Proposta pela “sabedoria popular”, a censura a discussões sobre política, religião e futebol tenta manter a paz em grupos familiares e de amigos. Mas cria uma armadilha para a sociedade no cenário de conflitos crescentes.

CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista Responsável | Radar do Futuro
Bastava um tom de voz mais alto para a sogra do Henrique ser teletransportada para a mesa do salão de festas para cortar a conversa, com uma faca na mão: – discussão sobre política, religião e futebol não pode. E voltava para a cozinha na velocidade de um calango no asfalto quente, retornando às atividades que a mantinham escravizada.
As intervenções deram resultado. Os cunhados, defensores de Deus, da pátria e da família, pararam de conversar sobre os assuntos quando Henrique não estava por perto. Em outros momentos, não discutiam porque no final das contas todos pensavam da mesma forma.
Henrique aprendeu a ficar calado. Caladão passou a ser o seu apelido. Acompanhava comentários eventuais dos familiares da esposa em silêncio. Foi ficando cada vez mais distante de todos. Evitou sair em grupos, inclusive para viagens. Nas festas de aniversário e de final de ano assumiu o dom do sumiço repentino. Virou mestre de “saída à francesa”. Até que separou-se da esposa. Livrou-se da sogra e de toda a família dela.
Quem diria, a expressão da sabedoria popular destinada a censurar discussões sobre política, religião e futebol com o objetivo de evitar conflitos entre pessoas reunidas com amigos ou familiares podem criar mais problemas do que soluções gerar soluções a favor da paz. A frase é da mesma categoria daquela que diz que “em briga de marido e mulher não se mete a colher” e que favorece apenas a violência contra as mulheres.
– Desconfie dos bem intencionados e da sabedoria popular – ironiza Henrique, enquanto, da varanda de seu novo apartamento, mira o horizonte e reflete se vive em solidão ou solitude.
– Aprendi que as pessoas têm opinião demais e curiosidade de menos.
Pessoas bem intencionadas – como sabemos o inferno está cheio delas – repetem crenças e ajudam a preservar armadilhas para a sociedade. É uma bomba poderosa armada contra todos nós. Para começo de conversa, a palavra discussão tem o significado original de exame minucioso de um assunto, de um problema ou de um acontecimento. Debate, que é outro sinônimo, envolve o levantamento de atores, interesses em jogo e impactos positivos e negativos.
Na realidade de Henrique e nas nossas, o silenciamento não adiantou e as convivências foram abaladas por brigas. A separação entre grupos sob o impacto da crença de que opiniões pessoais estão acima das reflexões e até mesmo da ciência, longe de conversas saudáveis.
A ausência de discussões sobre política, religião e futebol pariu filhos feios, chamados de guerra, ódio, preconceito, machismo, entre outros. Passamos longe da paz pretendida. Por ironia, nem mesmo as famílias se salvaram das separações.
Sem discussões, as pessoas não compreendem como funciona a política do mundo real. Assistimos a emergência de políticos que criaram o balcão de negócios no Congresso Nacional, oferecendo espaços e proteção para o banqueiro Daniel Vorcaro. Sem discussões, o primeiro-ministro de Israel, Nathanyaru comete genocídio em Gaza. O presidente Donald Trump comemora a morte de meninas em uma escola do Irã. Não há debates sobre comno a imprensa comercial manipula informações a favor dos poderosos. Lideranças religiosas não parecem temer algum deus para se associar a personalidades que defendem o ódio. E a associação do futebol com casas de apostas é naturalizada pelas torcidas, que brigam entre elas.
Não haverá paz enquanto não aprendermos a discutir política, religião e futebol. Não haverá paz enquanto continuarmos a confundir “evitar conflitos” com “evitar discussões”. O futuro nos reserva duas vias: ou aprendemos a arte do debate minucioso — o exame real dos problemas — ou assistiremos à desintegração final dos laços humanos.
A “saída à francesa” de Henrique é apenas o começo. Se não aprendermos a discutir política, religião e futebol hoje, o amanhã será um lugar onde não teremos mais nada para conversar. E, pior ainda, ninguém com quem falar. O futuro exige pessoas com opinião de menos e curiosidade de mais. Discutir política, religião e futebol é, no fundo, um exercício de sobrevivência da espécie.

