{"id":130,"date":"2015-12-16T19:20:20","date_gmt":"2015-12-16T22:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/litebold.co\/~radardofuturo\/o-fim-da-privacidade-e-os-desastres-pos-modernos\/"},"modified":"2019-02-06T13:35:37","modified_gmt":"2019-02-06T16:35:37","slug":"o-fim-da-privacidade-e-os-desastres-pos-modernos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/o-fim-da-privacidade-e-os-desastres-pos-modernos\/","title":{"rendered":"O Fim da Privacidade e Os Desastres P\u00f3s-Modernos"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"color: #222222; font-family: arial, sans-serif; line-height: normal; text-align: center;\"><span style=\"font-size: 16px;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">O Fim da Privacidade e Os Desastres P&oacute;s-Modernos<br>\nPor Rodrigo Fragola,<\/span><\/span><\/h3>\n<p>(&Eacute; preciso encontrar novos meios de preserva&ccedil;&atilde;o da intimidade individual e do sigilo de dados na sociedade superconectada)<\/p>\n<p>Ao final dos anos 80, o te&oacute;rico &ldquo;p&oacute;s-moderno&rdquo; Paul Virilo assinalou que toda inven&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica acarreta o surgimento de uma nova forma de desastre. Com o advento do bal&atilde;o de passageiros, vieram as trag&eacute;dias a&eacute;reas; o aquecimento a g&aacute;s propiciou o surgimento da asfixia dom&eacute;stica; o atropelamento come&ccedil;ou com as carro&ccedil;as.<\/p>\n<p>No universo da cultura digital, a radicalidade dos sinistros decorrentes de novas tecnologias atinge patamares insanos. E a&iacute; n&atilde;o falamos s&oacute; de efeitos desastrosos pontuais, como o v&iacute;rus que embaralha textos no computador ou o banditismo cibern&eacute;tico. O maior e mais profundo dos desastres da era cibern&eacute;tica &eacute;, na opini&atilde;o de muitos, a destrui&ccedil;&atilde;o da privacidade. Uma trag&eacute;dia que prejudica os indiv&iacute;duos e oferece perigo a empresas e governos.<\/p>\n<p>Hoje, bilh&otilde;es de pessoas est&atilde;o expostas pela hiperconex&atilde;o e pelo compartilhamento da exist&ecirc;ncia social em aplica&ccedil;&otilde;es de relacionamento. Aplica&ccedil;&otilde;es que, obviamente, embutem algum modelo de neg&oacute;cio baseado exatamente na infer&ecirc;ncia sobre dados (ou cacos de dados) que estas pessoas lan&ccedil;am ao navegar na rede.<\/p>\n<p>Exemplos deste novo desastre n&atilde;o faltam no dia a dia. O cart&atilde;o de fidelidade que usamos no supermercado permite ao comerciante saber que todo dia 10 o cliente X adquire uma garrafa de u&iacute;sque Y. Juntando este dado a outros, &eacute; poss&iacute;vel deduzir que quem compra esta marca de u&iacute;sque pode tamb&eacute;m adquirir um apartamento de praia.<\/p>\n<p>Em seu livro &ldquo;O Poder do H&aacute;bito&rdquo;, o jornalista norte-americano Charles Duhig relata o epis&oacute;dio em que o pai de uma adolescente procurou a empresa megavarejista &ldquo;Target&rdquo; para reclamar que seu departamento de marketing direto estava enviando conte&uacute;dos impr&oacute;prios para sua filha menor de idade. Mensagens ligadas &agrave; maternidade e ofertas de produtos para beb&ecirc;s.<\/p>\n<p>O gerente da loja se apressou a procurar o tal pai para contornar a queixa. Precisaria, para tanto, explicar que um sistema rob&oacute;tico de algoritmos, ligado ao big data da empresa, cruzava milhares de ind&iacute;cios desconexos e signos n&atilde;o estruturados para inferir o n&iacute;vel de propens&atilde;o &agrave; gravidez de mulheres no mundo virtual.<\/p>\n<p>O gerente iria contar ao pai que este modelo de big data j&aacute; havia provado, na Target, um &iacute;ndice de assertividade beirando os 90%. As massas de informa&ccedil;&atilde;o disforme acionadas pelo tal &ldquo;analytics&rdquo;, iria argumentar o rapaz da loja, inclu&iacute;am desde os ing&ecirc;nuos &ldquo;likes&rdquo; que a filha daquele senhor havia distribu&iacute;do nas redes sociais, at&eacute; seus mapas de navega&ccedil;&atilde;o, suas prefer&ecirc;ncias de compra, suas perguntas ao Google.<\/p>\n<p>Mas ao ser procurado pelo gerente, o pai, j&aacute; bem mais resignado, ao inv&eacute;s de ouvir as desculpas da Target foi logo, ele mesmo, se desculpando. &Eacute; que, ap&oacute;s ter reclamado &agrave; empresa, acabara de descobrir que a jovem filha de fato estava&hellip; gr&aacute;vida!<\/p>\n<p>Muito mais radical que o &ldquo;Grande Irm&atilde;o&rdquo;, profetizado pelo cl&aacute;ssico de George Orwell de 1948, o fen&ocirc;meno deste novo monstro que a tecnologia chama de &ldquo;grandes dados&rdquo;, tem a capacidade at&eacute; de projetar, para cada um de n&oacute;s, um novo tipo de futuro potencial.