Lawtechs: o futuro do setor jurídico
Escritórios de advocacia investem na agilidade prometida pelas lawtechs

Desenvolvimento de aplicativos de lawtechs resolvem problemas, mas provocam temores entre advogados

Carlos Teixeira
Radar do Futuro

A tecnologia é a saída para a solução do acúmulo de demandas na Justiça brasileira. Advogados podem encarar como uma ameaça para o futuro. Com alguma razão, eles temem a possibilidade de perder o reservatório sem fundo dos confrontos de interesses entre pessoas e instituições. Mas avanço das lawtechs’, start ups de tecnologia que desenvolvem sistemas e aplicativos para a área jurídica, não será travado. Nem processos no próprio judiciário conseguirão reverter a tendência.

Lawtechs se enquadram, já home, como solução para uma necessidade social. Ainda mais em um país como o Brasil. Segundo o levantamento Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça, o Brasil tem 102 milhões de processos. E um milhão de advogados. A conta é simples: 102 processos para cada advogado.

Para cada 209 habitantes há um advogado pronto para fornecer um cartão e oferecer seus serviços assim que você se envolve em alguma trivial batida de carros na rua. Uma das maiores densidades do mundo. Nos EUA, a proporção é de um a cada 246 pessoas, e no Reino Unido, um a cada 354 habitantes.
O Brasil também é o país com o maior número de cursos de direito no mundo. São 1.174 cursos de graduação na área. Nos Estados Unidos são 280, e no Reino Unido, 95, segundo a OAB. Para ser advogado no Brasil, é preciso obter um diploma de graduação em direito, passar em um exame e pagar uma tarifa anual à entidade que representa a categoria.

Um problema interminável

Nem mesmo o batalhão de advogados em atividades e os frequentadores das carteiras universitárias são capazes de garantir acesso justo e ao judiciário. Muito menos rápido. Pense aqui. O Brasil tem, hoje, 79,7 milhões de processos em tramitação na Justiça. É uma fila que não parece andar. Em 2016, por exemplo, 27% dos processos andaram. Antes que alguém pudesse comemorar, o mesmo tanto entrou no final.
Os 18 mil magistrados do País não são suficientes para fazer a fila andar. E muito menos para zerar, claro. E nem adianta dobrar o número deles. Anualmente os cofres públicos gastam 84,8 bilhões de reais com a estrutura jurídica. É necessário reconhecer que, na ponta do setor público, os tribunais realizam investimentos em tecnologias para agilizar os procedimentos, com o objetivo de  dar  maior velocidade para as demandas da sociedade.
Por trás de todo o ritualismo dos velhos desembargadores e juízes, mesmo com todo apego a práticas conservadoras, há movimentos de eliminação de papeis e de burocracia. Que só não vai andar ainda mais rápido porque há interesses envolvidos. Em algumas situações, a própria burocracia não tem interesse em fazer as coisas andarem. Os cartórios, que reduziram os prazos de validade das certidões de nascimento, por exemplo, podem ser pedras no caminho da evolução. A conferir.
No outro lado do balcão de negócios jurídicos, as lawtechs conquistam clientes nos escritórios. E os mais preocupados parecem ser os trabalhadores – sim, advogados também são – envolvidos com as atividades mais rotineiras. São muitas tarefas passíveis de automação. Consultar bancos de dados de jurisprudência, verificar a legislação, cruzar dados entre casos, providenciar documentos são algumas das tarefas repetitivas que vão sendo destinadas aos sistemas informatizados.

Lawtechs e a linha do tempo

Há quem aposte que seu advogado vai levar mais alguns anos para ser substituído por um robô. Segundo os evangelizadores tecnológicos, escritórios de advocacia já estão automatizando parte do trabalho e incluindo softwares de inteligência artificial para ajudar os clientes a resolver problemas legais.

Segundo um relatório publicado pela consultoria americana Deloitte, nos Estados Unidos a tecnologia já contribuiu com a extinção de 31 mil postos de trabalho na área do direito. A previsão é de que mais de 40% das atividades do setor possam se tornar obsoletas em 20 anos. Alguns teóricos amenizam o tom apocalíptico das previsões sobre o futuro.

Para os analistas, não haverá uma substituição. Uma integração entre humanos e tecnologias pode ajudar. Mas os advogados terão que adquirir novas habilidades para conseguirem se manter no mercado. Entre as novas competências, a exigência de maior capacidade de interpretação de dados.