{"id":13789,"date":"2020-10-24T16:27:01","date_gmt":"2020-10-24T19:27:01","guid":{"rendered":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/?p=13789"},"modified":"2020-10-24T16:27:08","modified_gmt":"2020-10-24T19:27:08","slug":"como-se-trama-a-uberizacao-total","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/como-se-trama-a-uberizacao-total\/","title":{"rendered":"Como se trama a uberiza\u00e7\u00e3o total"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"959\" height=\"720\" src=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho.jpg\" alt=\"  J&aacute; est&atilde;o claros os projetos do grande capital para o p&oacute;s-pandemia. Informalizar tudo; abusar do home office; desarticular a for&ccedil;a coletiva dos assalariados; servir-se da multid&atilde;o desempregada e dos empreendedores que quebrar&atilde;o - Djalma Vass&atilde;o\/FotosPublicas\" class=\"wp-image-13790\" srcset=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho.jpg 959w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho-300x225.jpg 300w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho-768x577.jpg 768w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho-80x60.jpg 80w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho-160x120.jpg 160w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho-265x198.jpg 265w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho-696x523.jpg 696w\" sizes=\"auto, (max-width: 959px) 100vw, 959px\"><figcaption>Impulsionados pelo ide&aacute;rio da empulha&ccedil;&atilde;o, que os fazia sonhar com um &ldquo;trabalho sem patr&atilde;o&rdquo;, entregadores converteram-se &agrave; escravid&atilde;o digital<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>J&aacute; est&atilde;o claros os projetos do grande capital para o p&oacute;s-pandemia. Informalizar tudo; abusar do home office; desarticular a for&ccedil;a coletiva dos assalariados; servir-se da multid&atilde;o desempregada e dos empreendedores que quebrar&atilde;o<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>Ricardo Antunes<\/strong><br>no&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/\" class=\"rank-math-link\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Le Monde Diplomatique Brasil<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Primeiro ato<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O mundo principiou este tr&aacute;gico ano de 2020 de modo muito diferente. N&atilde;o bastasse a recess&atilde;o econ&ocirc;mica global e em curso acentuado no Brasil, j&aacute; visualiz&aacute;vamos no radar sinais de expressivo aumento dos &iacute;ndices de informalidade, precariza&ccedil;&atilde;o e desemprego, quer pela prolifera&ccedil;&atilde;o de uma mir&iacute;ade de trabalhos intermitentes, ocasionais, flex&iacute;veis etc., quer pelas formas abertas e ocultas de subocupa&ccedil;&atilde;o, subutiliza&ccedil;&atilde;o e desemprego, todos contribuindo para a amplia&ccedil;&atilde;o dos n&iacute;veis j&aacute; abissais de desigualdade e miserabilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente a esse quadro social cr&iacute;tico, o l&eacute;xico empresarial que se expandia no universo maqu&iacute;nico-informacional-digital estampava muita pomposidade:&nbsp;<em>platform economy<\/em>,&nbsp;<em>crowd sourcing<\/em>,&nbsp;<em>gig-economy<\/em>,&nbsp;<em>home office<\/em>,&nbsp;<em>home work<\/em>,&nbsp;<em>sharing economy<\/em>,&nbsp;<em>on-demand economy<\/em>, entre tantas outras denomina&ccedil;&otilde;es, sem esquecer que os altos gestores (outrora presidentes e diretores das grandes corpora&ccedil;&otilde;es) foram renomeados como<em>&nbsp;chief executive officer (<\/em>CEO<em>). At&eacute; o&nbsp;<\/em><em>coaching<\/em>&nbsp;foi inventado, afinal seria preciso algu&eacute;m que ganhasse um bom&nbsp;<em>cacau&nbsp;<\/em>para realizar algum afago espiritual.