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Como a proibição de conversas gerou radicalismo

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Carlos Plácido Teixeira

Nas poucas vezes em que Soraia participa de encontros de família, permanece calada. Ela, que não gosta de regras, nem de imposições do sistema, respeita as restrições de conversas sobre temas políticos. Senta-se à mesa com a mãe e os irmãos, mas praticamente não interage. Só fala sobre amenidades, fuma, bebe e ri quando o irmão conta piadas idiotas com o objetivo, segundo ele, de desanuviar o ambiente. Nestes momentos, todos respeitam o pacto dos assuntos proibidos, especialmente sobre as questões que criam confusões. Longe da família, ela é a bolsonarista de poucos e agressivos amigos.

“Não pode conversar sobre política”, repetem todos os irmãos. Preocupada em ver os filhos juntos, sua mãe não se atentou para o fato de que, quando deixamos de conversar sobre temas complexos no dia a dia, por medo do conflito, nós nos isolamos em “bolhas” de pensamento. Sem o exercício de ouvir o contraditório de forma saudável, as pessoas perdem a capacidade de empatia e passam a enxergar quem pensa diferente não como uma outra pessoa, portadora de outra perspectiva, mas como um inimigo a ser destruído. O debate pacífico funciona como uma “academia” para a tolerância.

Encare a sua irmã e responda com sinceridade: ao evitar conversas  sobre temas relacionados com política, religião e futebol em reuniões familiares ou de amigos, os seus vínculos com ela e com os familiares foram fortalecidos? A harmonia venceu? Ou não? Imagino que você passou a “falar mal” pelas costas, além de se afastar de vários parentes e antigos companheiros. Cortar laços é cada vez mais frequente. E vai piorar nos próximos anos com a radicalização promovida pela extrema direita no Brasil e em várias regiões do planeta.

A tentativa de passar o pano nas relações é antiga, ao contrário do que muitos imaginam. Historicamente, a restrição surgiu na Europa do século XIX em manuais de etiqueta para evitar o desconforto e preservar uma harmonia artificial em eventos sociais. No Brasil, o futebol foi adicionado ao tabu e o silêncio foi reforçado por períodos de censura e autoritarismo, onde expressar opiniões era genuinamente perigoso.

Cultivado ao longo do tempo, o silenciamento matou as gêmeas univitelinas curiosidade e conversa. Havia uma armadilha no meio do caminho e a consequência é um tiro pela culatra. Sem interesse verdadeiro em ouvir atentamente os conhecimentos, histórias, argumentos das pessoas na mesa e dialogar, não há possibilidade de interação. Portanto, o erro do ditado popular que recrimina conversas sobre política, não está nos temas, mas na confusão entre discutir e brigar. As relações são afogadas por excesso de opiniões.

Para os especialistas em comportamento, o que não se deve aceitar é a intolerância, a violência e o desrespeito. Política, futebol e religião devem ser debatidos através da escuta ativa, da paciência e da honestidade intelectual, pois são as bases que movem e organizam a nossa vida em comunidade.

Sem conhecer a arte do diálogo, consolidamos a convicção de que, em nome da paz entre as pessoas, nos nossos encontros de amigos e familiares as conversas sobre política, futebol e religião devem ser eliminadas. O bloqueio – ou, por que não dizer assim, a censura – aos assuntos polêmicos nos grupos deixou filhotes deformados. Aliás, sementes. Plantamos silêncio de conversas e colhemos distanciamento, ressentimento e ódio.

A sociedade paga o pato por conta desta antiga regra do senso comum, adotada com intensidade crescente desde os primeiros anos dos anos de 2010. Cuidado, dizem especialistas em comportamento social. Psicólogos, sociólogos, filósofos e historiadores argumentam que a crença não deve ser respeitada porque o silêncio sobre os temas sufoca o debate público, promove a alienação e enfraquece a democracia.

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