{"id":14930,"date":"2020-12-28T10:48:37","date_gmt":"2020-12-28T13:48:37","guid":{"rendered":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/?p=14930"},"modified":"2021-08-24T11:07:55","modified_gmt":"2021-08-24T14:07:55","slug":"cientistas-refletem-sobre-aprendizados-e-perspectivas-para-2021","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/cientistas-refletem-sobre-aprendizados-e-perspectivas-para-2021\/","title":{"rendered":"Cientistas refletem sobre aprendizados e perspectivas para 2021"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/laboratorio-usp_foto-Cecilia-Bastos-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14931\"><figcaption>Import&acirc;ncia da ci&ecirc;ncia ficou mais vis&iacute;vel em 2020 com a pandemia, que tamb&eacute;m tem sido um curso intensivo de duras li&ccedil;&otilde;es. Mas cientistas n&atilde;o esperam uma caminhada f&aacute;cil em 2021<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Por Luiza Caires<br>Jornal da USP<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos ao fim de um ano com tantos acontecimentos e crises que nossa sensa&ccedil;&atilde;o temporal ficou ainda mais confusa. &ldquo;&Eacute; s&eacute;rio que acabou?&rdquo; &ndash; talvez nos perguntemos no primeiro dia de 2021. &Eacute; certo que uma conven&ccedil;&atilde;o como data n&atilde;o promover&aacute;, por si, grandes mudan&ccedil;as. Mas &eacute; uma distin&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica importante numa sociedade como a nossa &ndash; mais ainda no contexto das trag&eacute;dias que vivemos em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Cientistas, como todos, vivenciaram os momentos sofridos da pandemia. Como as mortes que doeram mais pela certeza de que muitas poderiam ter sido evitadas, com uma melhor condu&ccedil;&atilde;o pelos l&iacute;deres brasileiros, que n&atilde;o existiu. Pelo contr&aacute;rio, muitas vezes o ambiente foi tumultuado por quem foi colocado no poder pelo voto. E para quem o caos parece ser vantajoso, ainda que com o pre&ccedil;o de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outros atores, por&eacute;m, ocuparam com louvor o protagonismo na diminui&ccedil;&atilde;o do impacto &ndash; biol&oacute;gico e social &ndash; da doen&ccedil;a. Para nosso orgulho, muitos deles est&atilde;o nas universidades p&uacute;blicas. Na ci&ecirc;ncia e tecnologia de primeira qualidade nelas produzidas, nos campos mais diversos. Mesmo diante de ataques a esta mesma ci&ecirc;ncia, que representam, eles sabiam que o des&acirc;nimo n&atilde;o era uma op&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n\n\n\n<p>Este texto re&uacute;ne os depoimentos de alguns deles, vozes que sempre merecem ser ouvidas, mostrando um pouco do que 2020 nos ensinou (ou que deveria ter ensinado) e as expectativas para a ci&ecirc;ncia, em sentido amplo, para 2021. Junto a eles e a todos os cientistas que n&atilde;o est&atilde;o neste texto, mas sempre buscaram estar ao lado da boa ci&ecirc;ncia &ndash; e no lado correto da hist&oacute;ria que constru&iacute;mos &ndash; nos despedimos dos nossos leitores neste ano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Teste de resili&ecirc;ncia e de reinven&ccedil;&atilde;o<\/h2>\n\n\n\n<p>O reitor da USP, Vahan Agopyan, sabe que 2020 foi muito dif&iacute;cil para a sociedade e o sistema universit&aacute;rio, mas n&atilde;o considera que tenha sido um ano perdido, pois &ldquo;aprendemos muito enfrentando e superando desafios imprevistos&rdquo;. A comunidade de pesquisa respondeu de uma forma efetiva. &ldquo;No caso da USP, mais de 250 grupos iniciaram ou adequaram os seus estudos para o conhecimento e combate do novo coronav&iacute;rus. Desde o sequenciamento do seu genoma at&eacute; o desenvolvimento de ventiladores e m&aacute;scaras, passando pelos estudos de novos testes, medicamentos e vacinas&rdquo;, relembra o reitor.