<\/p>\n\n\n\n<p>E esse novo palavr&oacute;rio, propalado pela gram&aacute;tica do capital, somou-se &agrave;quele j&aacute; consolidado e que adulterava os reais significados etimol&oacute;gicos das palavras, que todos conhecemos: manter sempre a&nbsp;<em>resili&ecirc;ncia<\/em>, atuar com muita<em>&nbsp;sinergia<\/em>, converter-se em aut&ecirc;ntico&nbsp;<em>colaborador&nbsp;<\/em>e em verdadeiro&nbsp;<em>parceiro<\/em>, vangloriar-se da nova condi&ccedil;&atilde;o de&nbsp;<em>empreendedor<\/em>, exercitar o&nbsp;<em>trabalho volunt&aacute;rio<\/em>&nbsp;(em verdade uma &ldquo;sutil&rdquo; imposi&ccedil;&atilde;o, visto que o voluntariado se tornou condi&ccedil;&atilde;o&nbsp;<em>sine qua non<\/em>&nbsp;para obten&ccedil;&atilde;o de emprego), entre tantos outros vitup&eacute;rios &agrave; linguagem, que lhe imputam novas &ldquo;significa&ccedil;&otilde;es&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o inesperado fez essa fumegante nomenclatura, que parecia t&atilde;o bela, virar pura balela. A pandemia do capital tratou de demonstrar sua impostura: &ldquo;colaboradores&rdquo; est&atilde;o sendo demitidos aos milhares, &ldquo;parceiros&rdquo; est&atilde;o podendo optar entre reduzir os sal&aacute;rios ou conhecer o desemprego e os pequenos empreendedores n&atilde;o encontram consumidores e veem sua renda se esvanecer.<\/p>\n\n\n\n<p>&Eacute; bom recordar, por&eacute;m, que mesmo antes da explos&atilde;o da pandemia a realidade cotidiana do labor j&aacute; vinha expressando um inteiramente outro: pejotiza&ccedil;&atilde;o, trabalho intermitente, subocupa&ccedil;&atilde;o, subutiliza&ccedil;&atilde;o, infoproletariado, cibertariado, escravid&atilde;o digital, professor delivery, frila fixo, prec&aacute;ri@s&nbsp;inflex&iacute;veis etc., terminologia essa que, com tom ir&ocirc;nico e cr&iacute;tico, se originou da pr&oacute;pria lavra do trabalho. &Eacute; por isso que&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/resistir-a-uberizacao-do-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uberiza&ccedil;&atilde;o<\/a>&nbsp;<\/em>tem hoje o mesmo tra&ccedil;o pejorativo que&nbsp;<em>walmartiza&ccedil;&atilde;o<\/em>&nbsp;ostentou quando se falava das condi&ccedil;&otilde;es de trabalho nos hipermercados.<\/p>\n\n\n\n<p>Se esse ainda era o cen&aacute;rio no Natal de 2019, com Trump, Bolsonaro, Orban e outras aberra&ccedil;&otilde;es assemelhadas, tudo come&ccedil;ou a se agravar com o advento da pandemia. Com a propaga&ccedil;&atilde;o global do coronav&iacute;rus, o que era desanimador se tornou desolador. E a crise econ&ocirc;mica que atingia duramente o Brasil passou a ser amplificada pelas crises do governo Bolsonaro-Guedes, uma simbiose nada esdr&uacute;xula entre concep&ccedil;&otilde;es ditatoriais e fascistas e uma variante de neoliberalismo primitivo, devastando ainda mais nosso ch&atilde;o social j&aacute; bastante desertificado.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dados estampam essa crueza. Na mensura&ccedil;&atilde;o referente ao primeiro trimestre de 2020, o IBGE apresentou uma intensifica&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es desumanas da classe trabalhadora: atingimos o contingente de 12,9 milh&otilde;es de desempregados, e a informalidade (flagelo que se tornou&nbsp;<em>leitmotiv<\/em>&nbsp;da a&ccedil;&atilde;o do capital) superou a casa de 40%, com cerca de 40 milh&otilde;es de trabalhadores e trabalhadoras &agrave; margem da legisla&ccedil;&atilde;o social protetora do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar que esses dados n&atilde;o refletem o que vem se passando no presente (segundo trimestre), dada a expans&atilde;o exponencial da pandemia no Brasil, mas t&atilde;o somente o pouco que era vis&iacute;vel at&eacute; os primeiros dias de mar&ccedil;o, visto que o desemprego (tanto aberto quanto aquele por desalento) est&aacute; em grande medida invisibilizado pela paralisa&ccedil;&atilde;o de amplos setores da economia, permitindo t&atilde;o somente uma aproxima&ccedil;&atilde;o sintom&aacute;tica da realidade. Se a esses dados incluirmos os subocupados (que trabalham menos de 40 horas) e os subutilizados (que segundo o IBGE englobam tanto os subocupados como os desocupados e a for&ccedil;a de trabalho potencial),<sup>1<\/sup>&nbsp;teremos uma ideia mais precisa do tamanho da trag&eacute;dia social que n&atilde;o para de se amplificar no pa&iacute;s que em fins de maio se encontra no epicentro da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Segundo ato<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Foi nessa situa&ccedil;&atilde;o verdadeiramente catastr&oacute;fica, em que a simultaneidade da crise econ&ocirc;mica, social e pol&iacute;tica se verificou, que a nova pandemia aterrissou em nossos aeroportos. Muito distante de um v&iacute;rus cuja responsabiliza&ccedil;&atilde;o se devesse a algum desmando da natureza, t&atilde;o ao gosto da apolog&eacute;tica da ignor&acirc;ncia que hoje se esparrama aqui e alhures, o que estamos presenciando, em escala global, &eacute; resultante da expans&atilde;o e generaliza&ccedil;&atilde;o do sistema de metabolismo antissocial do capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Carregando uma l&oacute;gica essencialmente destrutiva, esse metabolismo s&oacute; pode viver e se reproduzir por meio da destrui&ccedil;&atilde;o, seja da natureza, que jamais esteve em situa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o deplor&aacute;vel, seja da for&ccedil;a de trabalho, cuja derreli&ccedil;&atilde;o, corros&atilde;o e dilapida&ccedil;&atilde;o se tornaram absolutamente insustent&aacute;veis. Sendo expansionista e incontrol&aacute;vel, desconsiderando a totalidade dos limites humanos, societ&aacute;rios e ambientais, o sistema de metabolismo antissocial do capital alterna-se entre produ&ccedil;&atilde;o, destrui&ccedil;&atilde;o e letalidade. Sen&atilde;o, o que significa a enorme press&atilde;o de amplas parcelas do empresariado predador que exige junto ao governo-de-tipo-l&uacute;mpen<sup>2<\/sup>&nbsp;a imediata volta ao trabalho e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o, em meio &agrave; explos&atilde;o de mortes que n&atilde;o param de crescer por conta da pandemia? Ser&aacute; para preservar os empregos, como dizem?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta &eacute; de singela clareza e est&aacute; estampada n&atilde;o s&oacute; no pa&iacute;s, mas em todos os rinc&otilde;es do mundo. Da China &agrave; Su&eacute;cia, da Alemanha &agrave; &Aacute;frica do Sul, da &Iacute;ndia aos Estados Unidos, da Fran&ccedil;a ao M&eacute;xico, do Jap&atilde;o &agrave; R&uacute;ssia, com a eclos&atilde;o da pandemia do capital, a cria&ccedil;&atilde;o de riqueza e de lucro se estancou, dada a paralisa&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o, com exce&ccedil;&atilde;o das chamadas atividades essenciais (ali&aacute;s, ao ampliar ou restringir essa defini&ccedil;&atilde;o, cada governo estampa seu n&iacute;vel de maior sujei&ccedil;&atilde;o e servilismo ao capital).<\/p>\n\n\n\n<p>Como as corpora&ccedil;&otilde;es globais sabem melhor do que ningu&eacute;m que a for&ccedil;a de trabalho &eacute; uma mercadoria especial, uma vez que &eacute; a &uacute;nica capaz de desencadear e impulsionar o complexo produtivo presente nas cadeias produtivas globais que hoje comandam o processo de cria&ccedil;&atilde;o de valor e de riqueza social, os capitais aprenderam bem, ao longo destes quase tr&ecirc;s s&eacute;culos de domina&ccedil;&atilde;o, a lidar com (e contra) o trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabedores de que, se efetivassem a completa