{"id":11144,"date":"2020-06-19T09:05:51","date_gmt":"2020-06-19T12:05:51","guid":{"rendered":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/?p=11144"},"modified":"2020-06-19T10:13:45","modified_gmt":"2020-06-19T13:13:45","slug":"sonhos-podem-revelar-como-esta-o-processo-de-adaptacao-ao-novo-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/sonhos-podem-revelar-como-esta-o-processo-de-adaptacao-ao-novo-normal\/","title":{"rendered":"Sonhos podem revelar como est\u00e1 o processo de adapta\u00e7\u00e3o ao \u2018novo normal\u2019"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho-1024x682.jpg\" alt=\"Pesquisadores brasileiros mostram ser poss&iacute;vel mensurar o grau de sofrimento causado pela pandemia e pelo isolamento social. Foto: Pixabay\" class=\"wp-image-11146\" srcset=\"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho-300x200.jpg 300w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho-768x512.jpg 768w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho-696x464.jpg 696w, https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Pesquisadores brasileiros mostram ser poss&iacute;vel mensurar o grau de sofrimento causado pela pandemia e pelo isolamento social. Foto: Pixabay<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Karina Toledo <br>Ag&ecirc;ncia FAPESP <\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>E, de repente, foi preciso evitar beijos, abra&ccedil;os e at&eacute; um fraterno aperto de m&atilde;o. Usar m&aacute;scara para sair de casa, tirar os sapatos quando voltar, higienizar tudo com &aacute;lcool em gel. Dedicar mais tempo aos filhos, ficar longe dos amigos e dos colegas de trabalho. O quarto virou escrit&oacute;rio; a sala, academia; e o velho tapete azul trazendo&nbsp;lembran&ccedil;as do mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen&aacute;rio de isolamento imposto pela COVID-19, o c&eacute;rebro recorre aos sonhos para metabolizar as emo&ccedil;&otilde;es intensas vivenciadas durante o dia e assimilar eventuais experi&ecirc;ncias que possam favorecer a sobreviv&ecirc;ncia, em uma estrat&eacute;gia de adapta&ccedil;&atilde;o ao &ldquo;novo normal&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Segundo alguns te&oacute;ricos, a realidade on&iacute;rica &eacute; como uma super-realidade virtual que nos permite, em um contexto de medo profundo, treinar e melhorar a performance em aspectos cruciais do cotidiano&rdquo;, explica &agrave; Ag&ecirc;ncia FAPESP a neurocientista Natalia Mota, p&oacute;s-doutoranda no Instituto do C&eacute;rebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo dessa premissa, a pesquisadora analisou relatos de sonhos de um grupo de volunt&aacute;rios com o objetivo de investigar como estavam sendo afetados pela pandemia e pelo isolamento social. Os resultados do estudo &ndash; divulgados na plataforma medRxiv, ainda em vers&atilde;o preprint (sem revis&atilde;o por pares) &ndash; sugerem que, quanto maior era o grau de sofrimento do indiv&iacute;duo no primeiro m&ecirc;s da quarentena, mais comuns eram as men&ccedil;&otilde;es a termos associados &agrave; ideia de &ldquo;limpeza&rdquo; nos relatos on&iacute;ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho integra o projeto de p&oacute;s-doutorado de Mota, supervisionado pelos pesquisadores Sidarta Ribeiro (UFRN) e Mauro Copelli (Universidade Federal de Pernambuco). Ambos s&atilde;o coautores do artigo e integram o Centro de Pesquisa, Inova&ccedil;&atilde;o e Difus&atilde;o em Neuromatem&aacute;tica (NeuroMat), um CEPID apoiado pela FAPESP na Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ferramentas para uso cl&iacute;nico<\/h2>\n\n\n\n<p>Com apoio da rede NeuroMat, Mota desenvolveu nos &uacute;ltimos anos uma s&eacute;rie de aplicativos e softwares que permitem, por meio da an&aacute;lise do discurso, diagnosticar doen&ccedil;as psiqui&aacute;tricas, particularmente a esquizofrenia, com bastante acur&aacute;cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas ferramentas foram posteriormente adaptadas para fazer avalia&ccedil;&otilde;es cognitivas, principalmente de crian&ccedil;as na fase de alfabetiza&ccedil;&atilde;o, como explica Ribeiro. &ldquo;Vimos que um indiv&iacute;duo saud&aacute;vel come&ccedil;a a organizar seu discurso entre os cinco e os oito anos de idade e essa habilidade vai se aprimorando at&eacute; a idade adulta. Mas em pessoas com doen&ccedil;as como esquizofrenia essa capacidade em vez de avan&ccedil;ar come&ccedil;a a decair quando chega a adolesc&ecirc;ncia&rdquo;, diz o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos anteriores do grupo comprovaram que os relatos de sonhos se configuram no material mais rico para esse tipo de an&aacute;lise, pois garantem acesso direto ao que vai no inconsciente dos indiv&iacute;duos.