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Agopyan, outro ponto fundamental foi a rapidez dos resultados, &ldquo;fruto de um grande esfor&ccedil;o multidisciplinar e da press&atilde;o de salvar vidas&rdquo;. Ele ressalta ainda que a postura dos docentes e pesquisadores se modificou e a atitude de competi&ccedil;&atilde;o se transformou em colabora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr&oacute;-reitor de Pesquisa, Sylvio Canuto, tamb&eacute;m destaca o trabalho em colabora&ccedil;&atilde;o e o aumento de intera&ccedil;&atilde;o com a sociedade. &ldquo;At&eacute; novembro, a USP era a 16&ordf; institui&ccedil;&atilde;o de pesquisa do mundo que mais havia publicado artigos cient&iacute;ficos nesse tema. &ldquo;Eu j&aacute; disse antes e reitero: a ci&ecirc;ncia brasileira est&aacute; madura e pronta para um grande salto. Mas falta uma pol&iacute;tica cient&iacute;fica nacional e estabilidade de condi&ccedil;&otilde;es, especialmente, recursos financeiros continuados, sem percal&ccedil;os. O que n&oacute;s vimos nesse ano foi um desafio bem definido colocado pelo coronav&iacute;rus e a ci&ecirc;ncia brasileira respondendo com uma grande e criativa performance.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o pr&oacute;-reitor, era de se esperar que o reconhecimento da import&acirc;ncia da ci&ecirc;ncia levasse tamb&eacute;m a um consequente aumento de investimentos. Mas isso n&atilde;o parece ser o caso no Pa&iacute;s e o horizonte n&atilde;o parece muito promissor. &ldquo;Pensar em novas formas de obter recursos para a pesquisa, tanto b&aacute;sica como aplicada, tanto tecnol&oacute;gica como social, &eacute; um dos desafios para o pr&oacute;ximo ano&rdquo;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Como um &ldquo;belo exemplo de intera&ccedil;&atilde;o universidade-sociedade&rdquo;, Canuto cita o projeto USP VIDA para doa&ccedil;&otilde;es de recursos, que alcan&ccedil;ou quase 3.200 pessoas f&iacute;sicas, que se sensibilizaram e doaram para pesquisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele diz ainda que estamos aprendendo que projetos amplos e institucionais s&atilde;o capazes de causar impactos de maior alcance. &ldquo;E desafios multidisciplinares s&atilde;o tamb&eacute;m vistos em tem&aacute;ticas como aquecimento global, desigualdades sociais, viol&ecirc;ncia urbana, sa&uacute;de planet&aacute;ria, sa&uacute;de alimentar, energias limpas, economia azul, entre outras.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Humanidades em pauta<\/h2>\n\n\n\n<p>A professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas (FFLCH) da USP Maria Luiza Tucci Carneiro tamb&eacute;m classifica a pandemia como um fen&ocirc;meno coletivo que exige m&uacute;ltiplos saberes, pois a doen&ccedil;a n&atilde;o tem prefer&ecirc;ncia por classes sociais e nem por ideologias. Mas diz que &eacute; preciso reconhecer que, como outras pestes, &ldquo;atinge as minorias &eacute;tnicas que, h&aacute; s&eacute;culos, est&atilde;o vulner&aacute;veis, fragilizadas&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, &ldquo;aprendemos, mais uma vez, que o SUS [Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de] &eacute; um bem p&uacute;blico e que ajudou a salvar milhares de brasileiros, principalmente neste pa&iacute;s com desigualdades econ&ocirc;micas e sociais t&atilde;o profundas&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tucci lembra tamb&eacute;m que os cientistas podem buscar solu&ccedil;&otilde;es na hist&oacute;ria das epidemias, que se repetem por s&eacute;culos, com v&aacute;rias semelhan&ccedil;as. &ldquo;Que a hist&oacute;ria das pandemias passe a fazer parte do conte&uacute;do obrigat&oacute;rio nos programas escolares, pois as experi&ecirc;ncias cient&iacute;ficas do passado indicam caminhos para a ci&ecirc;ncia do futuro. E que cursos educativos de preven&ccedil;&atilde;o e combate ao racismo estrutural ajudem a salvar vidas, independente das crises pol&iacute;ticas e de sa&uacute;de p&uacute;blica&rdquo;, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o pr&oacute;ximo ano, a historiadora espera que a politiza&ccedil;&atilde;o da vacina contra a covid-19 n&atilde;o obstrua o real objetivo da vacina&ccedil;&atilde;o em massa: salvar vidas. &ldquo;Esperamos tamb&eacute;m que o Estado brasileiro d&ecirc; credibilidade aos cientistas, disponibilizando recursos para pesquisas em todos os campos; al&eacute;m de aprimorar o SUS e os hospitais universit&aacute;rios, que devem estar dispon&iacute;veis a todos.