No futuro, se houver, o presidente dos EUA, Donald Trump, será o personagem que revela a distância entre as teorias e práticas exercidas pelo sistema dominante
Carlos Plácido Teixeira
Jornalista | Produtor do Radar do Futuro
Os historiadores registrarão, no futuro, o papel extraordinário de Donald Trump na demonstração do verdadeiro caráter do capitalismo desde o início da Revolução Industrial. Nos relatos dos acontecimentos sobre a decadência e queda do império, como ocorreu com Roma e a Inglaterra, a atuação do presidente como “todo poderoso”, operando sem limites éticos, jurídicos ou morais dentro e fora do país que o elegeu, possibilita compreender e revelar, com clareza solar, os métodos utilizados pelos EUA para manipular, roubar e matar.
Trump, em sua segunda gestão, decidiu – ou percebeu – que as sutilezas dos discursos e iniciativas já eram inteiramente desnecessárias. A verdade é um estorvo a ser desprezado. Arrancou qualquer pudor, como um pedófilo sem limites que escondeu a sua trajetória, revelando a mão de ferro do capitalismo em sua forma mais crua. Transformou a geopolítica em um grande negócio imobiliário, capaz de apoiar o genocídio em Gaza para levantar resortes para milionários.
Antes dele, durante décadas, governos republicanos e democratas alegaram a “defesa da democracia” e dos “direitos humanos” para aplicar estratégias de manipulação, intervenção econômica e destruição militar. Manipularam as mentes enquanto promoviam matança. Garantiram a impunidade de ditadores aliados enquanto retiravam governos democraticamente eleitos com o objetivo de roubar.
“O capitalismo ficou nu em praça global” dirão os historiadores no final da próxima década, de 2030. A democracia nunca foi uma prioridade para os governantes norte-americanos — todos. Enquanto tenta neutralizar os avanços da China e a construção de um sistema multipolar, o que a retórica trumpista explicitou, despindo as nuances da diplomacia liberal, foi o cardápio completo das ações que garantiram a hegemonia norte-americana durante séculos com desprezo absoluto pelos direitos dos povos. Sob o pretexto do “America First”, os métodos de imposição de interesses privados deixaram de ser discursos para se tornarem a própria política de Estado.
Os historiadores contarão como Trump demonstrou a farsa dos principais conceitos das ciências econômicas baseadas em teses financistas. Explicitou, mais do que nunca, como a crença na concorrência como princípio superior do capitalismo só existe nos manuais de ensino das escolas vinculadas aos banqueiros dominantes do sistema financeiro. Fora da teoria, no jogo real, as elites empresariais desejam o monopólio. No capitalismo, os governos atuam a favor da preservação e concentração do poder econômico, político e social. Quando for do interesse do sistema dominante, o protecionismo não é pecado. Se o dinheiro não for suficiente, que sejam usadas as armas.
O capitalismo, e os governos ungidos por ele, existe para defender quem domina o dinheiro. E, para isso, não respeita qualquer questão ética ou humanitária. Extensão da direita, descarta os pobres quando eles deixam de ser necessários para apertar botões nas fábricas ou limpar o chão dos shoppings. Representa as corporações de extração de petróleo, de tecnologia e da indústria de armas, enquanto finge rejeitar a intervenção do Estado.
O estrangulamento financeiro e o sequestro de bens de populações inteiras servem aos interesses dos capitalistas. Trump explicitou que o sistema financeiro global não é um bem público, mas uma arma de coerção. Através de sanções unilaterais, congelamento de ativos e exclusão do sistema Swift, os EUA asfixiam nações soberanas, forçando-as à submissão ou ao colapso humanitário, roubando-lhes o futuro para garantir a obediência política.
A história vai descrever a extração predatória de recursos como prioridade de governo. A diplomacia foi reduzida à chantagem do espólio. Seja exigindo o controle de reservas de lítio, a entrega de campos de petróleo ou a imposição de tarifas punitivas para drenar a riqueza industrial de aliados e rivais, o método é o da acumulação pelo roubo. Nações inteiras são tratadas não como soberanas, mas como subsidiárias a serem espoliadas.
A coerção militar seletiva e o terror de Estado servem como instrumento de abastecimento e domínio das corporações sobre o petróleo e outras riquezas. A manutenção de bases militares em mais de 70 países, as intervenções em territórios soberanos e o apoio irrestrito a golpes e ditaduras locais, sempre que o lucro ou a hegemonia regional estejam em jogo, são parte da moralidade explicitada por Trump. A morte de populações inteiras no Oriente Médio ou na América Latina não é um “dano colateral” para a mente trumpista; é o custo aceitável da manutenção do império.
Os historiadores terão a oportunidade de contextualizar a chave mestra condutora da nação opressora e decadente: o conceito de Destino Manifesto. Cunhada em 1845, a expressão não foi apenas o pretexto ideológico para o genocídio dos povos originários e a invasão do México no século XIX. O Destino Manifesto é a estrutura psíquica e moral do capitalismo representado por lideranças norte-americanas. É a crença inabalável na excepcionalidade — a ideia de que os Estados Unidos não estão sujeitos às leis universais que regem as outras nações, pois possuem uma missão divina e histórica de “civilizar” o mundo.
O Destino Manifesto foi a superestrutura ideológica que justificou a expansão contínua do capital. Ele transforma o saque em “missão”, a invasão em “libertação”, e a exploração em “ordem”. O “Outro” (o indígena, o mexicano, o soviético, o terrorista árabe, o imigrante latino) é sempre desumanizado, reduzido a um obstáculo no caminho da grandeza americana.
A crença de fundo religioso do século XIX assombra e guia as ações do governo Trump, com a fusão entre o Destino Manifesto e o niilismo corporativo. O presidente dos EUA perdeu todo verniz missionário como representante maior do capitalismo. Ele não quis mais “salvar” o mundo; ele quis possuí-lo.
A mentalidade que moveu as ações de Washington é a de que o mundo é um vasto território a ser cercado, privatizado e explorado. Com o objetivo de impedir a divisão do mundo com outros protagonistas, em especial com a China, Trump patrocina a destruição. A soberania alheia é vista como uma ofensa ao direito natural americano de expansão. Se no século XIX a fronteira era o Oeste selvagem, hoje a fronteira é o espaço cibernético, as rotas marítimas globais, as mentes das populações via big tech, e os bolsos dos contribuintes europeus e asiáticos.
Debruçados na análise de documentos, os historiadores vão registrar o grande paradoxo, a ironia suprema: ao tentar fazer da América uma fortaleza intransponível, Trump acaba por atuar como o maior delator do sistema. Ele mostra que o capitalismo, em sua essência imperialista, não conhece fronteiras, não conhece piedade e não conhece limites. Se houver o futuro a ser descrito é porque o capitalismo finalmente foi superado.