elimina&ccedil;&atilde;o do labor, eles se veriam na inc&ocirc;moda posi&ccedil;&atilde;o de extinguir seu pr&oacute;prio ganha-p&atilde;o, sua alquimia di&aacute;ria, cotidiana e ininterrupta est&aacute; voltada indelevelmente para reduzir ao m&aacute;ximo o trabalho humano necess&aacute;rio &agrave; produ&ccedil;&atilde;o. E assim se faz por meio da introdu&ccedil;&atilde;o compensadora do arsenal maqu&iacute;nico-informacional-digital dispon&iacute;vel, ou seja, pelo uso das tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o (TIC), &ldquo;internet das coisas&rdquo;, <a href=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/ddof\/impressao-3d\/\" target=\"_self\" title=\"Impress&atilde;o 3D ou manufatura aditiva ou prototipagem r&aacute;pida &eacute; a tecnologia de impress&atilde;o de produtos ou objetos em formatos tridimensionais, por sucessivas camadas de material. Os avan&ccedil;os da impress&atilde;o 3D possibilitam a impress&atilde;o de quase tudo, de pr&oacute;teses a cora&ccedil;&otilde;es, rins e outros &oacute;rg&atilde;os vitais humanos e medicamentos. A tecnologia &eacute; utilizada em diversos ramos&hellip;\" class=\"encyclopedia\">impress&atilde;o 3D<\/a>,&nbsp;<em>big data<\/em>, intelig&ecirc;ncia artificial, tudo isso enfeixado, em nossos dias, na mais do que emblem&aacute;tica proposta da ind&uacute;stria 4.0.<\/p>\n\n\n\n<p>Que esse complexo tecnol&oacute;gico-digital-informacional n&atilde;o tenha como finalidade central os valores humano-sociais, isso &eacute; mais do que uma obviedade. Ou ser&aacute; que algu&eacute;m acredita que a guerra entre a norte-americana Apple e a chinesa Huawei tenha como principal objetivo melhorar substantiva e igualitariamente as condi&ccedil;&otilde;es de vida e trabalho dos bilh&otilde;es de homens e mulheres, brancos, negros, ind&iacute;genas, imigrantes, que perambulam entre o desemprego, subemprego, informalidade e intermit&ecirc;ncia? Algu&eacute;m pode imaginar que o objetivo das grandes corpora&ccedil;&otilde;es globais seja dar-lhes trabalho digno, sal&aacute;rios justos, vida dotada de sentido, atendimento pleno de suas necessidades materiais e simb&oacute;licas?<\/p>\n\n\n\n<p>Um breve olhar para as condi&ccedil;&otilde;es de trabalho da terceirizada global Foxconn, em suas unidades na China onde produz a marca Apple, nos revelou dezessete tentativas de suic&iacute;dio em 2010, das quais treze lamentavelmente se concretizaram. Podemos lembrar tamb&eacute;m as rebeli&otilde;es contra o famigerado &ldquo;sistema 9-9-6&rdquo;, praticado pela Huawei (e tantas outras empresas chinesas do ramo digital, como a Alibaba), que significa trabalhar das 9 &agrave;s 21 horas (9 horas), seis dias por semana. F&aacute;cil, n&atilde;o?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se assim caminhava o admir&aacute;vel mundo do trabalho antes da explos&atilde;o do coronav&iacute;rus, o que est&aacute; sendo gestado no presente, em plena pandemia do capital? Quais experimenta&ccedil;&otilde;es do trabalho est&atilde;o sendo maquinadas nos laborat&oacute;rios do capital, enquanto uma parte expressiva da classe trabalhadora preenche os t&uacute;mulos que, a c&eacute;u aberto, est&atilde;o acolhendo seus corpos?<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Terceiro ato<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Se nossa an&aacute;lise est&aacute; na dire&ccedil;&atilde;o certa, se estamos apreendendo o cheiro da coisa, a principal forma experimental do labor p&oacute;s-pand&ecirc;mico se encontra no trabalho uberizado. Utilizando-se ilimitadamente da informalidade, flexibilidade, precariza&ccedil;&atilde;o e desregulamenta&ccedil;&atilde;o, tra&ccedil;os marcantes do capitalismo no Sul global (e que se expandem intensamente tamb&eacute;m no Norte), coube &agrave;s grandes plataformas digitais e