<\/p>\n<p>Um futuro artificial, estatisticamente prov&aacute;vel, e expresso atrav&eacute;s das infer&ecirc;ncias dos novos sistemas anal&iacute;ticos capazes de definir nossas &ldquo;propens&otilde;es futuras&rdquo; e passar a direcionar o nosso enquadramento a elas.<\/p>\n<p>Por outro lado, ningu&eacute;m ir&aacute; abrir m&atilde;o da nova sociedade e seria rid&iacute;culo esperar um retrocesso em fun&ccedil;&atilde;o de antigos valores, com a individualidade &ldquo;sagrada&rdquo;. Mas reconhecer a fatalidade do fim da privacidade &ndash; tal como a conhec&iacute;amos at&eacute; muito recentemente &ndash; n&atilde;o significa nos resignar a sermos vigiados e monitorados &agrave; nossa revelia e sem qualquer resist&ecirc;ncia poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Perdemos a velha e boa privacidade da sociedade anal&oacute;gica, das grandes multid&otilde;es de pessoas an&ocirc;nimas, e agora precisamos inventar outra forma de privacidade, compat&iacute;vel com o novo modelo de tecnologia ub&iacute;qua e pervasiva e em que todos est&atilde;o submersos.<\/p>\n<p>Por mais dif&iacute;cil que seja conseguir alguma vida exclusivamente pessoal na rede, devemos rejeitar a ideia de um mundo sem direito &agrave; intimidade, assim como o setor a&eacute;reo rejeita abrir m&atilde;o de uma remota possibilidade de sobreviv&ecirc;ncia diante dos seus mais terr&iacute;veis desastres.<\/p>\n<p>A cada voo comercial, em qualquer ponto do no planeta, a horda de passageiros &eacute; submetida a uma aula, sempre repetida e mon&oacute;tona, sobre como usar as m&aacute;scaras de despressuriza&ccedil;&atilde;o e os assentos que flutuam, em caso de mergulho da aeronave nas &aacute;guas revoltas do oceano. O acidente &eacute; para l&aacute; de fatal e a solu&ccedil;&atilde;o ofertada &eacute; fraqu&iacute;ssima. Mas acima de tudo est&aacute; o conceito, a ideia de uma conting&ecirc;ncia indispens&aacute;vel e lastreada na cren&ccedil;a de que sempre haver&aacute; uma esperan&ccedil;a se estivermos devidamente prevenidos.<\/p>\n<p>O caso da privacidade cibern&eacute;tica e da integridade dos dados exige da ind&uacute;stria de TI um paradigma de perseveran&ccedil;a semelhante. &Eacute; desafio do setor de seguran&ccedil;a da informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o apenas criar as criptografias (os algoritmos de barreira que, teoricamente, devem evitar a queda livre do &ldquo;avi&atilde;o da privacidade&rdquo; pelo simples fato de ele estar suspenso no ar). Precisamos tamb&eacute;m fomentar condutas que tenham a intimidade e o sigilo como premissas vitais, e que sejam repetitivas e reproduzidas por todos.<\/p>\n<p>Fomentar condutas, quer dizer, fazer que nossos sistemas &ldquo;impe&ccedil;am&rdquo; o usu&aacute;rio de espalhar seus dados (ou os dados empresariais que eles acessam) de forma indiscriminada e ing&ecirc;nua. &nbsp;Induzi-lo, atrav&eacute;s de requerimentos de software, ao comportamento digital respons&aacute;vel.<\/p>\n<p>E ao lado dessa tecnologia impositiva, &eacute; nosso papel projetar estrat&eacute;gias abrangentes para todo o ciclo da seguran&ccedil;a. O que inclui indicar &agrave;s empresas que o funcion&aacute;rio deve assinar termos de ades&atilde;o se comprometendo a algo equivalente a &ldquo;atar cintos&rdquo; e a &ldquo;n&atilde;o fumar&rdquo; quando navegando na rede da companhia.<\/p>\n<p>Resulta de tudo isto que combater na luta pela privacidade exige, em alguma medida, o ato paradoxal de se monitorar os h&aacute;bitos de navega&ccedil;&atilde;o das pessoas e disciplinar o modo como os indiv&iacute;duos (e aqui falamos mais especialmente dos internautas empresariais) se relacionam com as redes.<\/p>\n<p>Conscientizar funcion&aacute;rios de que seus passos s&atilde;o acompanhados por um sistema l&iacute;cito de controle que quase tudo v&ecirc; &eacute;, por incr&iacute;vel que pare&ccedil;a, uma medida essencial para se mitigar a exposi&ccedil;&atilde;o involunt&aacute;ria de informa&ccedil;&otilde;es pessoais que possam ser empregadas contra a intimidade destas pr&oacute;prias pessoas ou contra o sigilo e integridade dos dados corporativos.<\/p>\n<p>* (Rodrigo Fragola &eacute; Vice-Presidente de Seguran&ccedil;a do Sinfor (Sindicato da Ind&uacute;stria de Informa&ccedil;&atilde;o do Distrito Federal), Diretor Adjunto de Defesa da Assespro-DF e Presidente da Aker Security Solutions)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Fim da Privacidade e Os Desastres P&oacute;s-Modernos Por Rodrigo Fragola, (&Eacute; preciso encontrar novos meios de preserva&ccedil;&atilde;o da intimidade individual e do sigilo de dados na sociedade superconectada) Ao final dos anos 80, o te&oacute;rico &ldquo;p&oacute;s-moderno&rdquo; Paul Virilo assinalou que toda inven&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica acarreta o surgimento de uma nova forma de desastre. 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