{"id":842,"date":"2018-04-03T08:33:13","date_gmt":"2018-04-03T11:33:13","guid":{"rendered":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/?p=842"},"modified":"2018-04-17T08:50:12","modified_gmt":"2018-04-17T11:50:12","slug":"o-cuidar-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/o-cuidar-feminino\/","title":{"rendered":"O cuidar feminino"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_843\" aria-describedby=\"caption-attachment-843\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/medicina-no-passado-evolucao-do-papel-feminino.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-843\" src=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/medicina-no-passado-evolucao-do-papel-feminino.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/medicina-no-passado-evolucao-do-papel-feminino.jpg 900w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/medicina-no-passado-evolucao-do-papel-feminino-300x140.jpg 300w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/medicina-no-passado-evolucao-do-papel-feminino-768x358.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\"><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-843\" class=\"wp-caption-text\">O papel da mulher na evolu&ccedil;&atilde;o da medicina: contra a l&oacute;gica do consumo<\/figcaption><\/figure>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Paulo Matias Moreira<\/p>\n<p>A sa&uacute;de como servi&ccedil;o privado deixou de considerar a resolutividade de patologias como principal crit&eacute;rio de reconhecimento entre especialistas. A aten&ccedil;&atilde;o zelosa com o paciente, valorizada desde o s&eacute;culo XIX, perdeu seu vigor. Na pr&aacute;tica, a medicina brasileira, que convive com a falta de recursos, ainda encontra dificuldades em oferecer um servi&ccedil;o bivalente e sem uma divis&atilde;o de cargos patriarcal. Ou seja, a medicina segue dominada pela l&oacute;gica masculina.<\/p>\n<p>Os estere&oacute;tipos de cuidar e curar, que parecem estar bem associados, tiveram origens e objetivos opostos. Junto &agrave;s utopias criadas pela modernidade reside a cren&ccedil;a de que o progresso cient&iacute;fico da medicina seria capaz de oferecer um servi&ccedil;o m&eacute;dico individualizado e calculado quanto &agrave;s necessidades e fen&ocirc;menos f&iacute;sicos e emocionais do paciente. Ao se tratar de temas existencialistas basais da filosofia, a ang&uacute;stia sobre a doen&ccedil;a e morte, os aparatos tecnol&oacute;gicos que substituem o contato f&iacute;sico com o profissional de sa&uacute;de passam a ser pouco eficientes em promover esperan&ccedil;a e aconchego ao que se encontra na situa&ccedil;&atilde;o de maior vulnerabilidade psicol&oacute;gica.<\/p>\n<p>Duas perspectivas hist&oacute;ricas s&atilde;o essenciais para a compreens&atilde;o da descontinuidade entre o cuidar e o curar e a rela&ccedil;&atilde;o entre profissional e o paciente. A primeira trata do in&iacute;cio da domina&ccedil;&atilde;o da natureza atrav&eacute;s do conhecimento, que a princ&iacute;pio n&atilde;o seguiu exclusivamente a racionalidade pr&aacute;tica denominada por pensadores como Descartes e Bacon. Esta racionalidade tamb&eacute;m instrumentalizou a ci&ecirc;ncia, fazendo com que os meios tivessem prioridade sobre os fins.<\/p>\n<p>Desta forma, a mesma racionalidade que tinha, como objetivo, promover o desenvolvimento intelectual e material da humanidade, oferecendo autonomia para chegar &agrave; &nbsp;felicidade, proporcionou o desenvolvimento de t&eacute;cnicas de destrui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Para este entendimento &eacute; preciso cultivar contesta&ccedil;&otilde;es como a de Franklin M. Littell (escritor americano protestante) que discute a crise da credibilidade da academia moderna em seus estudos sobre o Holocausto: &rdquo;Em que esp&eacute;cie de escola de medicina se formaram Mengele e colegas? Que departamentos de antropologia prepararam a equipe do &lsquo;Instituto de Hereditariedade Ancestral&rsquo; da universidade de Estrasburgo?