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>A tamb&eacute;m professora da FFLCH, Lorena Barberia, acredita que &eacute; importante refor&ccedil;ar ao p&uacute;blico em geral que se est&aacute; tentando produzir ci&ecirc;ncia na velocidade da pandemia, entender o presente, que &eacute; muito din&acirc;mico e complexo. &ldquo;Temos que lembrar a sociedade sobre a import&acirc;ncia do processo cient&iacute;fico e o que realmente significa fazer ci&ecirc;ncia. Esse processo &eacute; circular, cont&iacute;nuo e n&oacute;s precisamos de muito tempo e rigorosa valida&ccedil;&atilde;o para entender o que est&aacute; acontecendo.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>O que n&atilde;o precisamos, diz ela, &eacute; de &ldquo;discursos baratos que dizem &lsquo;n&oacute;s vamos seguir a ci&ecirc;ncia&rsquo;, como se ela s&oacute; tivesse um caminho. A ci&ecirc;ncia &eacute; um processo de descobertas em que existem hip&oacute;teses e contrafactuais. Atrav&eacute;s desse processo de questionamento &eacute; que n&oacute;s aprendemos. Ent&atilde;o seguir a ci&ecirc;ncia &eacute; importante, mas &eacute; preciso entender que esse caminho &eacute; complexo, inclui novos achados. Podemos questionar os dados e mostr&aacute;-los como n&atilde;o constatados&rdquo;, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>Renato Janine Ribeiro, professor da FFLCH, traz as discuss&otilde;es da filosofia para apontar como ideias relacionadas &agrave; vida e &agrave; morte se atualizaram este ano. Segundo ele, ao longo dos anos, o avan&ccedil;o na longevidade e na pesquisa cient&iacute;fica trouxe a quest&atilde;o do <a href=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/ddof\/transumanismo\/\" target=\"_self\" title=\"Transumanismo, entendido como algo al&eacute;m do humano, &eacute; um movimento liderado por especialistas em &aacute;reas cient&iacute;ficas e tecnol&oacute;gicas com o objetivo de transformar e ampliar as capacidades humanas atrav&eacute;s do desenvolvimento de tecnologias amplamente dispon&iacute;veis como a nanotecnologia, biotecnologia e intelig&ecirc;ncia artificial. O resultado esperado pelos desenvolvedores de inova&ccedil;&otilde;es envolve o aumento consider&aacute;vel das capacidades&hellip;\" class=\"encyclopedia\">transumanismo<\/a>, com o ser humano podendo vir a ser entendido como &ldquo;amortal&rdquo;. &ldquo;Seria poss&iacute;vel n&atilde;o s&oacute; se adiar indefinidamente a morte como at&eacute; trocar &lsquo;pe&ccedil;as&rsquo; do corpo e tornar a pessoa quase imune &agrave; morte. Isso muda completamente a compreens&atilde;o que se tem do ser humano como um ser voltado para a morte. E a&iacute; uma grande quest&atilde;o filos&oacute;fica passa a ser n&atilde;o apenas ter uma maior quantidade de anos de vida, mas uma maior qualidade de vida&rdquo;, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia, por&eacute;m, chega trazendo a morte como um enorme risco. &ldquo;Ela, de certa forma, &lsquo;re-existencializou&rsquo; nossa percep&ccedil;&atilde;o do mundo. &Eacute; um golpe duro nessa expectativa de uma vida mais longa. Ent&atilde;o o avan&ccedil;o aconteceu, por&eacute;m, a surpresa &eacute; uma doen&ccedil;a invis&iacute;vel. E o que vamos fazer em rela&ccedil;&atilde;o a ela?