{"id":15461,"date":"2021-01-30T12:49:21","date_gmt":"2021-01-30T15:49:21","guid":{"rendered":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/?p=15461"},"modified":"2021-01-30T13:01:59","modified_gmt":"2021-01-30T16:01:59","slug":"a-logica-do-tecnofeudalismo-em-ascensao-continua-sobre-nossas-vidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/a-logica-do-tecnofeudalismo-em-ascensao-continua-sobre-nossas-vidas\/","title":{"rendered":"A l\u00f3gica do tecnofeudalismo em ascens\u00e3o cont\u00ednua sobre nossas vidas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1880\" height=\"1253\" src=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103.jpeg\" alt=\"two person standing under lot of bullet cctv camera\" class=\"wp-image-15463\" srcset=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103.jpeg 1880w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103-300x200.jpeg 300w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103-768x512.jpeg 768w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103-696x464.jpeg 696w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/pexels-photo-374103-1392x928.jpeg 1392w\" sizes=\"auto, (max-width: 1880px) 100vw, 1880px\"><figcaption>O pesquisador C&eacute;dric Durand identifica, na economia digital, uma reconfigura&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais. A mudan&ccedil;a se manifesta por meio do ressurgimento da figura da depend&ecirc;ncia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Instituto Humanistas Unisinos<\/p>\n\n\n\n<p>Todos as esperavam e previam como um Messias restaurador e, ao final, surgiu um monstro. Na realidade, vivemos em um feudalismo pr&oacute;prio aos tempos modernos, muito distante da liberdade e a equidade prometidas pelas novas tecnologias. Sob o manto de uma ret&oacute;rica de progresso e inova&ccedil;&atilde;o, esconde-se o mais puro e antigo a&ccedil;oite da domina&ccedil;&atilde;o. As novas tecnologias s&atilde;o completamente o contr&aacute;rio do que prometem.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa &eacute; a tese de um brilhante ensaio publicado pelo pesquisador C&eacute;dric Durand: &ldquo;Tecnofeudalismo: cr&iacute;tica da economia digital&rdquo; (Technof&eacute;odalisme: Critique de l&rsquo;&eacute;conomie num&eacute;rique). Durand demonstra como, ao contr&aacute;rio do que circula nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, com as novas tecnologias, em vez de se civilizar, o capitalismo se renovou regredindo. Instalou-se no medieval com as ferramentas da modernidade. N&atilde;o deu e nem nos fez dar um salto para o futuro, mas retrocedeu e, com isso, ressuscitou as formas mais cru&eacute;is da domina&ccedil;&atilde;o e a submiss&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>O mito do Vale do Sil&iacute;cio se derrete diante de n&oacute;s: acumula&ccedil;&atilde;o escandalosa de lucros, tecnoditadores, desigualdades sociais incab&iacute;veis, desemprego cr&ocirc;nico, milh&otilde;es de pobres adicionais e um punhado de tecno-oligarcas que acumulam fortunas jamais vistas. A t&atilde;o badalada &ldquo;nova economia&rdquo; deu lugar a uma economia da domina&ccedil;&atilde;o e desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A tese do livro de C&eacute;dric Durand &eacute; uma viagem na contram&atilde;o, uma desconstru&ccedil;&atilde;o dos mitos tecnol&oacute;gicos: a <a href=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/ddof\/digitalizacao\/\" target=\"_self\" title=\"Digitaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; o processo que transforma coisas anal&oacute;gicas, ou seja, algo com exist&ecirc;ncia f&iacute;sica, como um documento, uma foto, um disco de vinil ou seu ambiente de trabalho, em sistemas ou recursos acess&iacute;veis por computador.