A antecipação de tendências requer a identificação dos movimentos e o jogo de interesses, como em um jogo de xadrez. Imagem: Pixabay
A antecipação de tendências requer a identificação dos movimentos e o jogo de interesses, como em um jogo de xadrez. Imagem: Pixabay

Carlos Teixeira
Editor I Radar do Futuro

Com bastante razão, o setor de energia solar está apreensivo com a proposta da Aneel de revisão da resolução que trata da geração distribuída, feita pelos próprios consumidores. Em consulta pública iniciada no dia 15 de outubro, a agência responsável pela fiscalização e normatização das relações entre fornecedores e consumidores de energia elétrica propõe uma taxa sobre o valor da eletricidade que o consumidor produz e injeta na rede elétrica, principalmente com investimentos em painéis solares.

As distribuidoras de energia desejam um mecanismo para remunerar a manutenção de suas infraestruturas. Hoje, quase 100% do que o produtor individual entrega à rede volta como crédito para sua conta de luz. A Aneel propõe uma taxa que tende a impactar 68% do que é enviado para a distribuidora. Segundo os líderes do segmento de energia solar, a mudança, caso seja levada adiante, significa um grande desincentivo à instalação de sistemas alternativos, capazes de combater, inclusive, a crise do fornecimento no futuro.

O acontecimento envolvendo o mercado de energia diz muito sobre um fenômeno frequente, nem sempre avaliado adequadamente por especialistas em análise de tendências. Boas ideias sucumbem ao jogo de interesses dos atores econômicos, sociais e políticos. Para entender o que vem pela frente, é necessário ter em conta os reais mandatários dos sistemas. É essencial entender a correlação de forças, que pode levar ao abandono de boas ideias.

Interesses em jogo

Quem não suspeita que alguns remédios já poderiam chegar ao mercado, mas a falta de interesse da indústria em eliminar seus balcões de negócios impede a chegada nas inovações? Quem não imagina que algumas doenças poderiam ter cura? Por trás das perguntas, as respostas sempre chegam aos donos do poder, que podem fazer toda a diferença na visão de futuro.

Em 2016, o médico dinamarquês Peter Gotzsche comparava, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a indústria farmacêutica ao crime organizado. Ele considera o setor como uma ameaça ao desenvolvimento de uma medicina segura. “Isso é fato, não é acusação. A indústria sabe que determinada ação é errada, mas continua fazendo de novo e de novo. É o que a máfia faz. Esses crimes envolvem práticas como forjar evidências e fraudes”, afirmou na entrevista.

“A indústria farmacêutica na realidade não quer curar ninguém, e por um motivo bastante simples e direto: a cura é menos rentável do que a doença”, garantiu, mais recentemente,  o bioquímico e biólogo molecular inglês Sir Richard J. Roberts, vencedor do prêmio Nobel de medicina. Ele reconhece que as empresas farmacêuticas muitas vezes não estão tão interessadas em curar as pessoas.

Para o Nobel de medicina, a indústria de remédios prioriza a receita, os resultados para os seus acionistas. Por isso, pesquisas, de repente, são desviadas para a descoberta de medicamentos que não curam totalmente, mas que tornam crônica a doença e fazem sentir uma melhoria que desaparece quando se deixa de tomar a medicação”. No início da década atual, médicos davam como certa a perspectiva de cura para doenças como o Alzheimer e alguns tipos de câncer. Ainda hoje, as promessas não se concretizaram.

Questão de método

Um profissional envolvido com análises de tendências, seja um gestor da área de marketing, um planejador ou um futurista, pode cometer sérios equívocos se não levar em conta a força dos atores envolvidos. E se não compreender os valores reais que movem os envolvidos nos processos de inovação. É comum perceber tais profissionais se deixando levar pelo discurso superficial e generalista de relatórios sobre megatendências, sem entender de fato as disputas envolvidas.

Por exemplo, as projeções sobre os avanços da robótica e da automação devem levar em conta a disposição dos empresários em investir. Afinal, as tecnologias estão disponíveis e suficientemente avançadas para a disseminação. Mas, no final das contas, o que já retarda e tende a manter lenta a adoção das inovações é o fato de que, no caso brasileiro, a mão de obra barata, no ambiente de alto desemprego e queda da renda global, tende a ser uma garantia de preservação dos postos de trabalho para humanos.

Um trabalho bem feito de análise envolve a listagem e identificação de cada um dos atores e a classificação em grupos, para possibilitar a avaliação da correlação de forças. Leva em conta grupos econômicos, políticos e sociais. Podem existir grupos numericamente grandes, mas com pouco poder de influência. E o inverso é verdadeiro, umas poucas pessoas com grande força econômica ou política, capazes de definir o sucesso de um produto ou os rumos de um país.

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