As ciências sociais serão forçadas a repensar métodos e práticas foto pixabay
As ciências sociais serão forçadas a repensar teorias e práticas

Carlos Teixeira
Jornalista – Editor do Radar do Futuro

Em mais alguns poucos anos, as pesquisas políticas, sociais e comportamentais tendem a ser feitas integralmente pela internet. Projeções sobre a vitória do candidato “a” ou “b” em eleições gerais serão feitas integralmente com a análises de dados na rede. Sem a necessidade de equipes de pesquisadores nas ruas. 

Será o resultado da combinação de ferramentas programadas por sistemas de captação e análise de dados, baseados em inteligência artificial que, já hoje, possibilitam o acesso a grandes bases dados, o big data. Também as pesquisas de opinião e de compreensão sobre hábitos de grupos da população terão as suas metodologias alteradas profundamente, graças à influência crescente da digitalização.   

A tendência coloca em questão o debate sobre o papel desempenhado por áreas que raramente se entendem, como a sociologia e a ciência exata. Responsável por projetos do departamento de Ciências Computacionais da UFMG, um professor constatava, em palestra sobre a inteligência artificial, a dificuldade de atração de profissionais das áreas sociais e humanas para a criação de projetos conjuntos. Aparentemente, barreiras de visão de mundo impedem a troca de conhecimentos e a produção de trabalhos conjuntos.

Outras áreas integram os grupos de pesquisas com a computação, como a saúde. Nos laboratórios da ciência da computação, pesquisadores de tecnologia se misturam, hoje, com médicos, engenheiros, estatísticos, cientistas da informação e biólogos, entre outros, para a geração conjunta de novas ideias de aplicações da inteligência artificial e de análises de dados. Pesquisadores da medicina, por exemplo, participam ativamente de iniciativas voltadas à criação de novos produtos digitais capazes de agilizar, por exemplo, procedimentos de diagnóstico de doenças. 

 

Uma visão geral da busca do Google com o uso de palavras-chave que envolvam tecnologia e sociologia, por exemplo, parece mostrar como, para a ciência social, tecnologia é, basicamente, campo de estudo. Os estudos desenvolvidos por sociólogos e cientistas políticos listados no sistema de pesquisa se concentram essencialmente na tentativa de compreensão dos impactos prováveis das inovações das tecnologias em segmentos da sociedade, em questões como o futuro do trabalho. 

 

Além de concorrência com outros especialistas, como estatísticos, a área será forçada a repensar conceitos adequados ao processo de digitalização das relações.  O cientista político, consultor Arthur L. A. da Silva, professor universitário em Recife, não acredita que exista, propriamente, uma concorrência entre áreas. “Até porque as ferramentas de inteligência artificial não ‘querem’ nossos trabalhos. De modo que o termo concorrente é impreciso”. Ele reconhece, porém, que certamente há, e deve continuar havendo, impacto do uso das novas tecnologias sobre o mercado de trabalho, com impactos como o fechamento de vagas. 

 

“Outras – em menor quantidade, mas mais bem remuneradas – devem abrir. Tudo isso associado a uma elevação geral na produtividade”, assinala. Para Arthur da Silva, mesmo a influência dos especialistas em tecnologias pode ser relativizada pois os analistas políticos estão mais e mais familiarizados com obtenção, processamento e análise de dados quantitativos. 

 

De fato, os atuais alunos universitários, a geração com até 30 anos, por exemplo, são nascidos no ambiente da informatização. São filhos da internet. O professor argumenta que o programa de pós-graduação de Ciência Politica da Universidade Federal de Minas Gerais é um dos principais espaços de formação de profissionais com o perfil de sólida formação teórica associado a desenvolvimento metodológico avançado. “Estatísticos ‘sangue puro’ são profissionais cada vez menos necessários em nosso meio …”, garante o cientista político.

 

Divisão digital

 

No estudo “A sociedade digital: um desafio para o século XXI”, o doutor Leonardo Fernandes do Nascimento revela uma visão mais preocupada com os efeitos de uma “divisão digital’, que separa o campo de atuação dos especialistas entre “aqueles digitalmente habilitados e uma outra parte de pesquisadores completamente desprovidos ou parcamente munidos da mesma expertise”. Não é uma questão apenas de domínio das tecnologias. Também envolve a percepção sobre a necessidade de reconfigurar bases teóricas da ciência.

  

Leonardo do Nascimento reconhece que há o surgimento de jovens especialistas em big data. São jovens pesquisadores que aliam a expertise em programação e estatística avançada com a análise sociológica e que manejam grandes bancos de dados com poucas linhas de programação”, diz o autor. 

 

O receio é de que uma parte desses pesquisadores – que são pejorativamente chamados de “quantitativistas” – de fato guardam um desprezo vigoroso pela teoria sociológica dissociada dos dados.  Esta oposição entre dois grupos diferenciados e opostos configura o que foi denominado de data analysis divide — divisão da análise dados. Uma divisão social do trabalho de coleta, análise e produção de resultados que pode vir a causar graves problemas metodológicos, pois cada uma destas 

etapas possui, em relação às outras, efeitos de retroalimentação.