\" class=\"encyclopedia\">digitaliza&ccedil;&atilde;o<\/a> do mundo n&atilde;o conduziu ao progresso humano, mas a uma gigantesca regress&atilde;o em todos os &acirc;mbitos: restaura&ccedil;&atilde;o dos monop&oacute;lios, depend&ecirc;ncia, manipula&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, privil&eacute;gios e uma tarefa de preda&ccedil;&atilde;o global s&atilde;o a identidade verdadeira da nova economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Economista, professor na Sorbonne, Durand &eacute; um especialista da organiza&ccedil;&atilde;o da econ&ocirc;mica mundial e da din&acirc;mica do capitalismo: empresas multinacionais, deslocaliza&ccedil;&otilde;es, globaliza&ccedil;&atilde;o, cadeias mundiais de produ&ccedil;&atilde;o. Com este ensaio, sua an&aacute;lise irrompe no terreno de um mito tecnol&oacute;gico que nos consome e adestra todos os dias. Conforme demonstra nesta entrevista realizada em Paris, resta ao mito da nova economia poucas asas para continuar voando. Sua verdadeira face est&aacute; aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista &eacute; de Eduardo Febbro, publicada por P&aacute;gina\/12, 24-01-2020. A tradu&ccedil;&atilde;o &eacute; do <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/rede-sjcias\/cepat\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cepat<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Submersa em mitos, manipula&ccedil;&otilde;es, ego&iacute;smos e sonhos de progresso humano, quais s&atilde;o as verdadeiras molas da economia digital?<\/h4>\n\n\n\n<p>Possui v&aacute;rias dimens&otilde;es. Primeiro houve o que se chamou de &ldquo;a nova economia digital&rdquo;, cuja ideia geral consistia em que seriam aplicadas novas regras ao funcionamento da economia, gra&ccedil;as ao est&iacute;mulo das tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o. A partir de 1990, esta ideia acompanhou a renova&ccedil;&atilde;o do neoliberalismo: inova&ccedil;&atilde;o, empreendimento e prote&ccedil;&atilde;o da propriedade intelectual foram as ideias portadoras. Dizia-se que gra&ccedil;as &agrave;s tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o e da comunica&ccedil;&atilde;o, como em toda a esfera digital, haveria muitos custos que seriam anulados e disto surgiria uma nova era de prosperidade. Ocorreu completamente o contr&aacute;rio.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Na realidade, foi um conto que congelou a prosperidade coletiva.<\/h4>\n\n\n\n<p>Reconhe&ccedil;o, &eacute; claro, que com o surgimento dos suportes digitais houve algo novo, mas, sobretudo, o que tento demonstrar &eacute; que, ao contr&aacute;rio do que se anunciou, n&atilde;o vimos um horizonte radiante do capitalismo, mas muito pelo contr&aacute;rio, uma degrada&ccedil;&atilde;o do capitalismo. A economia pol&iacute;tica digital consiste em admitir, ao mesmo tempo, o salto tecnol&oacute;gico e as mudan&ccedil;as institucionais que o acompanharam, que se resume principalmente em um: o endurecimento do neoliberalismo. O resultado de tudo isto &eacute; que n&atilde;o assistimos a uma nova prosperidade do capitalismo candente, mas, muito pelo contr&aacute;rio, a um capitalismo em processo de regress&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Outra das pervers&otilde;es escondidas nessa nova economia &eacute; o aumento das injusti&ccedil;as nas rela&ccedil;&otilde;es sociais e, por conseguinte, uma mudan&ccedil;a de perspectiva nessas rela&ccedil;&otilde;es. Voc&ecirc; definiu as duas tend&ecirc;ncias como a instaura&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;tecnofeudalismo&rdquo;, de uma economia digital feudal.<\/h4>\n\n\n\n<p>Sim, efetivamente. Em meu livro, demonstro que est&aacute; em jogo dentro da economia digital uma reconfigura&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais. Esta reconfigura&ccedil;&atilde;o se manifesta por meio do ressurgimento da figura da depend&ecirc;ncia, que era uma figura central no mundo feudal. A ideia da depend&ecirc;ncia remete ao princ&iacute;pio de que existe uma forma de ades&atilde;o dos seres humanos a um recurso.<\/p>\n\n\n\n<p>No seio do mercado, havia uma monopoliza&ccedil;&atilde;o, por parte do capitalismo, dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, mas estes meios eram plurais. Os trabalhadores precisavam encontrar emprego e, de certo modo, podiam escolher o posto de trabalho. Existia uma forma de circula&ccedil;&atilde;o que dava lugar &agrave; concorr&ecirc;ncia. Nesta economia digital, neste tecnofeudalismo, os indiv&iacute;duos e tamb&eacute;m as empresas aderem &agrave;s plataformas digitais que centralizam uma s&eacute;rie de elementos que lhes s&atilde;o indispens&aacute;veis para existir economicamente na sociedade