CARLOS PLÁCIDO TEIXEIRA
Jornalista, criador e produtor do Radar do Futuro
André, o filho da Raquel, volta da escola com o mau humor do pré-adolescente que descobre o mundo como uma aberração. Com muito esforço, depois de horas fechado no quarto, envolvido com os dilemas da vida pessoal, finalmente desabafa:
— Meus colegas estão rindo de mim.
— O que aconteceu? — questiona a mãe, verdadeiramente interessada, ao contrário das outras mães que apresentam sérios déficits de atenção.
— Eles dizem que sou estranho — sussura o jovem, com olhar triste e aborrecido.
— Por que eles dizem isso?
— É que eu disse que penso, logo existo. Acho que eles nem entenderam o que eu disse.
Em 2029, pensar virou motivo de bullying dentro das escolas, no trabalho de quem ainda tem trabalho, nas reuniões familiares e encontros com os poucos amigos. “Você ainda perde tempo com isso?”, ironiza, na sua rede social, o sujeito que nem te conhece, mas se julga com liberdade para lançar julgamentos sobre comportamentos alheios. A dissonância cognitiva está em todos os cantos. Ninguém precisa mais usar o cérebro para refletir sobre os acontecimentos.
— Para que pensar se temos nossos agentes de inteligência artificial? — dizem os seus velhos amigos, de quem você se distanciou porque cansou da falta de assunto. Influenciadores dizem, agora, que é brega raciocinar, refletir, discernir, ponderar, cogitar e qualquer outro sinônimo de pensar. As características humanas ganharam conotação negativa. Na rua, os esquisitos são discriminados. Quase agredidos, até.
— Sabe a Raquel? Ela insiste em pensar — fofocam as amigas, enquanto pedem às suas agentes de inteligência instruções para colocar sapatos, dar descarga na privada e acender a luz do quarto. Ninguém sabe quando exatamente pensar passou a ser um hábito fora de moda. A mãe do André já foi chamada de brega. Algumas pessoas já consideram que pensar é falta de respeito com quem está perto.
Uma parte da minoria que permanece pensante acredita que a crença surgiu a partir de 2027. Na época, escrever começou a ser desnecessário. Com o avanço da superinteligência artificial, as pessoas se acostumaram a conversar com o celular e outros aparelhos usando apenas a voz.
— Descanse seu cérebro, deixe a sua agente de IA te ajudar a ter tempo para o essencial — diziam as primeiras campanhas da época. As empresas de tecnologia foram convencendo a sociedade de que a inteligência artificial poderia fazer tudo o que o Tico e Teco de cada um seria capaz. “Deixe os seus neurônios em paz”, sugeriam.
Resistente, defensora das tradições humanas, ao ponto de manter uma biblioteca em casa, Raquel olha para o filho e compreende a dimensão da tragédia silenciosa. Em casa, ela guarda um exemplar físico de um livro que tem o título de ” Não Me Faça Pensar”.
— O autor foi um visionário — reflete a mãe do André. Três décadas depois do lançamento da obra em papel, a proposta do consultor Steve Krug se consolidou como padrão absoluto. No livro, ele defendia que um site ou software deveria ser inteiramente intuitivo, poupando qualquer esforço mental do usuário. Nem mesmo Krug podia prever, no entanto, que a busca desenfreada pela conveniência exterminaria a própria autonomia cognitiva da sociedade.
Ironicamente, as recomendações para os criadores deram resultados muito mais amplos do que ele poderia imaginar. O Homem tornou-se um servo dócil da facilidade, aplaudindo a própria obsolescência enquanto entregava às máquinas até o direito elementar de duvidar.
