Psicologia e futuro: como serão as consultas pós-isolamento?

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Consultório com duas cadeiras vazias - foto Pixabay
Com o isolamento, o profissional de psicologia teve de se adaptar às novas tecnologias de comunicação para trabalhar. Será que os clientes voltarão para os consultórios?

Carlos Plácido Teixeira
Jornalista I Radar do Futuro

Após o fim do período de isolamento, será que os clientes voltarão aos consultórios de psicologia? Tenho minhas dúvidas. Quando a vacina contra o coronavírus nos liberar para uma vida sem máscaras, uma das coisas que pretendo manter será a sessão de terapia a distância. Enfrentarei resistência da minha psicanalista, tenho certeza. Sei que ela vai querer me convencer que não. A presença física, afinal, é essencial no processo terapêutico. Possibilita o olhar direto. Como toda boa profissional, ela valoriza a possibilidade de perceber reações corporais, o cruzamento de braços e pernas, a contração dos músculos do rosto.

A energia do aperto de mão quando o paciente chega, a batida na porta revelando confiança ou medo. Os sinais que emitimos consciente ou inconscientemente. Ok, a presença física diz muito, como já diziam os velhos pais da psicanálise. Imagino o que Freud e Jung, entre outros estudiosos da complexidade da mente humana, diriam sobre a possibilidade de terapias a distância.

Não sei se serei o único a tentar convencer a psicanalista a manter as conversas a distância. Desde o início da pandemia, os meus encontros foram marcados por diversidades de situações. Inicialmente, em conversas por telefone, sem imagem de nós, interlocutores. Nos primeiros dias, em casa, preparei o sofá-cama para ser o meu divã. Fiz a chamada e, como nunca havia ocorrido presencialmente, fechei os olhos e conversei como se estivesse deitado, ouvindo a voz do inconsciente. O fone de ouvido deu mais vitalidade para as intervenções da analista. Tive a sensação de um melhor foco para as ponderações.

Outras sessões foram realizadas no interior, no isolamento de um sítio, sob o sol do início do dia. Instalado em uma cadeira, com eventuais distrações de cachorros carentes de atenção e passarinhos. Finalmente, a experiência mais recente. Utilizando a câmera, via WhatsApp. No meu caso, instalei o celular em um tripé, mantendo distância suficiente para oferecer visibilidade para a maior parte do meu corpo. Sentado em um sofá, como estaria no consultório de psicologia. O enquadramento da analista focou o rosto, o que fugiu um pouco de meu roteiro imaginado para a cena. A conversa foi ótima, fluiu com as sensações de presença.

Virtual x presencial

Presença será a palavra-chave de algumas das conversas entre os profissionais de psicologia e os clientes em uma eventual era de retorno à normalidade, seja lá o que isso for. Psicanalista de mente aberta e atenta às inovações das tecnologias e dos comportamentos individuais e sociais, Júlia Ramalho Pinto reitera a tese de que se tem algo que não muda profundamente no processo de virtualização é a ideia de presença. A capacidade de escuta, de neutralidade do psicólogo, de estar ali para o paciente.

Eu, na relação com a minha terapeuta, concordo totalmente sobre a importância dos elementos de humanização no contato do relacionamento com quem me ouve. Mas resta saber se estaremos priorizando o conforto de não enfrentar trânsito, transportes deficientes e tempo encurtado, entre outras facilidades propiciadas pelas tecnologias. Há um prazer envolvido na possibilidade de, encerrada a sessão de psicologia, ficar um tempo ali sentado, pensando no que foi dito e ouvido. Abrir a porta e já estar na cozinha para tomar um café. Ou para voltar logo ao trabalho e deixar de lado as inquietações mexidas.

O fato é que somos testemunhas da grande mudança que impacta as profissões, generalizadamente, neste início dos anos 2020, quando o futuro tecnológico chega de verdade, com toda força de mudança. Júlia Ramalho reconhece que a pandemia acelerou a adoção de algo que era incipiente e que já começava a ser autorizado pelo Conselho de Psicologia. “O teleatendimento seria adotado de qualquer forma nos próximos anos. A pandemia deu o empurrão”, assinala.

Iniciativas de implantação do teleatendimento já vinham sendo adotadas, como experiências vigiadas para conhecer resultados, corrigir rumos e evitar excessos. Pelo menos uma startup, empresa de base tecnológica, já vinha experimentando a intermediação entre pacientes e profissionais de psicologia. O vírus simplesmente apressou o processo. Mostrou, inclusive, que as tecnologias de comunicação online, que também seriam testadas nos próximos anos para viabilizar o funcionamento das redes, também estavam pronta.

A experiência com a realidade virtual já é uma tendência capaz de reduzir a sensação de distância. Caminhamos para o futuro em que a holografia será uma tendência. Os psicoterapeutas chamarão os clientes para o consultório virtual. Você poderá mudar para uma ilha distante e manter as suas sessões de psicologia. Ter a sensação tátil de cumprimentar virtualmente. Você acordando em alguma cidade brasileira, cheia de energia para mais um dia de trabalho, e seu paciente no Japão, buscando entender o dia de atividades massacrantes.

Transformações no tempo

Quando Júlia Ramalho começou a atuar profissionalmente, em 2000, depois de ter cursado e passado por empregos em administração, a psicologia era analógica, assim como o mundo. A internet vivia o seu início, com acesso discado e sites simplórios, mesmo os mais sofisticados. A divulgação do trabalho dependia da propaganda boca a boca. Muitos recém-formados entravam para a carreira universitária para ganhar prestígio e conquistar clientela. Frequentar grupos de especialistas era outro caminho comum. Em resumo, ter uma clientela era o resultado de esforço de anos.

A evolução das tecnologias facilitou o processo. A disseminação da internet a cabo, os smartphones e as mídias sociais, incluindo o WhatsApp desenharam um novo cenário para a inserção dos profissionais. Júlia Ramalho considera que a entrada do Iphone, em 2007, foi uma marca da aceleração das mudanças na sociedade a partir da década passada. “Hoje, o psicólogo está nas redes dando entrevistas, participando de conversas, fazendo lives pessoais e gerenciando programas de esclarecimentos sobre temas que inquietam os indivíduos”.

Em tempos de inquietação e de influência extremada dos smartphones e da internet, a psicologia saiu da redoma, do isolamento. A sobrevivência futura depende da compreensão de que não há passado para retornar. Para Júlia Ramalho, o psicólogo que estiver mais aberto para entender qual o papel dele e qual a contribuição das outras areas que tangenciam o humano desse global, desde a yoga e meditação até a neurociência, terá a oportunidade de fazer toda a diferença. para cada coisa vai exigir a outra área de competência.

Será necessário compreender também a necessidade de interação com outras áreas de conhecimento, que tendem a ocupar espaços das profissões que se apegarem a práticas tradicionais. Ou seja, que não percebam a mudança dos mercados, dos clientes e da sociedade. É necessário entender os papeis e limites do ser humano. Assim tenho condições de atender de uma forma bem mais completa. Uma psicologia fechada não tende a ser um bom caminho. Temos de entender o que as pessoas estão buscando, e as soluções também estão em outras áreas”, diz a psicanalista.

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Entrevista:

Júlia Ramalho Pinto – Psicanalista

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