aplicativos, como Amazon (e&nbsp;<em>Amazon Mechanical Turk<\/em>), Uber (e Uber Eats), Google, Facebook, Airbnb, Cabify, 99, Lyft, iFood, Glovo, Deliveroo, Rappi etc., dar um grande salto pela adi&ccedil;&atilde;o das tecnologias informacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>E aqui os algoritmos se destacam, visto que s&atilde;o programas cuidadosamente preparados para processar imenso volume de informa&ccedil;&otilde;es (tempo, lugar, qualidade), capazes de conduzir a for&ccedil;a de trabalho segundo as demandas requeridas, dando-lhes a apar&ecirc;ncia de neutralidade.<sup>3<\/sup>&nbsp;Juntamente com a intelig&ecirc;ncia artificial e todo o arsenal digital canalizado para fins estritamente lucrativos, isso vem possibilitando a cria&ccedil;&atilde;o de um novo monstrengo que adultera a concretude e efetividade das rela&ccedil;&otilde;es contratuais vigentes. Os trabalhos assalariados transfiguram-se em &ldquo;presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os&rdquo;, o que resulta em sua exclus&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o social protetora do trabalho. Impulsionados pelo ide&aacute;rio da empulha&ccedil;&atilde;o, que os fazia sonhar com um &ldquo;trabalho sem patr&atilde;o&rdquo;, converteram-se no que, em&nbsp;<em>O privil&eacute;gio da servid&atilde;o<\/em>, denominei escravid&atilde;o digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Realizando jornadas de trabalho frequentemente superiores a 8, 10, 12 ou mais horas por dia, muitas vezes sem folga semanal; percebendo sal&aacute;rios baixos e que est&atilde;o sendo subtra&iacute;dos durante a pandemia, sem explica&ccedil;&atilde;o por parte das plataformas digitais; padecendo das demiss&otilde;es sem nenhuma justificativa; tendo de arcar com os custos de manuten&ccedil;&atilde;o de ve&iacute;culos, motos, celulares e equipamentos etc., come&ccedil;amos a desvendar, nos laborat&oacute;rios do capital, os m&uacute;ltiplos experimentos que pretendem implantar depois da pandemia, que se pode assim resumir: explora&ccedil;&atilde;o e espolia&ccedil;&atilde;o acentuadas e nenhum direito do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a desmedida empresarial continuar ditando o tom, teremos mais informaliza&ccedil;&atilde;o com informatiza&ccedil;&atilde;o, &ldquo;justificada&rdquo; pela necessidade de recupera&ccedil;&atilde;o da economia p&oacute;s-Covid-19. E sabemos que a exist&ecirc;ncia de uma monumental for&ccedil;a sobrante de trabalho favorece sobremaneira essa tend&ecirc;ncia destrutiva do capital p&oacute;s-pand&ecirc;mico.<\/p>\n\n\n\n<p>H&aacute; ainda outros exemplos ilustrativos das experimenta&ccedil;&otilde;es do capital em curso. A simbiose entre trabalho informal e mundo digital vem permitindo que os gestores possam sonhar com trabalhos ainda mais individualizados e invisibilizados. Ao perceberem que o isolamento social realizado durante a pandemia vem fragmentando a classe trabalhadora e assim dificultando as a&ccedil;&otilde;es coletivas e a resist&ecirc;ncia sindical, eles procuram avan&ccedil;ar na amplia&ccedil;&atilde;o do home office e do teletrabalho. Desse modo, al&eacute;m da redu&ccedil;&atilde;o de custos, abrem novas portas para uma maior corros&atilde;o dos direitos do trabalho, acentuando a desigual divis&atilde;o sociossexual e racial do trabalho e embaralhando de vez o tempo de trabalho e de vida da classe trabalhadora.