&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, diz ele, &ldquo;temos como se fosse um grande embate, n&atilde;o apenas no plano da ci&ecirc;ncia, tentando resolver a pandemia, mas tamb&eacute;m na discuss&atilde;o do sentido da vida. Mais longa, trazendo uma tranquilidade maior, mas tamb&eacute;m outras preocupa&ccedil;&otilde;es, porque precisamos preencher de sentido essa vida, o que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. E temos, de repente, a surpresa de uma doen&ccedil;a invis&iacute;vel contra a qual praticamente n&atilde;o temos defesa. Volta a quest&atilde;o antiga da morte iminente, que a qualquer momento pode acontecer. Essa &eacute; uma das grandes quest&otilde;es que a filosofia, como uma reflex&atilde;o da condi&ccedil;&atilde;o humana, tem a enfrentar.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb&eacute;m nas humanidades, mas pensando na ci&ecirc;ncia social aplicada, a professora da Faculdade de Direito (FD) da USP, Eunice Prudente, afirma que o direito deve expressar o sentido do justo, do melhor para a sociedade &ndash; todas as classes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a professora, &eacute; not&oacute;rio &ldquo;que esta Rep&uacute;blica n&atilde;o &eacute; pobre, mas injusta, face aos n&iacute;veis de concentra&ccedil;&atilde;o de rendas e terras&rdquo;. Resgatando a hist&oacute;ria que nos trouxe at&eacute; 2020, Eunice lembra que a forma&ccedil;&atilde;o da propriedade privada a partir de escraviza&ccedil;&atilde;o deixou &agrave; deriva do desenvolvimento os negros descendentes dos escravizados e &ldquo;moldou as formas de discrimina&ccedil;&atilde;o &eacute;tnica violentas que s&atilde;o observadas no Brasil&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre as mudan&ccedil;as trazidas pela crise sanit&aacute;ria, ela resgata do pensamento grego a vis&atilde;o da crise como momento decisivo para um novo tempo, mas precedido de muita matura&ccedil;&atilde;o. &ldquo;No Brasil desconhece-se o pensamento plat&ocirc;nico, que refletiu: n&atilde;o se espera por uma crise para descobrir o que &eacute; importante em sua vida.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, n&atilde;o nos preparamos, fazendo das crises oportunidades. Pelo contr&aacute;rio, &ldquo;a covid-19 aflorou as desditas aqui narradas, da desigualdade socioecon&ocirc;mica ao racismo estrutural&rdquo;, denuncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os pr&oacute;ximos anos, Eunice convoca: &ldquo;&rsquo;Bora&rsquo; reconstruir o Brasil com real investimento na educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica; enfrentamento da desigualdade socioecon&ocirc;mica; e enfrentamento do racismo&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Projetos tentam sobreviver<\/h2>\n\n\n\n<p>Incans&aacute;vel na luta por mais recursos para a ci&ecirc;ncia, a professora do Instituto de Bioci&ecirc;ncias (IB) da USP, Mayana Zatz, v&ecirc; 2020 como um ano muito triste para a ci&ecirc;ncia brasileira neste aspecto. Primeiro, porque os cortes de verbas federais para pesquisas, que j&aacute; vinham acontecendo, foram aumentando. Os mais prejudicados foram os estudantes, com uma redu&ccedil;&atilde;o das bolsas. &ldquo;Cada vez mais eles v&atilde;o para o exterior em busca de condi&ccedil;&otilde;es melhores e n&atilde;o voltam mais&rdquo;, lamenta a geneticista.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o pior de tudo, na opini&atilde;o dela, foi o corte de verbas para a Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Fapesp). &ldquo;Primeiro, houve uma tentativa de retirar um suposto super&aacute;vit que n&atilde;o existe. Felizmente, n&atilde;o houve este corte, mas, no final do ano, soubemos que seria aplicada a DREM, que &eacute; a desvincula&ccedil;&atilde;o da receita tribut&aacute;ria, 1% do que &eacute; repassado &agrave; Fapesp&rdquo;, diz ela, ao explicar que, com isso, a ag&ecirc;ncia de fomento teve um corte de 30%, ou seja, de R$ 454 milh&otilde;es em 2021. &ldquo;O governador prometeu que iria repor esses recursos por meio de decreto, mas, se vai repor, por que retirar? Isso causou uma enorme inseguran&ccedil;a na comunidade cient&iacute;fica.