contempor&acirc;nea. Trata-se do Big Data, das bases de dados, dos algoritmos que permitem os processos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, estamos diante de um processo que se autorrefor&ccedil;a: quanto mais participamos na vida dessas plataformas, quanto mais servi&ccedil;os indispens&aacute;veis oferecem, mais se acentua a depend&ecirc;ncia. Esta situa&ccedil;&atilde;o &eacute; muito importante porque mata a ideia de competi&ccedil;&atilde;o. Esta domina&ccedil;&atilde;o prende os indiv&iacute;duos a este transplante digital. Tal tipo de rela&ccedil;&atilde;o de depend&ecirc;ncia tem uma consequ&ecirc;ncia: a estrat&eacute;gia das plataformas que controlam esses territ&oacute;rios digitais &eacute; uma estrat&eacute;gia de desenvolvimento econ&ocirc;mico por meio da preda&ccedil;&atilde;o, por meio da conquista.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de conquistar mais dados e espa&ccedil;os digitais. E adquirir mais e mais espa&ccedil;os digitais significa ter acesso a novas fontes de dados. Entramos, aqui, em uma esp&eacute;cie de competi&ccedil;&atilde;o onde, ao contr&aacute;rio de antes, n&atilde;o se busca produzir com maior efic&aacute;cia, mas conquistar mais espa&ccedil;os. Este tipo de conquista &eacute; semelhante ao feudalismo, ou seja, a competi&ccedil;&atilde;o entre Senhores, que n&atilde;o se manifestava na melhoria das condi&ccedil;&otilde;es, mas na luta pela conquista. Os dois elementos, ou seja, a depend&ecirc;ncia e a conquista de territ&oacute;rios, nos aproximam da l&oacute;gica do feudalismo.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">&Eacute; uma l&oacute;gica reatualizada por meio de suportes ultramodernos: algoritmos e preda&ccedil;&atilde;o feudal.<\/h4>\n\n\n\n<p>Efetivamente. O ponto decisivo da economia digital est&aacute; em que evolui em ritmo lento. Ao contr&aacute;rio da l&oacute;gica produtiva pr&oacute;pria ao capitalismo, em que os capitalistas eram obrigados a investir para enfrentar a concorr&ecirc;ncia, aqui, na economia digital, paradoxalmente, ao se apoiar na l&oacute;gica da preda&ccedil;&atilde;o, realiza-se uma esp&eacute;cie de inova&ccedil;&atilde;o muito orientada para a conquista de dados e n&atilde;o para a produ&ccedil;&atilde;o efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A estagna&ccedil;&atilde;o que caracteriza o capitalismo contempor&acirc;neo, ou seja, desemprego end&ecirc;mico, retrocesso do crescimento, sal&aacute;rios ruins, em suma, todas estas falhas econ&ocirc;micas est&atilde;o associadas a um comportamento dentro do qual a preda&ccedil;&atilde;o se sobrep&otilde;e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Voc&ecirc; zomba dessa ideia promovida nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de que a economia digital &eacute; a express&atilde;o mais acabada de uma economia civilizada. Muito pelo contr&aacute;rio, &eacute; um retrocesso brutal.<\/h4>\n\n\n\n<p>Assistimos a uma regress&atilde;o, a um retrocesso socioecon&ocirc;mico. Em vez de passar a uma forma mais civilizada, mais elaborada, mais apropriada &agrave; felicidade humana, os&nbsp;suportes&nbsp;digitais&nbsp;nos levam a um retorno a formas arcaicas, que acredit&aacute;vamos terem sido superadas na modernidade.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Em sua obra, voc&ecirc; aponta a substitui&ccedil;&atilde;o que ocorreu para que este arca&iacute;smo domine tudo. Esta economia digital substituiu o consenso de Washington pelo que voc&ecirc; chama de consenso do Vale do Sil&iacute;cio. No entanto, essa substitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o mudou nada, pois funciona de acordo com as mesmas exig&ecirc;ncias: reformas, precariza&ccedil;&atilde;o do trabalho, o mercado, a financeiriza&ccedil;&atilde;o da economia. Assim como antes!