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Se eu te contar como foi meu dia ontem, por exemplo, ser&aacute; um relato cronol&oacute;gico e baseado em fatos reais. N&atilde;o ser&aacute; muito diferente do relato de um paciente bipolar ou esquizofr&ecirc;nico. Mas quando comparamos narrativas on&iacute;ricas vemos que s&atilde;o completamente distintas&rdquo;, afirma Ribeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia&ccedil;&atilde;o do pesquisador, isso acontece porque o relato on&iacute;rico n&atilde;o &eacute; constru&iacute;do a partir da intera&ccedil;&atilde;o com outras pessoas e, portanto, a patologia n&atilde;o fica dilu&iacute;da na normalidade dos demais envolvidos na hist&oacute;ria. &ldquo;A narrativa &eacute; mais livre e 100% constru&iacute;da na mente do paciente&rdquo;, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos aplicativos desenvolvidos pelo grupo para uso cl&iacute;nico possibilita a coleta de dados, na forma de &aacute;udio, por meio do smartphone do pr&oacute;prio indiv&iacute;duo a ser avaliado. Para testar a viabilidade da ferramenta, entre os meses de setembro e novembro de 2019, os pesquisadores solicitaram a um grupo de volunt&aacute;rios saud&aacute;veis que enviassem o relato di&aacute;rio de seus sonhos em mensagens com no m&iacute;nimo 30 segundos de dura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Quando pretend&iacute;amos iniciar os testes em um grupo de pacientes com esquizofrenia veio a COVID-19 e, com ela, toda uma discuss&atilde;o sobre como a crise de sa&uacute;de estava alterando a qualidade do sono e o padr&atilde;o dos sonhos. Decidimos ent&atilde;o comparar nossa amostra coletada no per&iacute;odo pr&eacute;-pandemia com outra realizada no primeiro m&ecirc;s da quarentena, tamb&eacute;m com volunt&aacute;rios saud&aacute;veis, para ver as diferen&ccedil;as na estrutura e no conte&uacute;do do discurso&rdquo;, conta Mota.<\/p>\n\n\n\n<p>Relatos fornecidos por 67 volunt&aacute;rios foram avaliados por meio de tr&ecirc;s ferramentas desenvolvidas pelo grupo. A primeira, focada na estrutura do discurso, compara o qu&atilde;o complexa e conectada &eacute; a trajet&oacute;ria de palavras usadas na narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;O discurso de uma pessoa adulta, escolarizada e sem patologia mental costuma ser bastante conectado. O relato tem come&ccedil;o, meio e fim. J&aacute; o de um paciente com esquizofrenia, de modo geral, &eacute; mais pobre, bastante fragmentado e desorganizado. Mas como o estudo foi feito com volunt&aacute;rios saud&aacute;veis n&atilde;o vimos diferen&ccedil;a em termos de estrutura nos relatos pr&eacute; e durante pandemia, como esperado&rdquo;, diz Mota.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda e a terceira ferramentas t&ecirc;m como foco o conte&uacute;do do discurso. Uma delas mede &ndash; a partir da compara&ccedil;&atilde;o com dicion&aacute;rios padronizados &ndash; a propor&ccedil;&atilde;o de palavras inseridas em determinadas classes, como, por exemplo, conte&uacute;do sentimental. Foi analisada no estudo a quantidade de palavras associadas a emo&ccedil;&otilde;es positivas e negativas. &ldquo;De modo geral, os relatos de sonhos durante a pandemia tinham maior propor&ccedil;&atilde;o de palavras relacionadas &agrave; raiva e &agrave; tristeza do que no momento anterior&rdquo;, conta a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Por meio da terceira ferramenta &ndash; que mede a semelhan&ccedil;a&nbsp;dos relatos a temas espec&iacute;ficos por meio da constru&ccedil;&atilde;o de mapas de similaridade sem&acirc;ntica &ndash; foi poss&iacute;vel mensurar o quanto as palavras empregadas no relato est&atilde;o pr&oacute;ximas de termos como &ldquo;contamina&ccedil;&atilde;o&rdquo;, &ldquo;limpeza&rdquo;, &ldquo;doen&ccedil;a&rdquo;, &ldquo;sa&uacute;de, &ldquo;morte&rdquo; e &ldquo;vida&rdquo;.