Os que morreram foram os peões do crime. Foram os perdedores de sempre, pobres e pretos. A violência é um negócio que explora a miséria da sociedade

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Inspirado no pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro, é essencial entender que a crise da segurança pública no Brasil não é uma crise: é um projeto político. Além das análises óbvias e simplificações extremadas focadas na disputa entre o bem e o mal, entre mocinhos e bandidos, o futuro depende da compreensão sobre as disputas políticas e econômicas, nacionais e internacionais, que provocaram o terror no dia 28, no Rio de Janeiro.
Diretamente, mais de 150 mil habitantes dos complexos da Penha e do Alemão testemunharam a violência. Foram horas debaixo de tiros e explosões por conta uma operação que envolveu 2500 policiais e que afetou também todos aqueles que precisaram transitar pelas principais vias da cidade, em diversos bairros da capital fluminense.

A Operação Contenção, promovida pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, deixou mais de 120 mortos, incluindo quatro policiais. Provocou o caos na cidade. Interrompeu o trânsito das principais vias da cidade, fechou escolas, postos de saúde e estabelecimentos comerciais. Foi a maior operação dos últimos 15 anos e também a mais letal de toda a história do estado.
O governador Claudio Castro e o secretario da Polícia Civil, Felipe Curi, comemoraram “o sucesso da operação”, mesmo que o principal alvo, o traficante Doca, não tenha sido preso. Não importa também que o Comando Vermelho não tenha sido desmantelado, ao contrário do que disseram as autoridades fluminenses.
A morte alcança os “peões”
“O crime existe para ocultar o verdadeiro criminoso”, aponta a professora Joana das Flores ao participar de um debate no canal Faixa Livre sobre o massacre. Estudiosa do tema da violência praticada por grupos criminosos, ela argumenta que, ao se observar o discurso do governo do Estado de que a operação foi bem-sucedida e planejada, deve-se sempre retomar a ideia de que o crime de varejo serve para ocultar forças envolvidas.
Os que morreram foram os peões do crime. Foram os perdedores de sempre, pobres e pretos. O verdadeiro criminoso não se encontra na “fileira” ou no “monte de corpos empilhados” de pessoas pobres e facilmente substituíveis, que Joana das Flores define como “os trabalhadores informais ilícitos do varejo”. Os verdadeiros patrocinadores dos crimes estão nas organizações financeiras e nos grandes operadores da comercialização e logística de mercadorias.
Violência é business
As pessoas que operam no varejo – o “chão de fábrica” do tráfico – ganham, em média, de dois a três salários mínimos e são altamente descartáveis. Os verdadeiros ganhadores são as organizações que negociam e lavam bilhões de dólares, incluindo as máfias.
“Essa lógica de medir força armada bélica com estruturas do tráfico sempre resultaram em mortes cada vez maiores, em sofrimento cada vez mais intenso, perda de acesso a serviços públicos, perda de mobilidade urbana, os mais frágeis sempre vão sofrer muito mais. A economia é afetada diretamente e o problema nunca foi sequer arranhado”, diz o professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves.
Segundo o professor, combater o crime organizado exige outras estratégias, inclusive oferecer oportunidades e qualidade de vida a população em situação de vulnerabilidade.
“Criar novas formas de interceptar, de investigar, de seguir dinheiro, de prender pessoas, de colocar limitações nesse funcionamento, de dar alternativa real para essa população. Você tem que disputar palma a palmo nesses territórios, essas populações que são facilmente convencidas pela grana da droga, da arma, pela grana dos ilegalismos, dos golpes. Se não pensarmos isso, a gente está absolutamente comprometido, não vamos conseguir”, defende.
“Isso tudo que vocês estão vendo aí hoje, arrebentando no Rio de Janeiro todo, é apenas uma imensa e gigantesca cortina de fumaça, um rolo gigantesco de fumaça cegando a todos”, diz, Alves.
Lambança político-operacional
Em entrevista ao programa Revista Rio, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jacqueline Muniz, classificou a operação como amadora e uma “lambança político-operacional”.
Segundo ela, foram cometidos erros táticos que vão ao encontro do que está previsto nas próprias instruções normativas de segurança pública.
“Para colocar 2,5 mil policiais, tem que fazer uma previsão de 7,5 mil a 10 mil policiais, porque tem três turnos de trabalho e escala. Isso quer dizer que para fazer esta operação, que eu chamei de uma lambança político-operacional do governador Castro, teve que se retirar o policiamento de 3 milhões a 5 milhões de pessoas na região metropolitana”, diz. “De um lado, esquentou-se a chapa numa área crítica, não reduziu a capacidade operacional do crime, por outro, viabilizou a morte de policiais, o ferimento de policiais, de cidadãos sem que isso significasse um avanço sobre o crime organizado”.
Ela acrescenta:
“Isso é muito sério porque põe em risco a vida dos policiais, põe em risco a vida da população, inviabiliza a circulação de pessoas, de mercadorias. Nós estamos produzindo fechamento da Linha Amarela, da Linha Vermelha, da Avenida Brasil, dando um nó em toda a região metropolitana. Ou seja, esquentando a chapa e multiplicando a insegurança”, diz.
Ela explicou que a operação tinha razão para existir, mas foi mal concebida. “A finalidade dela foi politiqueira, pondo em risco a vida dos agentes da lei, da população, com resultados que não se sustentam diante da doutrina de operações policiais, que fique claro, porque há critérios técnicos sim, polícia não é amadorismo, a polícia é profissão”.
Avanço do crime organizado
O objetivo da operação, de acordo com o governo do estado era cumprir mandados de prisão e conter a expansão territorial do Comando Vermelho. A ação conjunta mobilizou 2,5 mil policiais civis e militares, com a participação do Ministério Público.
Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado, o Comando Vermelho foi a única facção criminosa a expandir seu controle territorial de 2022 para 2023, no Grande Rio. Com o aumento de 8,4%, a organização ultrapassou as milícias e passou a responder por 51,9% das áreas controladas por criminosos na região.
A pesquisa mostrou que o Comando Vermelho retomou a liderança de 242 km² que tinham sido perdidos para as milícias em 2021. Naquele ano, 46,5% das áreas sob controle criminoso pertenciam às milícias e 42,9% ao Comando Vermelho.
População na linha de tiro
Para o Instituto Fogo Cruzado, instituição que produz dados e informações sobre violência armada e que compilou informações sobre a Operação Contenção, ações como esta não combatem de fato o crime organizado.
“Combater o crime organizado exige outra lógica. É preciso atacar fluxos financeiros, investigar lavagem de dinheiro, fortalecer corregedorias independentes e combater a corrupção dentro do Estado. Tudo que o Rio de Janeiro não faz há décadas”, afirmou, em nota.
“As polícias do Rio começaram o dia com a Operação Contenção e o que se viu foi parte expressiva da população na linha de tiro e uma cidade inteira parada. Este é o planejamento do governo do estado? Operações como essa mostram a incapacidade do governo estadual de fazer política pública de segurança pública”, explicou a organização.
O Instituto reforça que esta é a maior chacina policial já registrada na história do estado do Rio de Janeiro, superando as tragédias do Jacarezinho (2021) com 28 mortos, e da Vila Cruzeiro (2022) com 24 mortos, chacinas policiais que também ocorreram no governo de Cláudio Castro.
Com informações da Agência Brasil