&rdquo;<\/p>\n<p>A &nbsp;ci&ecirc;ncia que proporcionou bases te&oacute;ricas para a cura de doen&ccedil;as assume-se como matem&aacute;tica. &ldquo;Como a matem&aacute;tica s&oacute; &eacute; capaz de lidar com coisas, as pessoas devem ent&atilde;o ser coisificadas no ato do conhecimento&rdquo;, diz Franklin Leopoldo e Silva (doutor e livre-docente, pela Universidade de S&atilde;o Paulo)<\/p>\n<p>A segunda perspectiva hist&oacute;rica necess&aacute;ria para compreender o hiato entre o cuidar e o curar refere-se &agrave; origem da hegemonia da influ&ecirc;ncia masculina, algo j&aacute; abordado por Foucault em textos sobre o s&eacute;culo XVII. Ele revela que a medicina n&atilde;o se apoiava em uma estrutura de poder sobre uma coletividade e ainda n&atilde;o era suficientemente organizada pela racionalidade da revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. O assistencialismo, dirigido a classes vulner&aacute;veis, &nbsp;embasava-se na teologia e era exercido por institui&ccedil;&otilde;es leigas, motivadas pelo proselitismo moral.<\/p>\n<p>O autor conta, em duas de suas obras, que o &ldquo;hospital era essencialmente uma institui&ccedil;&atilde;o de assist&ecirc;ncia aos pobres&rdquo;. &ldquo;As reparti&ccedil;&otilde;es hospitalares tinham, nas cidades, jurisdi&ccedil;&atilde;o sobre os vagabundos e o direito de denunciar maus elementos&rdquo;. A partir do s&eacute;culo XVIII a sa&uacute;de torna-se uma preocupa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica. Assim passa-se a analisar a ociosidade do doente incapacitado de trabalhar e a tentar encontrar formas de tornar as institui&ccedil;&otilde;es assistencialistas e caridosas como economicamente lucrativas. Essa nova perspectiva de coletividade faz com que o m&eacute;dico (representado pela ideia de curar cient&iacute;fico e masculino) tenha responsabilidade na administra&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, possibilitando que a sa&uacute;de seja classificada geogr&aacute;fica, anat&ocirc;mica e monetariamente.<\/p>\n<p>No entanto, a descontinuidade entre cuidar ou curar &eacute; componente tamb&eacute;m da constru&ccedil;&atilde;o do feminino. No processo de constru&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica, a fun&ccedil;&atilde;o da mulher em sociedade foi ditada por suas caracter&iacute;sticas biol&oacute;gicas. Assim, dar &agrave; luz, amamentar e o ciclo menstrual foram associados ao cuidado zeloso e &agrave; dedica&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica e a ideia de certo desordenamento da natureza.<\/p>\n<p>Como descrito no livro Microf&iacute;sica do Poder, tamb&eacute;m de Foucault, &nbsp;&ldquo;isto encarregava as mulheres de promover assist&ecirc;ncia aos pobres, distribui&ccedil;&atilde;o de vestu&aacute;rio e distribui&ccedil;&atilde;o de alimento&hellip; eventualmente a vigil&acirc;ncia e san&ccedil;&otilde;es de elementos inst&aacute;veis ou perturbadores&rdquo;.<\/p>\n<p>Destarte, o homem aproveitou de sua ociosidade biol&oacute;gica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s atividades dom&eacute;sticas para dominar o ambiente acad&ecirc;mico, a pol&iacute;tica e todas as tarefas que necessitavam de maior instru&ccedil;&atilde;o e conhecimento.<\/p>\n<p>Esta perspectiva sobre o g&ecirc;nero foi utilizada pelo homem para dominar tamb&eacute;m o mercado de trabalho ao impor &agrave; mulher cargos de serventia e at&eacute; mesmo trabalhos bra&ccedil;ais que culturalmente eram destinados aos homens. Em &ldquo;Feminismo em comum&rdquo;, a fil&oacute;sofa Marcia Tiburi, avalia que &ldquo;as mulheres s&atilde;o convencidas, por meio de uma combina&ccedil;&atilde;o perversa entre viol&ecirc;ncia e sedu&ccedil;&atilde;o, que a fam&iacute;lia e o amor valem mais do que tudo, quando, na verdade, o amor, a devo&ccedil;&atilde;o a fam&iacute;lia, servem para amenizar a escraviza&ccedil;&atilde;o, que, desmontada, faria bem a todos, menos a aqueles que realmente preferem uma sociedade injusta, porque se valem covardemente de seus privil&eacute;gios&rdquo;<\/p>\n<p>Outro fator que contribui para o estere&oacute;tipo do papel feminino como a enfermeira subserviente, dominada pelo masculino academicista. &Eacute; a concep&ccedil;&atilde;o idealizada de pureza materna, que tem sua origem na oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; express&atilde;o da sexualidade, na medida em que a mulher (n&atilde;o contempor&acirc;nea) tende a ser mais seletiva quanto &agrave; escolha do parceiro pela s&eacute;rie de preocupa&ccedil;&otilde;es sobre o desenvolvimento do filho por uma perspectiva Darwinista.