieta intermitente, dieta da sopa, a dieta de baixo carboidrato. Tudo isso acaba levando a modificações de hábitos alimentares”. Tecendo comentários sobre conteúdos fitness, ela destaca que poucos se preocupam em dar direcionamentos rumo a uma educação alimentar, e por vezes incentivam dietas extremamente restritivas.

Eliana Bistriche Giuntini  – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A individualização da alimentação e o exagero na esperança de seguir uma dieta podem inclusive gerar problemas como o afastamento emocional dos amigos e família. Eliana ressalta que o correto dentro de uma alimentação é a diversidade de alimentos em pequenas porções. “Eu já ouvi um absurdo de uma pessoa que falou que ela sai para jantar com o noivo, mas ela leva a própria marmita, porque ela está tão aficionada que ela só pode comer batata doce com peito de frango, que ela acompanha o noivo ou o namorado, ele come outras coisas e ela não come o que o restaurante está oferecendo. É óbvio que o restaurante deve ter, no mínimo, um prato de salada com uma carne magra, mas ela acaba individualizando tanto aquilo que ela só come aquela coisa que é extremamente monótona e que, com o passar do tempo, pode até levar a ter deficiências de alguns nutrientes”, completa.

Outros conteúdos, fora do mundo fitness, também exercem influência sobre a alimentação. Eliana comenta que postagens sobre mesas postas e receitas podem influenciar o exagero e incentivar o consumo exagerado de calorias que não necessariamente nutrem as necessidades humanas — quem nunca se sentiu tentado por um morango do amor?

Benefícios do digital

Ambas as pesquisadoras destacam que o advento das redes e das telas na nossa alimentação não são de todo mal. Entre os pontos positivos, destacam-se a autonomia alimentar e ideias de combinação de alimentos que os conteúdos trazem. Nas palavras de Isabella: “Você passa a ser autor e agente da tua alimentação. Isso eu acho um ganho imenso. A desvantagem é que você, ali, não tem nenhum processo de censura e contenção”.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo

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