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Zatz, boa not&iacute;cia &eacute; ver, no mundo desenvolvido, o reconhecimento da import&acirc;ncia da ci&ecirc;ncia, e que pa&iacute;ses como Inglaterra e Estados Unidos j&aacute; est&atilde;o vacinando a sua popula&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o por sorte, nem por acaso, mas como resultado de anos de investimentos em pesquisas. &ldquo;Com esfor&ccedil;o, dedica&ccedil;&atilde;o e recursos, tudo &eacute; poss&iacute;vel. Infelizmente, n&oacute;s s&oacute; podemos admir&aacute;-los e bater palmas de longe&rdquo;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Monteiro, professor da Faculdade de Sa&uacute;de P&uacute;blica (FSP) da USP, reconhece que o ano at&iacute;pico imp&ocirc;s dificuldades &agrave; ci&ecirc;ncia, mas que seu grupo, o Nupens, procurou manter o car&aacute;ter coletivo e social do trabalho. Prova disso, diz ele, foi a resposta dada aos ataques direcionados ao Guia Alimentar para a Popula&ccedil;&atilde;o Brasileira, cuja elabora&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica foi coordenada pelo Nupens. &ldquo;Ataques esses repelidos prontamente por um manifesto em que salientamos o robusto conjunto de evid&ecirc;ncias que sustenta as recomenda&ccedil;&otilde;es do Guia.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, o trabalho cient&iacute;fico coletivo tamb&eacute;m mostrou sua for&ccedil;a quando o Nupens recebeu a not&iacute;cia de que cinco de seus cientistas est&atilde;o entre os mais citados do mundo. &ldquo;&Eacute; importante mostrar que seguimos trabalhando em uma produ&ccedil;&atilde;o de alt&iacute;ssima qualidade e de impacto internacional. N&atilde;o h&aacute; sinais de que em 2021 o desmonte de &aacute;reas estrat&eacute;gicas, inclusive da ci&ecirc;ncia, seja revertido: mais um motivo para estarmos juntos&rdquo;, convida.<\/p>\n\n\n\n<p>Alexandre Chiavegatto Filho, tamb&eacute;m professor da FSP, conta que, do ponto de vista das pesquisas do seu grupo, a covid-19 foi um grande problema. &ldquo;Atrasou muito nossos projetos e prejudicou bastante a evolu&ccedil;&atilde;o do nosso laborat&oacute;rio.&rdquo; Mas, ao mesmo tempo, a doen&ccedil;a trouxe oportunidade de desenvolvimento para a Intelig&ecirc;ncia Artificial, campo a que se dedica, sendo interessante para testar algoritmos. &ldquo;Toda a base adquirida pode ser uma abertura para conseguirmos ampliar as pesquisas para outras doen&ccedil;as&rdquo;, espera.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa &eacute; sua perspectiva para o pr&oacute;ximo ano. &ldquo;Apesar de toda crise de financiamento da ci&ecirc;ncia, temos a felicidade de que a Intelig&ecirc;ncia Artificial ainda seja uma &aacute;rea com interesse cient&iacute;fico&rdquo;, diz.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ci&ecirc;ncia que aprende<\/h2>\n\n\n\n<p>O professor do Instituto de Ci&ecirc;ncias Biom&eacute;dicas (ICB) da USP, Edison Durigon, inclui entre os aprendizados de 2020 se preparar com anteced&ecirc;ncia. &ldquo;Se, desde os primeiros casos na China, tiv&eacute;ssemos come&ccedil;ado a nos preparar, talvez a pandemia tivesse sido mais leve aqui. Todo mundo parecia ter aprendido essa li&ccedil;&atilde;o, at&eacute; que n&oacute;s come&ccedil;amos a ter uma diminui&ccedil;&atilde;o de casos. E, agora, vimos esse novo aumento de casos acontecer um m&ecirc;s antes na It&aacute;lia, na Fran&ccedil;a, na Inglaterra e n&atilde;o fizemos nada, esperamos aumentar aqui.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Durigon alerta que, para 2021, o Pa&iacute;s precisa ser autossuficiente em insumos. &ldquo;At&eacute; a metade de 2020, n&oacute;s paramos os diagn&oacute;sticos pois n&atilde;o conseguimos compr&aacute;-los, devido &agrave; competi&ccedil;&atilde;o internacional&rdquo;, recorda. E evoluir na testagem, que foi baixa por falta n&atilde;o s&oacute; de kits, mas de pessoal treinado.