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Identificamos que os sonhos do primeiro m&ecirc;s da quarentena estavam mais associados aos termos contamina&ccedil;&atilde;o e limpeza, mas n&atilde;o notamos diferen&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; doen&ccedil;a e sa&uacute;de ou&nbsp;morte e vida. Nossa interpreta&ccedil;&atilde;o &eacute; que, naquele momento, as pessoas ainda estavam se adaptando &agrave;s regras mais r&iacute;gidas de higiene e ao medo da contamina&ccedil;&atilde;o. Possivelmente, o medo da morte e da doen&ccedil;a n&atilde;o tenha aparecido porque nenhum dos participantes ou familiares pr&oacute;ximos tinha&nbsp;contra&iacute;do a doen&ccedil;a at&eacute; ent&atilde;o&rdquo;, avalia Mota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final de um m&ecirc;s, os pesquisadores buscaram mensurar o grau de sofrimento mental de todos os participantes por meio de escalas psicom&eacute;tricas &ndash; question&aacute;rios padronizados e validados adotados em muitos estudos da &aacute;rea.<\/p>\n\n\n\n<p>&ldquo;Todos os volunt&aacute;rios apresentavam uma sintomatologia leve, mas havia uma grande variabilidade entre eles. Ao correlacionar a severidade dos sintomas &agrave;s peculiaridades que aparecem nos relatos dos sonhos, notamos que os indiv&iacute;duos que mais mencionavam&nbsp;termos relacionados &agrave; limpeza eram os que mais estavam tendo dificuldade para manter rela&ccedil;&otilde;es sociais de qualidade durante o primeiro m&ecirc;s de quarentena e mais estavam sofrendo com isso. Esse achado indica uma adapta&ccedil;&atilde;o mais pobre &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de isolamento social&rdquo;, conta Mota.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap&oacute;s o t&eacute;rmino do experimento, os pesquisadores solicitaram aos volunt&aacute;rios que avaliassem a experi&ecirc;ncia de observar os pr&oacute;prios sonhos ao longo de um m&ecirc;s. As respostas foram pareadas entre sensa&ccedil;&otilde;es positivas (como esperan&ccedil;a) e negativas (como ansiedade).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Mota, os aspectos negativos foram mais frequentes na avalia&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos cujos sonhos estavam mais relacionados aos termos &ldquo;contamina&ccedil;&atilde;o&rdquo; e &ldquo;limpeza&rdquo;. &ldquo;De maneira geral, conclu&iacute;mos que foi um processo ben&eacute;fico observar os sonhos nesse momento de pandemia. &Eacute; uma forma de olhar para nossas emo&ccedil;&otilde;es e refletir sobre o que estamos vivenciando e pode favorecer a busca por solu&ccedil;&otilde;es&rdquo;, avalia a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Ribeiro, o estudo mostra que os sonhos refletiram de forma r&aacute;pida e robusta as mudan&ccedil;as impostas pela pandemia, confirmando a exist&ecirc;ncia de uma continuidade entre sonho e vig&iacute;lia defendida desde os estudos iniciais de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). &ldquo;Aquilo que est&aacute; na sua vida on&iacute;rica e diz respeito a&nbsp;essa emerg&ecirc;ncia planet&aacute;ria se expressa como sofrimento quando voc&ecirc; est&aacute; desperto. Esse achado refor&ccedil;a a ideia proposta por Freud de que os sonhos s&atilde;o a via r&eacute;gia para o inconsciente e um material particularmente rico para diagn&oacute;stico&rdquo;, afirma o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\">\n\n\n\n<p><em>O artigo Dreaming during Covid-19 pandemic: Computational assessment of dreams reveals mental suffering and fear of contagion pode ser lido em https:\/\/www.medrxiv.org\/content\/10.1101\/2020.05.19.20107078v2.<\/em><br>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo Ag&ecirc;ncia FAPESP<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11146,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[20,1121],"tags":[230,1897],"class_list":{"0":"post-11144","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-destaques","8":"category-sociedade-do-futuro","9":"tag-comportamento","10":"tag-pandemia"},"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/covid-medo-trauma-sonho.jpg","post_mailing_queue_ids":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11144","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11144"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11144\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11144"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11144"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radardofuturo.com.br\/test\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11144"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}