<sup>4<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Os bancos, que exercitam uma pragm&aacute;tica de enorme enxugamento h&aacute; d&eacute;cadas, uma vez que t&ecirc;m se utilizado intensamente do arsenal digital, j&aacute; devem estar fazendo os c&aacute;lculos de quanto v&atilde;o lucrar com a introdu&ccedil;&atilde;o do home office e do teletrabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale, por fim, destacar outro exemplo que tem sido emblem&aacute;tico: o EAD (ensino a dist&acirc;ncia). Essa pr&aacute;tica, que vem se intensificando durante a pandemia, tanto no ensino privado como no p&uacute;blico e especialmente nas faculdades privadas, al&eacute;m de objetivar a redu&ccedil;&atilde;o dos custos e aumentar os lucros, visa fortalecer grandes conglomerados privados &ldquo;educacionais&rdquo;. Recentemente, como noticiou amplamente a imprensa, a Laureate, que congrega v&aacute;rias faculdades privadas, al&eacute;m de utilizar rob&ocirc;s na corre&ccedil;&atilde;o de trabalhos sem conhecimento dos alunos, demitiu mais de uma centena de professores.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, por meio desses e de outros mecanismos, novas modalidades de corros&atilde;o do trabalho v&ecirc;m ganhando forte impuls&atilde;o durante a pandemia e se ampliando nas mais diversas atividades econ&ocirc;micas, invadindo tamb&eacute;m o espa&ccedil;o p&uacute;blico e as empresas estatais. Poucas semanas atr&aacute;s,&nbsp;<a href=\"https:\/\/exame.com\/negocios\/podemos-trabalhar-com-50-dos-funcionarios-em-casa-diz-ceo-da-petrobras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o CEO da Petrobras<\/a>&nbsp;somou-se ao coro ao dizer que a estatal pode &ldquo;trabalhar com 50% das pessoas em casa&rdquo; e assim &ldquo;liberar v&aacute;rios pr&eacute;dios que custam muito&rdquo;.<a href=\"https:\/\/exame.com\/negocios\/podemos-trabalhar-com-50-dos-funcionarios-em-casa-diz-ceo-da-petrobras\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><sup>5<\/sup><\/a>&nbsp;Vale recordar que, logo antes da eclos&atilde;o do coronav&iacute;rus, houve uma importante greve nacional dos petroleiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a tanta maquina&ccedil;&atilde;o, imaginar que o apoio de R$ 600 (por tr&ecirc;s meses) para os que se encontram na informalidade seja suficiente para reduzir o flagelo e o vilip&ecirc;ndio a que est&atilde;o submetidos s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel para um governo que pratica a <a href=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/ddof\/o-que-e-necropolitica\/\" target=\"_self\" title=\"Necropol&iacute;tica &eacute; um conceito que questiona os limites da soberania quando o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer. Em outras palavras, &eacute; o questionamento da atribui&ccedil;&atilde;o do Estado de ter ou n&atilde;o &ldquo;licen&ccedil;a pra matar&rdquo; em prol de um discurso de ordem. Desenvolvido pelo fil&oacute;sofo negro, historiador, te&oacute;rico pol&iacute;tico e professor universit&aacute;rio&hellip;\" class=\"encyclopedia\">necropol&iacute;tica<\/a> e a necroeconomia, o que o levou a &ldquo;descobrir&rdquo; que existem mais 40 milh&otilde;es de trabalhadores\/as&nbsp;<em>invis&iacute;veis<\/em>, dura constata&ccedil;&atilde;o do principal resultado de sua pol&iacute;tica genocida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Impulsionados pelo ide&aacute;rio da empulha&ccedil;&atilde;o, que os fazia sonhar com um &ldquo;trabalho sem patr&atilde;o&rdquo;, converteram-se no que, em O privil&eacute;gio da servid&atilde;o, denominei escravid&atilde;o digital<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":13790,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[36,14],"tags":[],"class_list":{"0":"post-13789","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-pensadores-futuro","8":"category-mercado-de-trabalho"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/motoboys-protestam-contra-a-precarizacao-do-trabalho.jpg","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13789","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13789"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13789\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}