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Precisamos aprender a fazer vacinas emergenciais mais rapidamente. E depois, com calma e com tempo, desenvolver as que ficar&atilde;o para o resto da vida. Os cientistas t&ecirc;m que aprender a ser mais &aacute;geis e, &agrave;s vezes, ouvir mais o cora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Patr&iacute;cia Beltr&atilde;o-Braga, professora do ICB, conta que se viu, pela segunda vez, mudando os planos da pesquisa que vinha fazendo em fun&ccedil;&atilde;o de epidemias. Mas ela ressalta que a capacidade de se reinventar demora a ser constru&iacute;da, precisa de anos de estudo, maturidade e muito incentivo, moral e financeiro: &ldquo;Investimento!&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, &ldquo;o ano de 2020 obrigou os cientistas a serem resilientes e nos mostrou nossa verdadeira voca&ccedil;&atilde;o: estamos aqui para servir &agrave; sociedade. As epidemias e pandemias n&atilde;o v&atilde;o parar, e aprendemos que as a&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas s&oacute; acontecem se estivermos preparados&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), vivemos &ldquo;uma tempestade em que se depositou na ci&ecirc;ncia &ndash; que tem seu tempo e suas limita&ccedil;&otilde;es &ndash; as esperan&ccedil;as&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci&ecirc;ncia em si respondeu muito bem. &ldquo;As vacinas foram produzidas em tempo in&eacute;dito, &agrave; custa do progresso da ci&ecirc;ncia e dos investimentos maci&ccedil;os.&rdquo; A pr&oacute;pria USP respondeu, com pesquisa em diversas frentes. Mesmo assim, como nunca, a ci&ecirc;ncia esteve sob ataque, conceitual e financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O m&eacute;dico lembra ainda que, no in&iacute;cio, na falta de alternativas, os cientistas procuraram nos rem&eacute;dios que j&aacute; existiam um caminho para tratar a covid-19. &ldquo;E o que no come&ccedil;o era uma esperan&ccedil;a, foi usado por pol&iacute;ticos para minimizar o risco e chamar de ci&ecirc;ncia um fetiche cient&iacute;fico&rdquo;, lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, no entanto, &ldquo;o grande aprendizado foi que n&atilde;o sabemos quase nada desse v&iacute;rus e tivemos que ter humildade para aprender. Que a ci&ecirc;ncia continue nos iluminando e possa trazer um pouco das solu&ccedil;&otilde;es que, como sociedade, ainda n&atilde;o conseguimos estabelecer como um todo&rdquo;, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Liedi Bernucci, diretora da Escola Polit&eacute;cnica (Poli) da USP, o maior aprendizado este ano foi cultivar a solidariedade. &ldquo;Docentes, funcion&aacute;rios e alunos estenderam as m&atilde;os para ajudar. As aulas logo se reiniciaram com a mobiliza&ccedil;&atilde;o de nossos funcion&aacute;rios, a AEP (Associa&ccedil;&atilde;o dos Engenheiros Polit&eacute;cnicos) promovendo a&ccedil;&atilde;o de doa&ccedil;&atilde;o de computadores e notebooks para os alunos que, com a ajuda do Gr&ecirc;mio Polit&eacute;cnico e centrinhos dos alunos, foram reformatados e limpos. Al&eacute;m do treinamento do Pece para docentes no uso de ferramentas on-line e nas t&eacute;cnicas de aprendizado invertido&rdquo;, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pesquisa e atendimento &agrave; sociedade, ela destaca, entre outras, a iniciativa do ventilador mec&acirc;nico de baixo custo, que contou com a doa&ccedil;&atilde;o de empresas e pessoas f&iacute;sicas, muitas delas pelo programa USP Vida. Outros exemplos s&atilde;o o rob&ocirc; para entregas de medicamentos em hospitais para evitar o contato de muitas pessoas com a doen&ccedil;a, e o grupo formado por Poli e IPT para conserto gratuito de ventiladores respirat&oacute;rios dos diversos hospitais p&uacute;blicos. &ldquo;Todo o trabalho foi volunt&aacute;rio. A solidariedade foi a for&ccedil;a motriz em todas as iniciativas unindo compet&ecirc;ncias&rdquo;, celebra.