<\/h4>\n\n\n\n<p>O consenso do&nbsp;Vale do Sil&iacute;cio&nbsp;acrescenta ao consenso de Washington uma camada adicional. A grande racionalidade do&nbsp;consenso&nbsp;de&nbsp;Washington&nbsp;consistiu em dizer que a planifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o funcionava mais porque a&nbsp;Uni&atilde;o&nbsp;Sovi&eacute;tica&nbsp;fracassou. Por conseguinte, &eacute; necess&aacute;rio liberar os mercados. O consenso do&nbsp;Vale&nbsp;do&nbsp;Sil&iacute;cio&nbsp;come&ccedil;a a ser elaborado nos anos 1990 e se cristaliza nos anos 2000, quando o&nbsp;<a rel=\"noreferrer noopener\" class=\"rank-math-link\" href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2019\/Eventos\/Cinedebate\/perryandersonbalancodoneoliberalismo.pdf\" target=\"_blank\">neoliberalismo&nbsp;<\/a>estava em dificuldade. A d&eacute;cada dos anos 1990 foi uma d&eacute;cada de crise financeira. Foi dito, ent&atilde;o, que afirmar que o mercado funcionava espontaneamente n&atilde;o era suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A camada acrescentada pelo consenso do&nbsp;Vale&nbsp;do Sil&iacute;cio&nbsp;consiste em anunciar que &eacute; preciso estimular os inovadores, que &eacute; necess&aacute;rio apoiar os empreendedores. E para isto &eacute; preciso deixar que os mercados funcionem com maior liberdade e, ao mesmo tempo, proteger os interesses dos inovadores e dos criadores de empresas. Imediatamente, foram adotadas medidas muito duras para proteger os lucros do capital, sempre com essa l&oacute;gica: proteger e estimular para favorecer a inova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Tudo isto foi plasmado com um caldo de ideias oriundas dos anos 1970 e, depois, misturas com muito oportunismo para desembocar no que voc&ecirc; define como um mundo do qual n&atilde;o podemos escapar.<\/h4>\n\n\n\n<p>Houve, para come&ccedil;ar, uma reapropria&ccedil;&atilde;o da ideologia californiana, uma ideologia em prol da t&eacute;cnica e do individual. Essa ideologia da Calif&oacute;rnia facilitou a ret&oacute;rica que depois respaldar&aacute; os delineamentos do consenso do Vale do Sil&iacute;cio. E no que concerne a este mundo que nos encerra, bom, &eacute; o mundo onde impera o Big Data, que acaba nos conhecendo melhor do que n&oacute;s mesmos. A l&oacute;gica da vigil&acirc;ncia transcendendo aos indiv&iacute;duos e nela h&aacute; como um caminho sem sa&iacute;da.<\/p>\n\n\n\n<p>N&atilde;o podemos escapar desse mundo porque, individualmente, somos mais fr&aacute;geis que os algoritmos. Somos dominados e guiados por eles. N&atilde;o h&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o individual para a prote&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos diante dos suportes digitais. Ao contr&aacute;rio, &eacute; preciso refletir sobre o modo como, coletivamente, podemos nos emancipar deles preservando espa&ccedil;os da exist&ecirc;ncia que n&atilde;o estejam totalmente dominados por este sistema. &Eacute; uma discuss&atilde;o pol&iacute;tica e n&atilde;o tecnol&oacute;gica.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Tudo &eacute; exatamente o contr&aacute;rio neste universo digital. O moderno se veste de feudal. At&eacute; a aparente horizontalidade se torna um abismo vertical onde reina a desigualdade e a injusti&ccedil;a social e a t&atilde;o promovida iniciativa pessoal de torna um monop&oacute;lio espantoso.<\/h4>\n\n\n\n<p>O que observamos &eacute; que estamos em um momento de remonopoliza&ccedil;&atilde;o. Enfim, o suporte digital deveria reduzir os custos e, por conseguinte, facilitar a competi&ccedil;&atilde;o, mas ocorreu o contr&aacute;rio. Viu-se um movimento de monopoliza&ccedil;&atilde;o muito poderoso. As plataformas controlam tudo e quando algo est&aacute; fora de seu controle compram as empresas que competem com elas. Monopolizam tudo. Este fen&ocirc;meno de concentra&ccedil;&atilde;o faz com que as estruturas econ&ocirc;micas se endure&ccedil;am, sejam mais r&iacute;gidas em vez de arej&aacute;-las, conforme era a promessa inicial.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto acarreta consequ&ecirc;ncias muito importantes no campo das desigualdades econ&ocirc;micas. As grandes cidadelas digitais s&atilde;o capazes de concentrar volumes de lucros consider&aacute;veis. Esses lucros s&atilde;o redistribu&iacute;dos primeiro entre os acionistas e, depois, para um grupo de empregados. O que vemos nesta economia digital modelada pelo neoliberalismo &eacute; um aumento das desigualdades. Longe de ser um mundo de oportunidades &eacute; um mundo onde, finalmente, as polariza&ccedil;&otilde;es se acentuaram.