<\/p>\n<p>Consequentemente para ela, o sexo era mais uma preocupa&ccedil;&atilde;o do que uma forma de divers&atilde;o, enquanto que para os homens ser um amante nietzschiano &eacute; &nbsp;uma forma de marketing pessoal. Uma vez &ldquo;que, para ele, o sexo &eacute; mais barato biologicamente por atribuir, &agrave; mulher, todas as responsabilidades sobre a prole&rdquo; segundo o fil&oacute;sofo Luiz Felipe Pond&eacute;.<\/p>\n<p>Visto que a express&atilde;o da sexualidade pela imagem materna sempre foi repudiada, a introdu&ccedil;&atilde;o de assuntos sobre a intimidade para o filho &eacute; considerada um dever do pai. Os m&eacute;todos contraceptivos apoderam a mulher de sua sexualidade e a composi&ccedil;&atilde;o moderna familiar encarregou &agrave;s responsabilidades femininas, tamb&eacute;m, a imagem paterna.<\/p>\n<p>Tais considera&ccedil;&otilde;es preveem que a tend&ecirc;ncia seja a agonia dos conservadores sobre a moral e a inseguran&ccedil;a da masculinidade que desfruta da depend&ecirc;ncia feminina para sua realiza&ccedil;&atilde;o como &lsquo;macho&rsquo;, resultando em um &ldquo;homem f&oacute;bico&rdquo; (termo utilizado para descrever a dificuldade de homens inseguros em encontrar mulheres idealizadas sobre preceitos conservadores). O estere&oacute;tipo de mulher pura, desprovida de libido que apresenta olhar refinado e tato cuidadoso, ser&aacute; no futuro retratado como uma patologia de repress&atilde;o social.<\/p>\n<p>Todavia, a dificuldade de esclarecer temas como esses j&aacute; tratados pelo movimento sufragista e mais tarde pela Simone de Beauvoir com o movimento feminista, &eacute; aumentado pelo fato de que nem mesmo a mulher contempor&acirc;nea reconhece sua forma&ccedil;&atilde;o cultural.<\/p>\n<p>Entretanto a dificuldade da uni&atilde;o do cient&iacute;fico ao cuidado human&iacute;stico est&aacute; no distanciamento entre o profissional de sa&uacute;de e o meio acad&ecirc;mico, a partir da inser&ccedil;&atilde;o da medicina como servi&ccedil;o em uma economia de mercado. &nbsp;Assim um tratamento m&eacute;dico que segue fielmente a racionalidade da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica pode n&atilde;o ser o mais lucrativo. Talvez apelar para teorias sem estudos confirmados por institui&ccedil;&otilde;es de ensino e pesquisa, possa ser mais eficiente a fim de encarecer o atendimento e garantir o profissional dentro de um mercado competitivo.<\/p>\n<p>Os servi&ccedil;os de sa&uacute;de se tornam objetos de consumo promovidos por um marketing que usufrui da ignor&acirc;ncia dos consumidores. Ent&atilde;o a medicina &eacute; instrumentalizada pela crescente demanda pelo investimento na est&eacute;tica, fazendo com que as &aacute;reas que manipulem menores riscos ao equil&iacute;brio fisiol&oacute;gico, sejam as mais suscet&iacute;veis &agrave; utiliza&ccedil;&atilde;o deste mecanismo.<\/p>\n<p>Assim, as modalidades de tratamentos alternativos, apesar de evitarem an&aacute;lises te&oacute;ricas e serem produto da experi&ecirc;ncia sens&iacute;vel e m&iacute;stica, possuem uma vantagem sobre o ceticismo acad&ecirc;mico e a metodologia cient&iacute;fica, a compreens&atilde;o da iner&ecirc;ncia da f&eacute; ao humano. Elas apresentam ent&atilde;o, uma caracter&iacute;stica un&acirc;nime, o otimismo. J&aacute; que na maioria das vezes a ci&ecirc;ncia apresenta diagn&oacute;sticos sobre patologias que demonstram a fragilidade fisiol&oacute;gica da longevidade e explana&ccedil;&otilde;es existencialistas,pouco animadoras, que relembrem a insignific&acirc;ncia da esp&eacute;cie humana frente &agrave; imensid&atilde;o do tempo e do universo, sendo uma realidade que poucos tem a coragem suficiente de buscar entend&ecirc;-la.<\/p>\n<p>Paulo Matias Moreira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":843,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[36],"tags":[],"class_list":{"0":"post-842","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-pensadores-futuro"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/medicina-no-passado-evolucao-do-papel-feminino.jpg","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=842"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/842\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}