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor da Escola de Artes, Ci&ecirc;ncias e Humanidades (EACH) da USP Alberto Tufaile, os principais aprendizados est&atilde;o associados com a comunica&ccedil;&atilde;o e o posicionamento ideol&oacute;gico. Ele relata que viu mais intensamente posicionamento pol&iacute;tico declarado de colegas ao redor do mundo, escolhendo a posi&ccedil;&atilde;o desconfort&aacute;vel de questionar abertamente a autoridade estabelecida em favor de uma posi&ccedil;&atilde;o baseada no m&eacute;todo cient&iacute;fico. &ldquo;Como numa can&ccedil;&atilde;o de &lsquo;sofr&ecirc;ncia&rsquo;, os cientistas perceberam que &eacute; loucura negar as evid&ecirc;ncias e mentir para ficar numa posi&ccedil;&atilde;o socialmente neutra.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia Kowaltowski, professora do Instituto de Qu&iacute;mica (IQ) da USP, diz que cientistas s&atilde;o formados para ser resilientes, mas que &ldquo;nunca antes nossa resili&ecirc;ncia e capacidade de se reinventar foram testadas como em 2020&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb&eacute;m ressaltando a comunica&ccedil;&atilde;o, a pesquisadora observou com a pandemia um enorme aumento de interesse da popula&ccedil;&atilde;o em geral por ci&ecirc;ncia. &ldquo;Isso &eacute; maravilhoso! Comunicadores cient&iacute;ficos viraram celebridades, o Jornal da USP ganhou muito mais visibilidade, e nunca antes a profiss&atilde;o foi t&atilde;o vis&iacute;vel e valorizada&rdquo;, celebra.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor do Instituto de F&iacute;sica (IF) da USP Paulo Artaxo acredita que ci&ecirc;ncia ter&aacute; um papel ainda maior na orienta&ccedil;&atilde;o da defini&ccedil;&atilde;o do bem-estar social e tecnol&oacute;gico nos n&iacute;veis local e global, e se envolver&aacute; em conflitos ainda maiores durante a apresenta&ccedil;&atilde;o das suas propostas. &ldquo;E tudo isso vai funcionar? Bem, isso n&atilde;o &eacute; simples de prever, pois depender&aacute; da rea&ccedil;&atilde;o das outras entidades sociais envolvidas, pois as ideias cient&iacute;ficas n&atilde;o devem ser impostas, mas precisam ser implantadas de forma consensual.&rdquo;<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, o principal aprendizado de 2020 &eacute; que, para enfrentar as tr&ecirc;s grandes crises que a humanidade est&aacute; passando &mdash; crise da covid-19, perda de biodiversidade e emerg&ecirc;ncia clim&aacute;tica &mdash; a &uacute;nica sa&iacute;da &eacute; a ci&ecirc;ncia. &ldquo;Nem for&ccedil;as de mercado, nem pol&iacute;ticos ou qualquer outro movimento distante da ci&ecirc;ncia podem auxiliar a humanidade a caminhar por lugares mais seguros&rdquo;, garante.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-background has-luminous-vivid-orange-background-color has-luminous-vivid-orange-color\">\n\n\n\n<p>* <em>Com colabora&ccedil;&atilde;o de Antonio Carlos Quinto; Beatriz Azevedo; Fabiana Mariz; Ivanir Ferreira, Marcelo Canquerino e Val&eacute;ria Dias<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":15,"featured_media":14931,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[23,11,20,2293],"tags":[2315,2289,2317,2316,2319,2318],"class_list":{"0":"post-14930","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-carlos-placido-teixeira","8":"category-cenarios","9":"category-destaques","10":"category-em-2021","11":"tag-ciencia-brasileira-em-2021","12":"tag-em-2021","13":"tag-o-futuro-das-ciencias","14":"tag-o-futuro-das-ciencias-no-brasil","15":"tag-o-que-esperar-do-futuro","16":"tag-tendencias-das-ciencias"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/laboratorio-usp_foto-Cecilia-Bastos-scaled-e1609162889342.jpg","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14930"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14930\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14931"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}