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O roubo de dados, a espionagem e o posterior processamento pelos algoritmos j&aacute; &eacute; algo mais do que comprovado. Voc&ecirc; acrescenta uma ideia a esta espolia&ccedil;&atilde;o planet&aacute;ria: ao extrair nossos dados, est&atilde;o capturando a nossa pot&ecirc;ncia social.<\/h4>\n\n\n\n<p>A tend&ecirc;ncia &eacute; pensar que as empresas pegam nossos dados pessoais, individualmente. No entanto, nossos dados pessoais, como tais, isolados, n&atilde;o possuem valor e utilidade. Ao contr&aacute;rio, esses dados s&atilde;o &uacute;teis e se tornam uma for&ccedil;a quando comparados aos dados de outros. Nessa compara&ccedil;&atilde;o, nesse cruzamento de dados, aparecem tra&ccedil;os que fazem de n&oacute;s seres humanos em sociedade. Como indiv&iacute;duos, somos governos por regras semelhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, o que o Big Data faz &eacute; revelar essa pot&ecirc;ncia social. Essa pot&ecirc;ncia &eacute; inacess&iacute;vel individualmente para n&oacute;s, mas se torna vis&iacute;vel quando &eacute; poss&iacute;vel observar e comparar o conjunto dos comportamentos dos indiv&iacute;duos. O Big Data revela outras coisas que v&atilde;o al&eacute;m dos que cada um de n&oacute;s &eacute; capaz de ver, e que nos &eacute; restitu&iacute;da sob a forma de perfis por meio dos quais os comportamentos s&atilde;o modificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o Google ou a Netflix podem nos guiar segundo as nossas <a href=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/ddof\/o-que-sao-tendencias\/\" target=\"_self\" title=\"Confira o que s&atilde;o tend&ecirc;ncias, os fatos ou fen&ocirc;menos que podem acontecer em algum momento adiante na hist&oacute;ria da sociedade, como um novo comportamento individual ou de um grupo\" class=\"encyclopedia\">tend&ecirc;ncias<\/a>. Mas, ao fazer isso, o que est&atilde;o fazendo &eacute; reenviar algo que aprenderam do conjunto da comunidade. Precisamente, essa capacidade para remeter, reenviar para n&oacute;s as informa&ccedil;&otilde;es da comunidade dos indiv&iacute;duos &eacute; a que est&aacute; na base do princ&iacute;pio de depend&ecirc;ncia que evoquei h&aacute; pouco.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Estamos no cora&ccedil;&atilde;o do que voc&ecirc; conceituou como &ldquo;a renda do intang&iacute;vel&rdquo;.<\/h4>\n\n\n\n<p>A renda do intang&iacute;vel significa que se somos capazes de controlar esses elementos, tamb&eacute;m podemos obter lucros econ&ocirc;micos, independentemente do esfor&ccedil;o produtivo que se tenha realizado. &Eacute; a pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o da renda, ou seja, obter lucros sem esfor&ccedil;os produtivos. Os intang&iacute;veis s&atilde;o os ativos como as bases de dados, as marcas, os m&eacute;todos de organiza&ccedil;&atilde;o, ou seja, tudo o que se pode repetir ao infinito sem custos. O tang&iacute;vel, por exemplo, s&atilde;o as ferramentas, as m&aacute;quinas, etc. As produ&ccedil;&otilde;es de hoje s&atilde;o uma mistura de tang&iacute;vel e intang&iacute;vel.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, se separamos os propriet&aacute;rios do tang&iacute;vel dos propriet&aacute;rios do intang&iacute;vel, vemos, em seguida, que quanto mais aumenta a produ&ccedil;&atilde;o, mais os lucros do intang&iacute;vel est&aacute; desconectado do tang&iacute;vel. Os propriet&aacute;rios do intang&iacute;vel fazem um esfor&ccedil;o inicial, mas, depois, seus lucros aumentam de forma independente e sem esfor&ccedil;o adicional. Ao contr&aacute;rio, os propriet&aacute;rios do tang&iacute;vel precisam continuar fazendo esfor&ccedil;os. Na economia digital, a acumula&ccedil;&atilde;o dos lucros favorece os intang&iacute;veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mat&eacute;ria publicada originalmente em <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/606396-a-logica-do-tecnofeudalismo-tem-uma-ascensao-continua-sobre-nossas-vidas-entrevista-com-cedric-durand\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IHU<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pesquisador C&eacute;dric Durand identifica, na economia digital, uma reconfigura&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es sociais. 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