{"id":15958,"date":"2021-03-05T15:41:59","date_gmt":"2021-03-05T18:41:59","guid":{"rendered":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/?p=15958"},"modified":"2021-03-05T15:50:02","modified_gmt":"2021-03-05T18:50:02","slug":"coisa-publica-e-coisa-nossa-por-que-conhecer-o-passado-para-entender-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/coisa-publica-e-coisa-nossa-por-que-conhecer-o-passado-para-entender-o-futuro\/","title":{"rendered":"Coisa p\u00fablica e coisa nossa: por que conhecer o passado para entender o futuro"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"690\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800-690x1024.jpg\" alt=\"Capa do livro A mem&oacute;ria do Guardi&atilde;o - de Juremir Machado da Silva\" class=\"wp-image-15959\" srcset=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800-690x1024.jpg 690w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800-202x300.jpg 202w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800-768x1140.jpg 768w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800-696x1033.jpg 696w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 690px) 100vw, 690px\"><\/figure>\n\n\n\n<p>Resenha: livro do historiador Juremir Machado &eacute; revelador sobre como as rela&ccedil;&otilde;es se estabelecem no Brasil<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Jorge Ferreira<br>Revista Fapesp<\/p>\n\n\n\n<p>A vida pol&iacute;tica brasileira &eacute; conhecida pela m&aacute;xima &ldquo;&eacute; dando que se recebe&rdquo;, sendo o sigilo a regra de ouro. &Eacute; nesse sentido que o livro de Juremir Machado da Silva surpreende o leitor. Nas p&aacute;ginas de A mem&oacute;ria e o guardi&atilde;o (em comunica&ccedil;&atilde;o com o ,presidente da Rep&uacute;blica: rela&ccedil;&atilde;o, influ&ecirc;ncias, reciprocidade e conspira&ccedil;&atilde;o no governo Jo&atilde;o Goulart), publicado pela Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, &eacute; espantoso ler cartas com pedidos ao presidente Goulart (1919-1976), a maioria delas redigidas sem rodeios.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro &eacute; contundente ao demonstrar a falta de valores republicanos no pa&iacute;s. A <em>res publica<\/em> (coisa p&uacute;blica) surge como cosa nostra (coisa nossa). Mas como Juremir teve acesso &agrave; documenta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o valiosa? Wamba Guimar&atilde;es, funcion&aacute;rio p&uacute;blico dedicado e de confian&ccedil;a, era respons&aacute;vel por toda a correspond&ecirc;ncia que chegava ao presidente. Com o golpe de 1964, ele reuniu toda a documenta&ccedil;&atilde;o &ndash; cartas, telegramas, cart&otilde;es de Natal, entre outros &ndash; em duas malas. Goulart pediu para que ele guardasse tudo e n&atilde;o revelasse a ningu&eacute;m.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante as cinco d&eacute;cadas seguintes, Wamba foi guardi&atilde;o das malas que continham 927 documentos. Em 2003 ele faleceu. Segundo Juremir Machado da Silva, um neto de Wamba o procurou e deu informa&ccedil;&otilde;es sobre as malas. Um amigo de Juremir adquiriu os documentos, viabilizando a pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o autor nos relata, com base na documenta&ccedil;&atilde;o, &eacute; de estarrecer. Com raz&atilde;o, ele afirma que Goulart &ldquo;parece cercado por uma matilha voraz de pedintes&rdquo;. Segundo Juremir, &ldquo;todos pedem. Incansavelmente&rdquo;. Jango recebia pedidos de deputados, senadores, governadores, sargentos, generais, prefeitos, trabalhadores, desempregados, membros do clero, estudantes, artistas, entre outros. Todos pedem, &ldquo;de todos os lugares, de todas as regi&otilde;es, de todos os quadrantes, a qualquer hora, todo o tempo&rdquo;. Fica a impress&atilde;o de que a atividade mais importante do presidente era a de atender pedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A come&ccedil;ar por trabalhadores. Jango recebia solicita&ccedil;&otilde;es de empregos, transfer&ecirc;ncias, financiamento para transporte, ajuda para fam&iacute;lias numerosas. Nada muito diferente dos pedidos que Get&uacute;lio Vargas (1882-1954) recebia. Quando vinha de governadores, senadores, deputados federais e estaduais, militares e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a maioria dos pedidos era de indica&ccedil;&atilde;o para cargos no servi&ccedil;o p&uacute;blico para um amigo, parente, afilhado pol&iacute;tico ou para si pr&oacute;prio. As cartas eram assinadas pelo autor, sem nenhum temor &ndash; ou pudor.