Brasil segue atrasado na adoção de tecnologias
Baixo crescimento da economia interna tende a perpetuar o atraso da adoção de novas tecnologias

Com baixos investimentos em inovação, o País está fadado a ficar para trás em qualidade de vida

Carlos Teixeira
Jornalista I Futurista

No sistema econômico brasileiro, a substituição de trabalhadores humanos por robôs ou algorítimos vai ocorrer em uma velocidade inferior à de países avançados ou em desenvolvimento. Não, a informação não é exatamente positiva para trabalhadores preocupados com as perspectivas de perda de empregos para robôs e sistemas automatizados. Ao contrário, é mais um sinal da abundância de dados negativos sobre o futuro do país.

O fato é que o Brasil não consegue — e continuará não conseguindo — ser nem mesmo um azarão na disputa com as principais potências econômicas do planeta. Países emergentes como a China, Coreia do Sul e Malásia, além dos líderes tradicionais da Europa e os Estados Unidos se distanciarão à frente na corrida da revolução digital. A economia brasileira já tem a opção clara de ficar para trás. Mesmo que o discurso oficial tente dizer o contrário.

A robotização deve (e já é) ser adotada de forma mais lenta, entre outras justificativas, porque a tendência de queda do poder aquisitivo da população e de aumento da concentração de renda preserva a perspectiva de oferta futura de mão de obra barata. Algo que nem mesmo a China se interessa em ser mais. São variáveis favoráveis ao atraso da adoção de tecnologias.

Indicadores sociais fracos

Pelo andar da carruagem, será mais barato para o empresário do comércio manter um vendedor em pé na loja para fechar pedidos em uma loja do centro da cidade. Ou um humano no caixa recebendo pagamento ao invés de ter equipamentos realizando os processos comerciais. É bastante razoável concordar sobre a importância de preservação de empregos, ainda mais no atual momento de retração da economia.

Em tese, alguém dirá que é um ponto positivo para o País. Mas o argumento é falso, pelos sinais que emite. Seria positivo, de fato, se o objetivo dos empresários fosse o de preservar empregos. Se uma espécie de onda de humanismo impregnasse a mente do “homem econômico brasileiro” e houvesse a eclosão de um pensamento que coloca a qualidade de vida dos trabalhadores acima da capacidade de concentrar lucratividade.

Robotização lenta

Não será o caso. Simplesmente porque, como reconhece até mesmo o Fórum Econômico Mundial, em alguns de seus estudos sobre tendências globais, a concentração de renda e, consequentemente, o aumento da pobreza serão crescentes nos próximos anos. Em especial nos países periféricos. O adiamento dos processos de automação e robotização significa que os investimentos em melhoria de condições de vida não serão concretizados em qualquer horizonte que se pretenda ver. Não há melhoria de vida nos Estados. Não haverá no Brasil.

Estudos externos, produzidos empresas de consultoria, e internos demonstram que o Brasil precisa superar atrasos gigantescos na área de automação industrial, um dos alicerces da digitalização das fábricas. Com um parque industrial em processo de esvaziamento, o país tem índices mínimos de robotização. Hoje, segundo estimativas da consultoria McKinsey, há uma média 12 robôs para cada 10 mil empregados do setor industrial.

Alemanha e Estados Unidos, por exemplo, contabilizam, respectivamente, com 301 e 176 autômatos para os mesmos 10 mil. A Coreia do Sul, que já foi um dos países mais pobres do mundo e até os anos 1980 mal tinha um setor industrial, é a economia mais robotizada do planeta, com 531 máquinas por grupo de 10 mil trabalhadores.

No Brasil, o volume de compras de robôs é lento. E deve continuar no mesmo padrão quando se constatar, brevemente, que a recuperação esperada da economia não virá no curto prazo. Em 2016, as empresas brasileiras compraram cerca de 1,6 mil unidades. Em 2011, ano em que a economia ainda rodava a uma velocidade acelerada, o Brasil dobrou o volume de encomendas de robôs — e mesmo assim foram adquiridas apenas 1 440 unidades.

Cultura empresarial

“Ainda existe uma resistência muito grande dos pequenos e médios empresários em robotizar as operações”, diz, em matéria publicada pela revista Exame, Edouard Mekhalian, diretor-geral da KuKa Roboter no Brasil, uma das maiores fabricantes de robôs industriais do mundo. “Enquanto isso, a China — novamente ela — deve ultrapassar a marca dos 100 mil robôs comprados em 2017”.

Um outro estudo, publicado pela consultoria PwC, destaca que apenas 9% das empresas brasileiras se classificam como avançadas em níveis de digitalização. O baixo percentual brasileiro fica ainda mais expressivo quando comparado à média global ou a países do mesmo bloco. No México, por exemplo, 40% das empresas já acreditam estar em um nível avançado de digitalização. A distância dos países do BRICS também é grande: África do Sul e Índia, com 27%, e China, com 40%.

No final das contas, o país terá seus processos de automação e robotização por apostar em informações inviezadas. Além de uma visão excessivamente ideologizada sobre o papel do estado, algo que mesmo os Estados Unidos seguem, há apostas que vão significar o esvaziamento do mercado interno. O país volta a agir como fornecedor de mão de obra barata, que será o resultado prático da “modernização” das relações de trabalho. Nem mesmo a China enxerga vantagem nesse aspecto. Sem condições de competir no mercado externo, o país está fadado a não se desenvolver.

“A mão de obra barata dos países em desenvolvimento não estará mais competindo com a mão de obra cara dos países desenvolvidos, mas com os robôs. Será preciso, então, encontrar outro caminho”, avalia Daron Acemoglu, professor de economia no Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT), co-autor do livro Por Que as Nações Fracassam, sobre o papel das instituições no desenvolvimento.