<\/p>\n\n\n\n<p>Nepotismo era palavra desconhecida. Pol&iacute;ticos e militares indicavam filhos para cargos p&uacute;blicos. Coron&eacute;is e generais tamb&eacute;m pediam libera&ccedil;&atilde;o de empr&eacute;stimos na Caixa Econ&ocirc;mica Federal para comprar im&oacute;veis. &ldquo;Pedir favores n&atilde;o era visto como corrup&ccedil;&atilde;o&rdquo;, avalia Juremir.<\/p>\n\n\n\n<p>O Banco do Brasil era um gigantesco cabide de empregos. Causa espanto saber que governadores, senadores ou deputados solicitavam nomea&ccedil;&otilde;es para cargos no quinto escal&atilde;o. O pedido de nomea&ccedil;&atilde;o de um cont&iacute;nuo ou um porteiro em long&iacute;nqua cidade do interior tinha o aval presidencial.&nbsp; Quando eu escrevi a biografia de Jango, sabia da exist&ecirc;ncia dessas pr&aacute;ticas, mas n&atilde;o poderia imaginar sua grandeza e extens&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>Goulart passava grande parte de seu tempo lendo cartas. Sempre que poss&iacute;vel, atendia os pedidos. Juremir afirma que Jango conhecia a pol&iacute;tica brasileira e negar o pedido era ganhar um inimigo. Ele aceitava as regras do jogo, tentando, evidentemente, ganhar. N&atilde;o ganhou. Muitos governadores, senadores, deputados e generais que fizeram pedidos a Jango &ndash; e foram atendidos &ndash; apoiaram o golpe de Estado em 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>H&aacute; muitos outros temas no livro, revelando rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas baseadas na influ&ecirc;ncia, na reciprocidade e na l&oacute;gica do &ldquo;&eacute; dando que se recebe&rdquo;. Juremir nos deixa, inclusive, uma provoca&ccedil;&atilde;o: tanto o sistema dominante quanto a parte mais desfavorecida da popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o esperavam que Jango mudasse o Brasil, mas que atendesse seus pedidos pessoais.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro vale a leitura. Mas fica uma sugest&atilde;o ao autor. Que a rica documenta&ccedil;&atilde;o seja doada a um arquivo p&uacute;blico, permitindo que outros pesquisadores tenham acesso e novas reflex&otilde;es colaborem para compreender a maneira de fazer pol&iacute;tica no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\">\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Jorge Ferreira &eacute; professor dos programas de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Hist&oacute;ria da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autor de Jo&atilde;o Goulart: Uma biografia (Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, 2011). <\/li><li>Fonte: <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/coisa-publica-e-coisa-nossa\/\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revista Fapesp<\/a><\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><strong><a href=\"https:\/\/amzn.to\/2O4HIRi\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Compr<\/a><\/strong><a href=\"https:\/\/amzn.to\/2O4HIRi\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>e<\/strong><\/a><strong><a href=\"https:\/\/amzn.to\/2O4HIRi\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> na Amazon<\/a><\/strong><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resenha: livro do historiador Juremir Machado &eacute; revelador sobre como as rela&ccedil;&otilde;es se estabelecem no Brasil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":15959,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[36,1634],"tags":[2583,2585,2581,2570,2579,2571,2580,2575,2576,2577,2573,2574,2568,2584],"class_list":{"0":"post-15958","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-pensadores-futuro","8":"category-resenhas-literatura-inovacao","9":"tag-comportamento-social","10":"tag-e-dando-que-se-recebe","11":"tag-futuro-da-historia","12":"tag-governos-no-brasil","13":"tag-historia-da-republica","14":"tag-historia-do-brasil","15":"tag-historia-e-o-futuro","16":"tag-impactos-no-passado-no-futuro","17":"tag-influencias-privadas-no-governo","18":"tag-jogos-de-interesses","19":"tag-passado","20":"tag-presente-e-o-futuro","21":"tag-relacoes-de-poder","22":"tag-relacoes-politicas"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/088_Resenha_A-memoria-e-o-guardiao_301-0-800.jpg","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15958"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15958\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}